Seria melhor para o Sudão do Sul perder sua independência duramente conquistada?

Jeffrey Gettleman

Em Nairóbi (Quênia)

  • Tyler Hicks/The New York Times

Dezenas de milhares de civis mortos, inúmeras crianças à beira da fome, milhões de dólares roubados pelas autoridades, poços de petróleo explodidos, ajuda alimentar pilhada e até 70% das mulheres abrigadas em campos estupradas, a maioria pelos soldados e policiais do próprio país.

Há poucos anos, o Sudão do Sul conseguiu o que parecia impossível: a independência. Dentre todos os exércitos rebeldes quixotescos lutando pela liberdade na África, o sul-sudanês de fato venceu. As potências mundiais, incluindo os Estados Unidos, se uniram para ajudá-lo a criar o mais novo país do mundo em 2011, uma suposta solução para décadas de conflito e sofrimento.

Agora, com milhões de seus habitantes famintos ou deslocados pela guerra civil, uma pergunta radical surgiu: será que o Sudão do Sul deve perder sua independência?

À medida que crescem as frustrações e preocupações internacionais, ganha cada vez mais força uma proposta para que potências estrangeiras assumam o Sudão do Sul e o administrem como uma curadoria, até que as coisas se acalmem.

Vários acadêmicos e figuras proeminentes da oposição apoiam a ideia, citando o Timor Leste, Kosovo e Bósnia como locais onde dizem que isso funcionou, apesar da existência de uma abundância de histórias de alerta onde a intervenção externa fracassou, como a Somália e o Iraque.

O acadêmico ugandense Mahmood Mamdani apresentou recentemente um plano no qual a União Africana assumiria o comando na criação de um governo de transição para o Sudão do Sul. Idealmente, segundo Mamdani, nenhum dos políticos sul-sudaneses que ajudaram a arrastar o país para a guerra civil poderia participar, e a curadoria duraria pelo menos seis anos, exigindo apoio da Organização das Nações Unidas.

"A resposta para a crise precisará ser tão extraordinária quanto a crise", ele disse.

Mas há um problema nada pequeno. Muitos sul-sudaneses poderiam não aprovar a solução.

Segundo James Solomon Padiet, um professor da Universidade de Juba, a maioria dos integrantes do maior grupo étnico do país, os dinka, do qual faz parte o presidente sitiado sul-sudanês, Salva Kiir, é veementemente contrária a uma tomada internacional. Apesar de grupos étnicos menores aprovarem, ele disse, os poderosos dinka veem isso como uma afronta à sua soberania.

O mesmo pensa Padiet, um acadêmico de fala mansa que não é dinka. Ele considera a curadoria "ofensiva", porque o Sudão do Sul conta com um número potencial de bons líderes à espera e que ainda não tiveram uma chance de governar. Mesmo assim, reconheceu Padiet, o país precisa desesperadamente de ajuda.

"Enquanto conversamos", ele disse, "o Sudão do Sul se encontra na encruzilhada da desintegração ou fragilidade total".

Os confrontos se espalharam para novas áreas do país, e milícias baseadas em etnia estão se mobilizando nas matas. Tudo isso representa um colapso impressionante após o nascimento do país.

Juntamente com centenas de outros jornalistas, eu estava entre a multidão que parecia um milhão de pessoas em 9 de julho de 2011, o dia insanamente quente no qual o Sudão do Sul se separou do Sudão. O senso de orgulho, sacrifício, esperança e júbilo será difícil de esquecer.

Por décadas, rebeldes sul-sudaneses lutaram contra o mais bem armado governo central do Sudão dominado pelos árabes. Eles lutaram em pântanos infestados de malária e em savanas sufocantes, ambientes incrivelmente hostis onde é difícil sobreviver, quanto mais travar uma guerra de guerrilha com poucos recursos.

Os sul-sudaneses resistiram a bombardeios e massacres. Os árabes roubavam seus filhos e os transformavam em escravos. Como resultado, muitos sul-sudaneses se espalharam pelos quatro cantos do planeta, os famosos Garotos Perdidos, mas também muitas Garotas Perdidas, privados de suas famílias e forçados a fugir para locais estrangeiros frios que nunca imaginaram.

No dia da independência, a capital do Sudão do Sul, Juba, festejou até amanhecer. Os Garotos Perdidos bebiam White Bull (a cerveja local) ao lado de guerrilheiros calejados que balançavam a cabeça ao som de reggae. Ao nosso redor, parecia haver um apreço real pelo que foi conseguido e pelo que aguardava à frente. Mais importante, havia união.

Mas ela ruiu rapidamente, minada por antigas rivalidades políticas, tensão étnica e ganância em torno da principal exportação sul-sudanesa: o petróleo. A linha divisória era a mais previsível, os dinka contra os nuer. Os dois maiores grupos étnicos se alternaram entre aliados e inimigos ao longo de todas as guerras pela independência do Sudão do Sul.

As autoridades da ONU em Juba foram altamente criticadas por não terem agido rapidamente e terem se interposto entre Kiir e Riek Machar, o ex-vice-presidente e nuer mais influente, enquanto a rivalidade entre eles se intensificava e se transformava em um derramamento de sangue nacional. Esse é um grande motivo para algumas pessoas acharem que uma curadoria internacional nunca funcionaria.

"Tendo fracassado completamente no projeto internacional de construção de um Estado, agora vamos passar para uma tomada internacional? Com que exército?" perguntou John Prendergast, que trabalha no Sudão do Sul há 30 anos e cofundou o Projeto Basta, um grupo antigenocídio.

"Será que os mesmos burocratas internacionais que realizaram os imensos experimentos de construção de Estado no Iraque e no Afeganistão viriam a Juba para liderar outra intervenção política fracassada?" ele acrescentou. "Tudo parece fantástico, condenado e extremamente improvável."

Outros acadêmicos assumem uma posição intermediária. Amir Idris, presidente do departamento de Estudos Africanos e Afro-americanos da Universidade Fordham e que escreve com frequência sobre o Sudão do Sul, disse que uma curadoria internacional deveria ser considerada, mas apenas como último recurso.

Ele diz que a questão mais importante é que o novo governo seja construído com pessoas novas, incluindo acadêmicos e tecnocratas.

"O Sudão do Sul não tem chance de realizar uma transição para um Estado funcional a menos que o edifício da liderança atual seja demolido", ele disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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