Extremismo islâmico ecoa a transição violenta dos EUA para a modernidade

Laura Miller

  • Casso/UOL

"O Islã precisa de uma Reforma", dizia um refrão popular, porém bizarramente carente de perspectiva histórica, em meados dos anos 2000. Algumas vozes extremistas ainda o repetem hoje. Esqueça a noção de que alguém pode ditar a transformação de uma religião tão descentralizada e diversa quanto o Islã: será que os entendidos que dizem isso não sabem como a reforma europeia ocorreu de fato?

Foram 130 anos de uma série sangrenta de convulsões religiosas e políticas marcadas por repressão, terrorismo, fundamentalismo (tanto por parte dos protestantes quanto dos católicos) e guerra. A Guerra dos 30 anos sozinha matou até 11 milhões de pessoas.

Quão rápido esquecemos: esse poderia ser o lema do novo livro de Pankaj Mishra, "Age of Anger: A History of the Present" (Era da Raiva: uma história do presente, em tradução livre, ainda não lançado no Brasil). É possível perceber que Mishra iniciou o livro com um argumento em particular em mente, e que os eventos, especificamente a votação pela saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) e a campanha presidencial de Donald Trump, surpreenderam o autor e deram ao livro uma forma diferente.

Mishra, um colunista da "Bloomberg View" e do "New York Times Book Review", deseja que os ocidentais se recordem de nossa própria transição dolorosa e violenta para a modernidade, além de enfatizar que grande parte da turbulência no mundo em desenvolvimento é um sintoma da mesma provação.

Diferente das afirmações daqueles entendidos que evocam um "choque mundial de civilizações no qual o Islã é colocado contra o Ocidente, religião contra razão", estamos testemunhando (no caos, conflito e alarmante extremismo por todo o mundo) uma repetição de nossa própria história. É uma história que optamos por apagar de nossa memória coletiva, a substituindo por uma falsa história de capa sobre a "convergência pacífica" dos países ocidentais, em uma tradição benevolente iluminista de racionalismo, humanismo e democracia liberal". Mas na verdade, como Mishra aponta, "a história da modernização é principalmente uma de confusão e carnificina".

A observação de que o fundamentalismo islâmico militante é um fenômeno moderno não é nova: a popular historiadora Karen Armstrong escreveu repetidas vezes, de forma mais memorável na obra "Em Nome de Deus: O Fundamentalismo no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo" de 2000, que o fundamentalismo surge em reação a um mundo em rápida mudança. Sem essa mudança vertiginosa, ele não ocorreria. Mas em "Age of Anger", Mishra aponta para a semelhança entre os jihadistas e terroristas "lobos solitários" como Timothy McVeigh (que descrevia a "ciência" como sua religião) e o atirador na boate de Orlando, Omar Mateen.

As mesmas paixões que movem esses homens jovens também alimentam, segundo Mishra, a ascensão de demagogos nacionalistas na Índia, Turquia e Tailândia. O que é mais revelador é que tudo isso remete, com frequência com semelhanças assustadoras, aos revolucionários e revanchistas que atormentaram a Europa no século 19 e início do século 20.

Este é um quadro que afasta as divisões convencionais e familiares de esquerda e direita para se concentrar no profundo senso de deslocamento e alienação que gerou (e ainda gera) movimentos que variam do fascismo, anarquismo e niilismo. Todas essas respostas são animadas por um aumento do "ressentimento", que Mishra define como um "ressentimento existencial com o outro, causado por uma mistura intensa de inveja e um senso de humilhação e impotência". Nenhum ocidental pode ler essa descrição em 2017 e não pensar na eleição de Donald Trump e uma campanha que pareceu não definida pelo que os candidatos defendiam, mas sim por quem os eleitores odiavam mais. Não apenas o restante do mundo está passando por uma reação alérgica até a medula à modernidade, como também os Estados Unidos continuam cambaleando por causa dela.

No prefácio de "Age of Anger", Mishra explica que começou a planejar o livro em 2014, "após os eleitores indianos, incluindo meus próprios amigos e parentes, terem levado ao poder nacionalistas hindus". Tendo sido criado no que ele descreve como "áreas semirrurais da Índia, com pais cujas próprias sensibilidades pareciam ter sido moldadas de forma decisiva pela sua criação em um mundo pré-moderno de mito, religião e costumes", ele pode atestar as "rupturas na experiência vivida e continuidade histórica, a desorientação emocional e psicológica e a abrasão dos nervos e sensibilidade que tornam a passagem para a modernidade tão árdua para a maioria das pessoas".

Em vez de se verem como emaranhadas em uma teia de tradições, obrigações e apoio familiares e sociais (uma teia que Mishra reconhece que pode ser opressiva), pessoas por todo o mundo passaram a se ver como indivíduos dotados de direitos, em busca de seus próprios desejos e vantagens, em uma disputa impiedosa e globalizada com outros indivíduos. Isso representa, na visão de Mishra, "uma mudança imensa e subestimada em todo o mundo". O indivíduo moderno é encorajado a aspirar por riqueza, status, fama e poder, em exibição constante pela mídia de massa, apesar de a obtenção de tudo isso significar o descarte de outras fontes mais velhas de significado, o abandono dos lugares onde suas famílias viveram por gerações e o relaxamento de laços antes sagrados.

Mas com grande frequência o que descobrirão é que as recompensas desse sistema são reservadas a alguns poucos, e que a expansão econômica dos últimos 200 anos foi mais fortuita do que uma condição duradoura, e que as economias emergentes nunca colherão tantos frutos quanto as economias que chegaram lá primeiro. A expectativa de que, como Mishra coloca, "o futuro será materialmente superior ao presente (...) nada menos que esse senso de expectativa, central para o pensamento político e econômico moderno, desapareceu atualmente".

Por outro lado, mesmo aqueles que parecem ter conseguido uma vantagem na competição global podem se voltar de modo veemente contra o sonho moderno. As fileiras do Estado Islâmico estão repletas de recrutas da Tunísia, "a mais ocidentalizada das sociedades muçulmanas", nas palavras de Mishra, assim como de mulheres britânicas, "incluindo alunas com alto desempenho", que se juntaram espontaneamente a uma organização que institucionaliza a purdah (prática de impedir que as mulheres sejam vistas por homens que não sejam seus parentes diretos) e o estupro. Os ocidentais produziram explicações para a militância islâmica que fracassam de modo consistente em levar em consideração um grande número de pessoas que sucumbe a ela. Alguns culpam a própria religião, mas a maioria dos perpetradores dos ataques terroristas do Estado Islâmico na Europa, por exemplo, não era particularmente devota e não tinha formação religiosa.

O sucesso do Estado Islâmico em recrutar jovens com escolaridade, provenientes de famílias solidamente de classe média, mina a alegação de que ele explora o desespero econômico e político. Tanto pobres quanto pessoas em boa situação se juntam ao grupo. Os destituídos podem retaliar contra a ordem social que os invalida por considerar o sucesso material como único símbolo de valor, mas como Lily Tomlin já observou, mesmo quando você vence a "corrida de ratos" (a feroz competição por riqueza e poder), você ainda é um rato.

'Mesmo aqueles que parecem ter conseguido uma vantagem na competição global podem se voltar do modo veemente contra o sonho moderno'

Há dois aspectos no argumento de Mishra. Um é o de que o modelo ocidental de racionalismo laico, seja na forma do capitalismo democrático ou do socialismo de Estado, promete igualdade, oportunidade e dignidade para todos, e então falha em cumprir essa promessa. O outro é que o mal-estar da modernidade aflige até mesmo os privilegiados, porque a promessa em si é vazia.

Uma sociedade moderna comercial e consumista é incapaz de fornecer aos indivíduos o tipo de significado proveniente do compromisso tradicional com a família, religião e comunidade que sacrificaram para buscá-la. Essa segunda linha de pensamento ele remonta até o filósofo genebrês Jean-Jacques Rousseau, que fazia essas críticas no início do Iluminismo. Enfrentando Voltaire ("um evidente modernizador de cima para baixo") e seus companheiros filósofos, Rousseau "tentou esboçar uma ordem social onde a moral, virtude e caráter humano, em vez do comércio e do dinheiro, eram centrais para a política". Também era uma ordem na qual as mulheres eram relegadas ao lar, os homens deveriam expressar patriotismo militarizado e forasteiros eram vistos por reflexo com suspeita. (A noção de Rousseau de sociedade ideal era Esparta.)

Mishra não endossa essa visão exasperante do filósofo, mas considera a habilidade de Rousseau de antecipar as "implicações morais e espirituais da ascensão de uma sociedade comercial internacional" como sendo presciente. O filósofo previu, como ele escreve, "o oprimido moderno com seu senso agravado de vitimização e exigência por redenção". Uma manifestação consistente desse ressentimento em muitas ideologias aparentemente diferentes é uma insistência no retorno dos papéis de gênero por homens irados, que se sentem emasculados por terem que competir, e às vezes perder, para mulheres.

Outro é o rancor dos provincianos em relação aos cosmopolitas sem raízes. Rousseau, "o maior militante ignorante da história", se sentia como um arrivista presunçoso na sociedade parisiense onde Voltaire reinava. Ele desconfiava das grandes cidades e dos intelectuais profissionais, e suas crias ideológicas continuariam, no século 19, a plantar bombas em boates e a assassinar csares, reis e presidentes. "Naquela época, assim como agora", escreve Mishra, "o senso de ser humilhado por elites arrogantes e enganadoras era disseminado, superando as divisões nacionais, religiosas e raciais".

"Age of Anger" é um livro curto contendo muita história intelectual. Fora Rousseau e algumas poucas outras figuras importantes, como Nietzsche, escreve Mishra, ele optou por se concentrar em "pensadores alemães, russos e italianos relativamente negligenciados, cujas ideias ecléticas infundiram outros retardatários frustrados com a modernidade, com um senso messiânico de destino". (Ele abre o livro com o poeta italiano Gabriele D'Annunzio, que, em 1919, com a ajuda de cerca de dois mil seguidores, tomou a cidade de Fiume por mais de um ano, estabelecendo um "Estado livre" protofascista e inventando a saudação com braço em riste, atualmente associada aos nazistas.)

O meio do livro pode ser um tanto pesado para quem careça de alguma familiaridade com figuras como Fichte, Bakunin e Kropotkin, mas os capítulos sobre como esses escritores europeus afetaram gerações subsequentes de líderes na Índia, Turquia e China fazem o esforço valer a pena. Apenas ocasionalmente Mishra trata explicitamente da ascensão de Donald Trump e demagogos semelhantes na Europa e no Reino Unido, mas qualquer pessoa que ler "Age of Anger" os tendo em mente descobrirá que quase todas as páginas iluminam o clima político atual de "supremacismo cultural, populismo e brutalidade rancorosa" que deixa muitos se sentindo abalados e perplexos. Uma resposta construtiva para a situação é outro assunto. Isso exigirá, como escreve Mishra, "algum pensamento realmente transformador, tanto em relação ao indivíduo quanto ao mundo".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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