Em uma semana, Trump muda décadas de percepções a respeito dos EUA

David E. Sanger

Em Washington (EUA)

  • Jose Luis Magana/ AP

De certo modo, nos últimos sete dias o presidente Donald Trump mudou a percepção da política externa americana mais que seus antecessores fizeram nas últimas sete décadas.

Um país que construiu sua marca ao redor do mundo como aberto aos necessitados e ambiciosos do mundo agora é visto, após a ordem executiva de Trump sobre imigração, como fechando suas portas de uma forma nunca feita antes, nem mesmo após os ataques de 11 de setembro de 2001. Vinte anos de esforços para reconstrução do relacionamento com o México (em comércio, contraterrorismo e combate às drogas) ruíram em um evitável choque com o presidente mexicano, que cancelou sua visita ao país.

Quando a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, veio para o que parecia ser uma visita em grande parte bem-sucedida, a primeira de Trump por um líder de um país aliado, ela falou sobre a manutenção das sanções à Rússia até que o país cumprisse seus compromissos em relação à Ucrânia. Trump permaneceu calado. Após ele conversar no dia seguinte com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, a reprodução oficial fornecida pela Casa Branca não fazia menção à Ucrânia ou sobre a operação de guerra de informações para influenciar a eleição americana, que levou o presidente Barack Obama, em seus últimos dias no cargo, a emitir novas sanções.

A percepção é diferente da realidade. É possível que quando vistos com a distância de alguns poucos anos, os pronunciamentos de Trump sobre "seleção extrema" e sua pressa em afastar de seus cargos alguns dos diplomatas de carreira americanos mais experientes, parecerão uma blitz de primeira semana visando enviar uma mensagem ao mundo de que ele falava sério quando disse que os Estados Unidos viriam em primeiro lugar.

Em uma declaração no domingo, Trump pareceu tentar atenuar sua ação, argumentando que "não se trata de uma proibição de muçulmanos, como a mídia está falsamente noticiando". Ele prometeu "encontrar formas de ajudar todos os que estão sofrendo", palavras ausentes na sexta-feira, quando anunciou que todos os refugiados da Síria seriam impedidos de entrar nos Estados Unidos, indefinidamente.

"É apenas a primeira semana", disse Robert M. Gates, o ex-secretário de Defesa e diretor da CIA, no programa "This Week" da "ABC", no domingo. "Todo governo nos quais trabalhei começa com uma enxurrada de ordens executivas" (algo semelhante às medidas provisórias no Brasil) que visam distingui-lo do governo anterior.

Mas Gates, que serviu a oito presidentes de ambos os partidos, foi rápido em acrescentar que Trump corre o risco de acelerar a sensação de que os Estados Unidos estão se retirando e erguendo muros, deixando um vácuo de poder ao redor do mundo.

"Esse vácuo não será preenchido por forças benignas", ele disse.

Dois outros republicanos proeminentes, os senadores John McCain do Arizona e Lindsey Graham da Carolina do Sul, chamaram a decisão de aglutinar um grande adversário, o Irã, com um aliado, o Iraque, na mesma ordem executiva como sendo um dos muitos motivos para medidas como essa serem "um ferimento autoinfligido na luta contra o terrorismo".

Trump está longe de ser o primeiro presidente a anunciar mudanças nas políticas que surpreendem aliados e viraram de cabeça para baixo a ordem existente. A decisão do presidente Richard Nixon de abandonar o padrão ouro e reconhecer a China causou choques no sistema. Assim como a decisão do presidente George W. Bush de invadir o Iraque, apesar de ter sido telegrafada por mais de um ano, e a decisão de Obama de fechar um acordo nuclear com o Irã e reabrir as relações diplomáticas com Cuba.

Mas no caso de Trump, há uma sensação de que a pressa por mudança passou por cima de um estudo sobre consequências indesejadas.

A proibição a imigração e visitantes de sete países foi tomada com participação mínima, se é que houve alguma, do Departamento de Estado sobre as consequências regionais, assim como a declaração de Trump de que pretende transferir a embaixada americana em Israel para Jerusalém. A ausência de um estudo sobre como lidar com os detentores de "green card" (visto de residência permanente) e intérpretes iraquianos, aos quais foi prometida entrada nos Estados Unidos em troca de seus serviços às tropas americanas, forçou a Casa Branca a corrigir suas interpretações da ordem menos de 48 horas após Trump assiná-la no Pentágono.

Tudo é um sintoma de um novo presidente ávido em tuitar primeiro e ajustar os detalhes depois. "É uma política por trovão", disse Joseph Nye, um professor de Harvard que serviu como chefe do Conselho Nacional de Inteligência e escreveu extensamente sobre como os Estados Unidos podem ganhar influência por meio de seu "soft power", a atração de sua cultura e democracia. "Você não rasga 70 anos de política externa até pensar muito sobre o que a substituirá."

Mas nos corredores do Departamento de Estado, onde Rex W. Tillerson, o escolhido para secretário de Estado, está começando a encontrar seu rumo, há com certeza uma sensação entre os diplomatas de carreira que este é o Ano Zero.

Na semana passada, a equipe de escolhidos por Trump disse a vários dos diplomatas seniores do departamento (funcionários de carreira, alguns com décadas de serviço) para que deixassem suas salas. Quase todos tinham entregado seus cargos, o protocolo quando o governo muda, mas se ofereceram para permanecer voluntariamente por um mês ou dois, até seus sucessores serem nomeados, para assegurar que as instalações do Departamento de Estado permanecessem seguras, cidadãos americanos fossem evacuados de locais perigosos e a emissão de passaportes.

A equipe de Trump deixou claro que não tinha interesse em transições. (Tillerson também nunca se encontrou pessoalmente com seu antecessor, John Kerry, antes da posse.)

Não foi exatamente um expurgo, mas permanece o fato de que alguns dos diplomatas mais experientes do governo deixaram seus cargos, incluindo algumas das mulheres do mais alto escalação do departamento. Entre elas está Anne Patterson, 67 anos, a secretária-assistente de Estado para assuntos do Oriente Próximo e uma ex-embaixadora no Paquistão e no Egito, dois dos locais mais inflamáveis que Trump enfrentará. Victoria J. Nuland, 55 anos, uma das maiores especialistas em Rússia no departamento e ex-embaixadora na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental), que lidava com a crise na Ucrânia, decidiu se aposentar após concluir que provavelmente não haveria um lugar para ela no governo Trump.

Tamanha limpeza gera a pergunta sobre se Tillerson, que conta com ampla experiência no exterior como presidente-executivo da Exxon Mobil, mas nenhuma como diplomata, contará com o tipo de ajuda que precisará em um empreendimento muito diferente do que negociar em nome da maior companhia de petróleo do mundo.

Nesse ambiente, até mesmo medidas aparentemente rotineiras, como a reorganização do Conselho de Segurança Nacional, ganham um ar político. No domingo, o estrategista chefe e ideólogo chefe de Trump, Stephen K. Bannon, foi nomeado membro permanente do "comitê principal" do Conselho de Segurança Nacional, o que coloca um assessor político no mesmo nível que os secretários de Estado e Defesa. Enquanto isso, o diretor nacional de inteligência e o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas parecem ter sido rebaixados, instruídos a participarem apenas quando assuntos ligados a eles estiverem sendo discutidos.

"Isso é pura loucura", escreveu Susan E. Rice, a conselheira de segurança nacional até o início deste mês, em uma postagem pelo Twitter. "Quem precisa de orientação militar e inteligência para elaborar políticas a respeito do EI, Síria, Afeganistão, RDPC?" ela disse, usando as siglas para o Estado Islâmico e a Coreia do Norte.

A resposta de Trump é simples: quando você veio para virar o establishment de cabeça para baixo, o establishment deve deixar o prédio.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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