Opinião: 2017 pode ser o melhor ano de todos os tempos

Nicholas Kristof

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É consenso geral que o mundo está entrando em colapso, com cada nova manchete nos lembrando de que a vida está ficando pior.

Só que ela não está. Na verdade, tendo como base alguns importantes dados, 2016 foi o melhor ano na história da humanidade. E 2017 provavelmente será ainda melhor.

Como pode? Eu fiquei tão horrorizado quanto qualquer um com a eleição de Donald Trump, com o derramamento de sangue na Síria e por aí vai. Mas embora eu tema o que Trump vá fazer com os Estados Unidos, o mundo, e eu aplauda aqueles que estejam se posicionando contra ele, a administração Trump não é a coisa mais importante que está acontecendo. Façam este teste:

Todos os dias, o número de pessoas em todo o mundo vivendo em pobreza extrema:

A) Aumenta em 5.000, por causa das mudanças climáticas, da escassez de alimentos e da corrupção endêmica.
B) Permanece o mesmo.
C) Cai em 250 mil.

As pesquisas mostram que cerca de nove entre cada dez americanos acreditam que a pobreza global piorou ou se manteve igual. Mas, na verdade, a resposta correta é C. Todos os dias, uma média de 250 mil pessoas em todo o mundo sai da situação de pobreza extrema, de acordo com números do Banco Mundial.

Ou, se você precisar de ainda mais boas notícias, considere isto: desde o ano de 1990, a vida de mais de 100 milhões de crianças foi salva através de vacinações, incentivo à amamentação, tratamentos de diarreia e mais. Se a pior coisa que pode acontecer a um pai é perder um filho, a probabilidade de isso acontecer hoje é 50% menor do que em 1990.

Quando comecei a escrever sobre pobreza global no início dos anos 1980, mais de 40% de todos os humanos estavam vivendo em pobreza extrema. Hoje, menos de 10% vivem. Até 2030, aparentemente somente 3% ou 4% estarão nessa situação. (Pobreza extrema é definida como uma renda inferior a US$ 1,90 ou R$ 6 por pessoa por dia, ajustada de acordo com a inflação).

Em quase toda a história da humanidade, a pobreza extrema foi a condição padrão para nossa espécie, e hoje, sob nossa guarda, estamos basicamente a eliminando. Essa é uma transformação formidável que, creio eu, é a coisa mais importante que está acontecendo no mundo hoje, independentemente das notícias vindas de Washington.

É claro, continuará existindo pobreza de um tipo menos extremo, números menores de crianças continuarão a morrer desnecessariamente, e a desigualdade permanece enorme. A Oxfam calculou este mês que somente oito homens possuem o mesmo tanto de riqueza que a metade mais pobre da humanidade.

No entanto, a desigualdade de renda no mundo está na verdade diminuindo. Embora a desigualdade de renda tenha aumentado dentro dos Estados Unidos, ela declinou em um nível global porque a China e a Índia tiraram centenas de milhões da pobreza.

Tudo isso pode parecer distante ou irrelevante em uma época em que muitos americanos estão traumatizados com a posse de Trump. Mas deixem-me tentar tranquilizá-los, e a mim mesmo também.

Em uma visita recente a Madagascar para uma reportagem sobre mudanças climáticas, me surpreendi com o fato de que várias mães que eu entrevistei nunca tinham ouvido falar em Trump ou em Barack Obama, ou mesmo  nos Estados Unidos. A obsessão delas era mais desesperada: manter seus filhos vivos. E o mais espantoso é que aquelas crianças, apesar de severa desnutrição, estavam todas vivas, por causa de melhoras na assistência e nos tratamentos de saúde, refletindo tendências que são maiores do que um único homem.

Alguns dos progressos mais notáveis têm sido aqueles em torno de doenças que —graças a Deus!— os americanos encontram muito raramente. A elefantíase é uma doença horrível, deformadora, humilhante, normalmente causada por um parasita, que leva as pernas de uma pessoa a incharem tanto a ponto de lembrar a pata de um elefante. Em homens, a doença pode fazer com que o escroto inche em proporções grotescas, de forma que quando eles andam precisam carregar seu escroto em um carrinho de mão improvisado.

No entanto, cerca de 40 países hoje estão a caminho de eliminar a elefantíase. Quando você vê a angústia causada pela elefantíase —ou lepra, ou dracunculíase, ou poliomielite, ou cegueira dos rios, ou tracoma— é impossível não se sentir empolgado com os progressos registrados para todos eles.

Houve um progresso similar no empoderamento das mulheres e na redução do analfabetismo. Até os anos 1960, a maioria dos humanos sempre foi analfabeta; hoje, 85% dos adultos são alfabetizados. E quase nada faz mais diferença em uma sociedade do que ser capaz de ler e escrever.

Michael Elliott, que morreu no ano passado depois de liderar a ONE Campaign, que combate a pobreza, costumava dizer que estamos vivendo em uma "era de milagres". Ele tinha razão, ainda que o progresso ainda seja lento demais, e uma questão básica é se Trump continuará com os esforços bipartidários dos Estados Unidos no combate à pobreza global. Um questionário de quatro páginas da equipe de Trump ao Departamento de Estado parece sugerir dúvidas a respeito do valor da ajuda humanitária.

Uma das razões para o ceticismo da equipe de Trump pode ser a crença de que a pobreza global é irremediável, de que nada faz diferença. Então vamos manter a perspectiva. Sim, Trump pode causar danos enormes aos Estados Unidos e ao mundo nos próximos anos, e é claro que devemos desafiá-lo sempre que necessário. Mas quando as manchetes me deixam enojado, eu me consolo pensando que existem forças no mundo que são maiores do que Trump e que, na longa história da humanidade, este ainda será provavelmente o melhor ano de todos os tempos.

Lembrem-se: a coisa mais importante que está acontecendo não é um tuíte de Trump. O que é infinitamente mais importante é o fato de que hoje cerca de 18 mil crianças que no passado teriam morrido de doenças simples sobreviverão, cerca de 300 mil pessoas passarão a ter eletricidade e cerca de 250 mil sairão da situação de extrema pobreza.

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