Universidade de Columbia revela seus laços com a escravidão

Jennifer Schuessler

Em Nova York (EUA)

  • Columbia University

Em 1755, um jornal de Nova York publicou um artigo sobre a posse dos diretores do recém-fundado King's College, que posteriormente se transformou na Universidade de Columbia. No fim da página havia um anúncio de uma ocasião muito diferente: a venda de "dois meninos negros e uma menina".

O anúncio provocaria pouca surpresa na King's College, onde muitos dos primeiros presidentes, administradores, doadores e alunos da faculdade eram donos de escravos. Mas agora é o primeiro exemplo em um novo relatório detalhando os laços históricos da Columbia com a escravidão.

O relatório não oferece nenhuma revelação dramática, semelhante à venda de 272 escravos em 1838 que ajudou a manter a Universidade de Georgetown à tona e que provocou um debate contencioso sobre indenizações. Mas ilustra as muitas formas como a instituição da escravidão se infiltrou na vida financeira, intelectual e social da universidade, e do Norte como um todo.

"As pessoas ainda associam escravidão ao Sul, mas também era um fenômeno no Norte", disse Eric Foner, o historiador da Columbia que escreveu o relatório, em uma entrevista. "Trata-se de uma parte da história de nossa própria instituição que é muito negligenciada, assim como da história de Nova York, que merece ser mais bem conhecida."

Lee Bollinger, o presidente da Columbia, disse que apesar de ainda não haver planos para agir com base no relatório, lidar com a "cumplicidade" da universidade com a escravidão é necessário para tratar da injustiça atual.

"Toda instituição deve saber sua história, a boa e a ruim", ele disse. "É difícil conceber quão profundamente nossa sociedade contemporânea ainda é afetada pelo que aconteceu há dois ou três séculos."

A conscientização a respeito dos laços entre a escravidão e as universidades do Norte aumenta e diminui com o passar do tempo. O assunto veio à tona pela primeira vez em 2001, quando acadêmicos associados a uma campanha de sindicalização em Yale divulgaram um relatório contestando o que consideravam uma celebração tendenciosa pela universidade de seu passado abolicionista.

Em 2002, Ruth Simmons, a presidente da Brown, ganhou manchetes ao pedir uma investigação sobre os elos da universidade em um momento em que um grande processo de indenização contra bancos e seguradoras tramitava (sem sucesso) pelos tribunais federais.

A carga política que cerca a questão diminuiu, apenas para voltar nos últimos anos, graças ao ativismo estudantil e ao movimento mais amplo Vidas Negras Importam. Harvard, que instalou uma placa em homenagem a quatro escravos que trabalharam no campus nos anos 1700, planeja realizar uma conferência sobre universidades e escravidão em março. Princeton encomendou sete peças baseadas em sua pesquisa de seus laços com a escravidão, que serão lançadas no último trimestre.

"Isto se transformou quase em um movimento nacional", disse Sven Beckert, um historiador de Harvard que liderou em 2007 um seminário de pesquisa para os alunos sobre Harvard e a escravidão. "Agora há um maior entendimento de que essas questões ainda permanecem de alguma forma entre nós, e que para avançarmos é preciso reconhecermos nosso passado."

O relatório sobre Columbia se originou em 2013, quando Bollinger leu a respeito do livro de Craig Steven Wilder, "Ebony & Ivy: Race, Slavery and the Troubled History of America's Universities". ("Ébano e Ivy: raça, escravidão e a história problemática das universidades americanas", em tradução livre, não lançado no Brasil.)

Ele e Foner convidaram Wilder a fazer uma palestra no campus e começaram a discutir a possibilidade de um seminário de pesquisa para investigar mais a fundo os laços da Columbia. O relatório faz uso de pesquisas originadas naquele seminário, dado por Foner em 2015 e, no ano passado, por Thai Jones, um curador da biblioteca de livros raros e manuscritos de Columbia.

Apesar de a história contada pelo relatório ser complexa, o resumo é simples. "Desde o início", ele declara, "a escravidão esteve entrelaçada com a vida da faculdade".

A universidade em si aparentemente nunca foi dona de escravos, mas se beneficiou com as fortunas ligadas à escravidão e ajudou ativamente a aumentá-las.

Uma auditoria de 1779, por Augustus Van Horne, o tesoureiro da faculdade (e dono de escravos), mostrou que a dotação emprestava com frequência dinheiro a ex-alunos e outros nova-iorquinos proeminentes a juros abaixo dos de mercado, portanto "ajudando a subsidiar as atividades mercantis e de negócios dos homens que lucravam com a escravidão".

Nova York aprovou uma lei de abolição gradual em 1799, mas algumas pessoas ligadas à King's, como nota o relatório, continuaram sendo proprietárias de escravos. Benjamin Moore, seu presidente, era dono de dois em 1810, segundo o censo.

Apesar de informação sobre escravos individuais ser difícil de encontrar, o site inclui uma breve seção sobre um chamado Joe, que chegou à King's em 1773 com John Parke Custis, enteado de George Washington. "Não queríamos que isto se limitasse aos proprietários brancos", disse Foner.

O relatório também discute os que estiveram envolvidos em atividades antiescravidão, mesmo que em geral do tipo mais moderado. Uma seção sobre Alexander Hamilton, por exemplo, nota que ele se juntou à Sociedade de Manumissão de Nova York em 1785 e rejeitava as noções de inferioridade dos negros, mas não disse nada a respeito da escravidão na Convenção Constitucional.

Diferente da reputação mais recente de Columbia de centro de ativismo progressista, os registros das sociedades de debate estudantis do início dos anos 1800 mostram apenas "leve hostilidade contra a escravidão, casada com oposição à emancipação geral", diz o relatório.

Os mais de 400 notáveis da universidade em um banco de dados no site incluem alguns poucos abolicionistas plenos, como John Jay 2º. Mas havia muitos mais, como William A. Duer, o presidente da faculdade nos anos 1830 (e dono de escravos até 1814), que apoiava o movimento de colonização, que defendia que os negros deveriam ser libertados e enviados de volta à África.

"Algo que realmente me surpreendeu foi quão poucos columbianos estiveram de fato envolvidos na luta contra a escravidão", disse Foner, cujo livro mais recente é sobre a Underground Railroad ("ferrovia subterrânea", em tradução livre, uma rede de rotas clandestinas para fuga de escravos) em Nova York.

O relatório termina na Guerra Civil, quando a maioria dos columbianos, segundo o relatório, apoiou a causa da União. O seminário de pesquisa continuará sendo realizado anualmente, preenchendo as lacunas e prosseguindo com a história século 20 adentro.

Foner disse que espera que o projeto estude o efeito, nem sempre positivo, do estudo dos professores de Columbia sobre raça, assim como o motivo para a universidade ter sido mais lenta do que outras instituições semelhantes a matricular afroamericanos.

"O primeiro estudante negro chegou apenas em 1908", disse Foner. "Eu realmente gostaria de saber mais a respeito do motivo."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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