Como uma médica enfrentou o cerco do Taleban para realizar um parto

Mujib Mashal*

Em Kunduz (Afeganistão)

  • Najim Rahim/The New York Times

    Marzia Salam Yaftali (dir.) conversa com paciente de hospital em Kunduz, Afeganistão

    Marzia Salam Yaftali (dir.) conversa com paciente de hospital em Kunduz, Afeganistão

O Taleban controlava as ruas da vizinhança e tiros espocavam na escuridão quando os vizinhos da Dra. Marzia Salam Yaftali, na Cidade de Kunduz, procuraram sua ajuda.

Uma parente deles havia entrado em trabalho de parto e estava tendo complicações, as ruas para o hospital estavam bloqueadas e Yaftali era a maior esperança que eles tinham. Em meio a combates urbanos por todos os lados, ela assumiu o risco de deixar seus dois filhos pequenos em casa para tentar salvar três vidas.

Mas naquela noite, no outono passado, a médica não se sentiu uma heroína. Ela se sentiu culpada. Seu lugar era no Hospital Regional de Kunduz, onde ela era a médica-chefe, dirigindo os membros de sua equipe enquanto eles lidavam com uma onda de vítimas. Mas eles imploraram para que ela ficasse em casa, por sentirem que ela estaria em risco caso o Taleban ou até mesmo os milicianos que o combatiam encontrassem uma mulher como responsável pelo setor.

"Eu vou me debater com esse sentimento --por que eu não consegui vir ao hospital naquele dia?", disse Yaftali em uma entrevista dada no hospital, meses depois. "Ainda me sinto incomodada".

Kunduz já era conhecida pelo risco que equipes médicas corriam depois que um avião de guerra americano bombardeou seu melhor hospital, deixando-o em ruínas, durante um cerco do Taleban em 2015, o que fez com que o Hospital Regional de Kunduz passasse a ser seu único centro médico significativo.

Para trabalhadoras mulheres do setor de saúde no Afeganistão, o risco é agravado pelas crenças tradicionais de uma sociedade que ainda resiste à ideia de mulheres nos locais de trabalho.

Najim Rahim/The New York Times
Marzia Salam Yaftali visita pacientes em hospital de Kunduz, Afeganistão

O Taleban, apesar de suas declarações sobre terem reconsiderado sua posição sobre a educação feminina e as mulheres na força de trabalho, na prática não se comportou dessa forma.

O cerco no outono passado foi a segunda vez em um ano que o Taleban invadiu a cidade de Kunduz. Na primeira vez, no outono de 2015, mulheres em papéis proeminentes relataram ter sido visadas de forma metódica. E os insurgentes nunca aceitaram uma das principais contradições de seu regime nos anos 1990: o governo taleban insistia estritamente que mulheres só deveriam ser tratadas por médicas mulheres, mas ele impedia que meninas frequentassem a escola.

O Hospital Regional de Kunduz, com capacidade para 300 leitos, foi construído a partir de doações alemãs, mas é administrado pelo governo afegão. Yaftali, uma ginecologista, estava em casa na manhã de 3 de outubro quando o Taleban entrou na cidade.

"Eu liguei para o diretor do hospital. Eu lhe disse que viria ao hospital mesmo que estivesse chovendo fogo", disse Yaftali. "Ele me disse: 'Como você vai vir ao hospital? Não há como chegar aqui'".

O diretor, um cirurgião robusto chamado Mohammed Naim Mangal, expressou outro temor pelo telefone: muitos dos membros da equipe haviam fugido, e Yaftali seria a única mulher, caso ela conseguisse chegar ao hospital. Havia riscos para ela, não somente por parte do extremista Taleban, como também por parte das milícias incontroláveis que lutavam em nome do governo.

No hospital, cerca de duas dúzias de membros da equipe permaneceram, trabalhando sem parar por mais de uma semana. Eles ficaram sem comida rapidamente, sobrevivendo de arroz cozido. Suas viagens até a distribuidora de medicamentos próxima ao prédio principal eram operações assustadoras que os deixavam vulneráveis a ataques diversas vezes.

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Paredes do Hospital Regional de Kunduz apresentam marcas dos recentes combates

A tarefa deles só ficou mais difícil depois que projéteis de morteiro atingiram o hospital e pacientes tiveram de ser transferidos de alguns dos quartos para os corredores. No auge dos combates, funcionários dos hospitais estavam cuidando de mais de 300 feridos.

Presa em casa, Yaftali basicamente assumiu uma campanha de relações públicas para um hospital sob ataque. Ela falou com estações de rádio e jornais e atualizou regularmente sua página do Facebook com apelos urgentes a ambos os lados, para que eles não disparassem contra o hospital, além de avisos para o público sobre quais pontos de atendimento ainda estavam funcionando.

"Outros em Kunduz procuravam água, enquanto eu estava atrás de um litro de gasolina, para me certificar de que conseguiria ligar o gerador para carregar meu telefone, de forma que eu ficasse atualizada sobre o que estava acontecendo no hospital", ela lembra.

Então, em uma noite, por volta das 21h, ela ouviu alguém batendo em seu portão e as vozes de seus vizinhos do lado de fora. A parente grávida deles, uma mulher de 30 anos chamada Fatima, estava com muita dor e precisava desesperadamente de ajuda.

Yaftali disse que ela examinou pela primeira vez Fatima, que havia viajado para Kunduz a partir de um distrito da periferia, algumas semanas antes e sabia que um parto natural seria difícil. Um dos bebês era grande e estava em uma posição que ela descreveu como "apresentação de ombro".

As ruas do lado de fora haviam virado um campo de batalha. Ambos os lados disparavam contra qualquer um que estivesse no meio.

"Eu estava nervosa. Não sabia como chegar até a casa do vizinho, sendo que era a somente 100 ou 200 metros da minha", disse Yaftali. "Por outro lado, se eu não fosse até a casa deles, o que a mãe ia fazer? Ela veio até nossa área e perto de mim, e ela esperava que eu fosse ajudá-la, cuidar dela."

Ela enfrentou as ruas e, quando chegou à casa, Fatima estava dando à luz a primeira criança, no chão. No entanto, a segunda criança ficou presa, e a mãe estava em agonia.

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Equipe médica, formada por maioria de homens, se reúne no Hospital Regional de Kunduz

Yaftali interveio para tentar reposicionar o bebê para um nascimento mais seguro. Mas a dor de sua paciente estava insuportável.

"Não tinha nenhum equipamento médico comigo. Estava de mãos vazias", lembra Yaftali. "Eu trabalhei para eles como uma parteira local. Não havia nenhum lugar para fazer uma cesárea ou uma cirurgia. Do ponto de vista profissional, era necessária uma cesárea".

O comandante de polícia da província foi chamado, e ele enviou um veículo blindado até a casa para transportar Fatima ao hospital. Mas os parentes da mulher não queriam deixar que ela fosse sem eles, e eles não queriam ir sozinhos por causa do risco. Ao mesmo tempo, civis eram atingidos com frequência no fogo cruzado, e circulavam relatos de corpos sendo deixados nas ruas.

"A lógica deles era esta: podemos sacrificar uma mãe, mas não podemos sacrificar vários membros de uma família indo com você ao hospital", disse Yaftali.

Então ela enviou o veículo blindado da polícia de volta para o hospital para trazer medicamentos e equipamentos médicos, e ela tentou novamente fazer o parto do bebê. Mas ela sabia que a segunda criança estava perdida, e havia pouco que ela pudesse fazer além de tentar reduzir o risco e a dor de Fatima.

Yaftali voltou para casa, onde estavam seus dois filhos, o mais novo deles com somente 6 meses de idade. E durante a manhã, depois que os combates se acalmaram um pouco, Fatima conseguiu ir até o hospital para ser tratada, mas com somente um de seus filhos vivo.

"Foi muito doloroso para mim. Foi uma cena insuportável, ver uma criança morrendo no útero da mãe, e eu sem ser capaz de ajudá-la, nem um pouco sequer", disse Yaftali. "Essa foi a noite mais tenebrosa, e nunca vou me esquecer".

Depois que o Taleban saiu, Yaftali voltou ao seu trabalho. Sua página do Facebook, após um apelo para que todos os funcionários do hospital que haviam fugido da cidade retornassem, voltou a ter seu conteúdo normal de conselhos médicos para seus leitores.

No entanto, até hoje ela é atormentada pelo remorso.

"No dia em que os combates se acalmaram, minha sugestão para o hospital e o Ministério da Saúde foi que a primeira coisa que eu deveria fazer era me demitir", disse Yaftali.

No entanto, os oficiais recusaram sua demissão, elogiando seus serviços prestados a partir de casa e o fato de que ela ajudou a implantar um sistema no hospital que se manteve mesmo em sua ausência.

Fatima, pelo menos, nunca se esquecerá dela.

"Em um momento em que não se podia contar com ninguém, a médica veio e passou por tanta coisa por minha causa", disse Fatima em uma entrevista. "Como posso não ser grata a ela? Todos estavam tentando ir embora de Kunduz, e a Dra. Marzia veio me ajudar."

* Com contribuição de Najim Rahim e Fahim Abed.

Tradutor: UOL

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