Análise: Trump injeta altos riscos ao mudar as relações com a China

Jane Perlez e Chris Buckley

Em Pequim (China)

  • Evan Vucci/ AP

    24.jan.2017 - O presidente Donald Trump assinou a ordem executiva que retira os EUA do acordo econômico no seu terceiro dia no poder

    24.jan.2017 - O presidente Donald Trump assinou a ordem executiva que retira os EUA do acordo econômico no seu terceiro dia no poder

Para a China, o fato de o presidente Donald Trump ter tirado os Estados Unidos do acordo comercial com países do Pacífico é uma chance de estender a influência econômica e política de Pequim. E é uma oportunidade de aprofundar seus laços com vizinhos na Ásia.

Mas com uma economia interna em desaceleração e uma iminente mudança radical na liderança, a última coisa que o presidente Xi Jinping quer é uma guerra comercial, embora alguns oficiais estejam se preparando para essa possibilidade. Em vez disso, os líderes da China preferem estabilidade e previsibilidade.

Sinais dados há algum tempo indicam que eles podem não conseguir o que querem. Os chineses temem que, já que Trump está disposto a jogar fora anos de delicadas negociações com aliados e décadas de política comercial dos Estados Unidos, ele também possa seguir seu próprio caminho em questões que ele delimitou com Pequim, incluindo Taiwan e o Mar do Sul da China.

Como se quisesse reforçar essa questão, na segunda-feira —mesmo dia em que Trump se retirou da Parceria Transpacífico (TPP), o acordo comercial entre 12 países— seu porta-voz disse que os Estados Unidos impediriam que a China acessasse ilhas que ela reivindicou no Mar do Sul da China, uma ameaça que um jornal chinês nacionalista já alertava que iria significar guerra.

"Isso mostra que Trump pode cumprir o que fala", disse Deng Yuwen, um comentarista de assuntos públicos em Pequim, em uma entrevista. "Com presidentes anteriores, as promessas eleitorais deles não eram levadas tão a sério".

Ele acrescentou: "Isso significa que a China deve levar seus outros alertas mais a sério, especialmente sobre o Mar do Sul da China e Taiwan".

O objetivo de Trump ao sufocar o acordo comercial era proteger os empregos e os negócios dos americanos. Seus representantes comerciais argumentaram que o acordo não fazia o suficiente para ajudar os Estados Unidos ou conter a China, que não foi convidada a aderir ao acordo.

Mas ao matar um acordo planejado para limitar o amplo alcance econômico da China na Ásia e ancorar a presença dos Estados Unidos na região de crescimento mais rápido do mundo, segundo analistas, Trump criou um vácuo que Xi já estava planejando preencher.

Ainda na semana passada, Xi ensaiava assumir uma liderança global no Fórum Mundial Econômico em Davos, na Suíça, sugerindo que, com o recuo dos Estados Unidos, a China estava preparada para vir à frente como defensora do livre-comércio e protetora do meio ambiente global.

Xi manteve a economia da China atrás de altos muros e a China continua sendo a maior emissora mundial de gases de efeito estufa, mas inconsistências nunca atrapalharam o presidente.

"Isso é de fato uma grande vitória para a China na luta pela liderança mundial", disse Zhang Baohui, diretor do centro para estudos sobre Ásia e Pacífico na Universidade de Lingnan em Hong Kong. "Trump está entregando essa oportunidade para provar a contínua relevância da primazia americana".

O fim do acordo comercial provavelmente acelerará a pressão de Pequim por seu tratado comercial alternativo centrado na China, a Parceria Abrangente Econômica Regional.

Esse acordo excluiria os Estados Unidos e reduziriam ou eliminariam tarifas comerciais entre a China, países do Sudeste Asiático, Japão, Austrália, Índia, Japão, Coreia do Sul e Nova Zelândia. Ele inclui poucos dos aspectos da TPP que teriam sido muito incômodos para Pequim, como as proteções a sindicatos independentes e o meio ambiente, e requerimentos de que empresas estatais se comportem mais como empreendimentos comerciais.

O acordo estagnou por rupturas entre países do Sudeste Asiático e os outros, mas a ministra do Comércio da Tailândia, Apiradi Tantraporn, disse na segunda-feira que a expectativa é de que as conversas "sejam aceleradas" sem a TPP.

Mas o fim da TPP não será a palavra final de Trump sobre o comércio com a China.

Seus representantes comerciais dizem esperar um maior acesso ao mercado chinês em troca do acesso fácil que os produtos chineses têm aos Estados Unidos. E eles parecem preparados para correr o risco de uma guerra comercial, uma competição de tarifas em retaliação e outras restrições comerciais, para conseguir isso.

Representantes comerciais de Trump ameaçaram impor altas tarifas sobre bens chineses, a começar por produtos altamente subsidiados como aço e alumínio, importados pelos Estados Unidos. "É meio estranho que tenhamos tarifas muito baixas e a China tenha tarifas muito altas", disse Wilbur Ross, indicado para secretário do Comércio, em sua audiência de confirmação no Senado na semana passada.

Na semana passada, a China propôs permitir um maior investimento estrangeiro em determinados setores, mas havia pouca confiança de que as recomendações fossem ser seguidas em um futuro previsível, e empresas americanas disseram que se sentem menos bem-vindas na China do que antes.

Embora conselheiros de Trump digam que a China tem mais a perder do que os Estados Unidos em uma guerra comercial, representantes chineses disseram a empresários americanos que estavam em visita na semana passada que Pequim estava preparada. Eles haviam elaborado listas de opções punitivas que adotariam contra os Estados Unidos caso Washington tomasse a iniciativa, segundo eles.

"Os sinais são muito claros: se isso será uma guerra comercial, a China reduzirá as importações de aeronaves americanas da Boeing e de produtos agrícolas", disse Wu Xinbo, diretor de Estudos Americanos na Universidade de Fudan em Xangai.

"Podemos nos voltar para a Europa, a Austrália e o Canadá para esses produtos. E sabemos que de 20 a 30 dos Estados nos Estados Unidos com grandes lobbies ruralistas e fábricas da Boeing colocarão pressão sobre o Congresso."

Um especialista em comércio americano que há muito tempo atua na China concordou, dizendo que a China estava preparada para comprar a briga.

"Seria mais sábio a equipe comercial de Trump guardar o 'A Arte da Negociação' e focar na 'Arte da Guerra', se eles realmente quiserem saber o que virá pela frente nas relações comerciais entre Estados Unidos e China", disse James Zimmerman, sócio administrador da filial em Pequim do escritório de advocacia Sheppard, Mullin, Richter & Hampton que trabalhou na China por 19 anos.

"A China vê o Trump como um tigre de papel que provavelmente recuará nas questões complicadas e espinhosas que não são negociáveis. Os chineses também sabem que Trump não arriscará uma guerra comercial, por medo de que a comunidade empresarial fique indignada."

No entanto, outros detectam uma ansiedade e interpretam a aparente confiança da China como uma bravata. Bilahari Kausikan, embaixador itinerante para Cingapura, disse que a China tinha "uma verdadeira insegurança a respeito de uma guerra comercial".

Ambos os lados provavelmente perderão, segundo ele, mas a China tem chances de perder mais "já que a ordem política doméstica dos Estados Unidos não está em risco da mesma forma que o governo do Partido Comunista Chinês está".

Os próximos meses, quando Xi estiver focado em escolher novos membros da Comissão Permanente para seu segundo mandato de cinco anos, serão um período político particularmente tenso, e uma instabilidade econômica é a última coisa da qual ele precisa. Da mesma forma, ele tentará a qualquer custo parecer forte para seu público doméstico e nacionalista diante das provocações de Trump a respeito de Taiwan e do Mar do Sul da China.

Trump sugeriu que a política da "China Única", pela qual os Estados Unidos reconhecem o governo de Pequim mas não Taiwan, não é sacrossanta, o que é uma grande preocupação para Xi.

"Em um ano de transição política, Xi não pode ser dar ao luxo de parecer fraco", disse Paul Haenle, diretor do Centro Carnegie-Tsinghua para Política Global em Pequim, que atuou como diretor para a China no Conselho de Segurança Nacional no mandato do presidente George W. Bush e do presidente Barack Obama. "Taiwan é a principal das questões para a China, um ponto-chave. Muitos chineses ressaltam que isso não é negociável."

Mas por ora, pelo menos, a disputa cada vez maior com Washington provavelmente fortalecerá a influência política de Xi em seu país ao conseguir o apoio do povo e da elite contra uma ameaça estrangeira, disse Minxin Pei, professor na Faculdade Claremont McKenna na Califórnia que estuda política chinesa e relações entre China e EUA.

"A curto prazo, ela quase que certamente dará ao governo chinês um estímulo à sua popularidade", disse Pei em uma entrevista por telefone. "Isso ajuda Xi, porque sempre que há uma pressão como essa vinda de fora, oficiais chineses tendem a se unir em torno do principal líder".

Trump também ameaçou a China no controle do território que ela reivindica no Mar do Sul da China. Os comentários feitos pelo secretário de imprensa de Trump, Sean Spicer, na segunda-feira, ecoavam os que foram feitos por seu indicado a secretário de Estado, Rex W. Tillerson, em sua audiência de confirmação no Senado.

Embora Trump não tenha explicado como ele manterá a China longe das ilhas onde ele construiu pistas de aterrissagem e instalou armas, os comentários feitos por seus nomeados sugerem a possibilidade de um bloqueio americano. De fato, enquanto Obama tentou sem sucesso dar vantagens a aliados dos americanos na região para obrigar a China a recuar, Trump parece estar disposto a abandoná-los e enfrentar a China sozinho.

Essa atitude de querer fazer as coisas sozinho soou um alerta entre o Pentágono e especialistas da marinha americana, que disseram que um bloqueio como esse seria o equivalente a uma guerra. A ideia também alarmou os aliados dos Estados Unidos.

A Austrália, que é a aliada mais leal de Washington na região Ásia-Pacífico, não participaria de algo tão arriscado assim, disseram seus oficiais da Defesa, acrescentando que um bloqueio não poderia ser bem-sucedido e poderia servir para persuadir aliados americanos desiludidos na região da Ásia-Pacífico a se voltarem para a China.

Diante da indicação de uma ação divisiva de Trump em muitas frentes, Xi estava calmo e preparado, como sugeriu seu ministro das Relações Exteriores, Wang Yi.

"Sereno sob nuvens tumultuosas", disse Wang, citando o verso de um poema de Mao Tsé-Tung, fundador da China comunista.

Ninguém sabe por quanto tempo isso continuará assim.

Tradutor: UOL

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