Família congolesa é acolhida com carinho em tempos instáveis para os refugiados nos EUA

Liz Robbins*

Em Nova York

  • Damon Winter/The New York Times

Na tarde de terça-feira (31), no Aeroporto Internacional John F. Kennedy (JFK), uma família de cinco refugiados chegou em um voo de 18 horas vindo da África e, assim como outros que esperavam entrar no país durante o fim de semana, logo estava do lado de fora do aeroporto, observando a neve cair como confete.

Esses refugiados não eram do grupo de sete países predominantemente muçulmanos listados na ordem executiva do presidente Donald Trump sobre a imigração, mas sim da República Democrática do Congo; depois de fugir de tiros disparados por combatentes rebeldes no distrito de Uvira, em 2010, eles passaram seis anos em um campo de refugiados no Malaui.

A isenção que permitiu a entrada deles havia sido coordenada junto com o Departamento de Estado durante o turbilhão causado pela ordem de Trump que suspendia a chegada de refugiados por 120 dias. De acordo com um oficial do Departamento de Estado que falou sob condição de anonimato, a ordem permitia que isenções admitissem refugiados "quando de interesse nacional e quando eles não representassem um risco para o bem-estar e a segurança dos Estados Unidos, inclusive para certas minorias religiosas e certos refugiados em trânsito".

A Church World Service, uma das nove agências de reassentamento de refugiados no país que têm parceria com o Departamento de Estado, disse que 872 refugiados haviam sido aprovados para serem reassentados até o final do dia na terça-feira.

No aeroporto JFK, a família esperava juntamente com outros refugiados do Congo. Alguns deles tinham como destino a Carolina do Norte, outros Connecticut, também para serem reassentados pela Church World Service.

Os membros da família estavam cientes da ordem quando eles aterrissaram, e estavam aliviados por terem chegado a tempo.

"Graças a Deus, porque não conseguíamos acreditar naquilo", disse Masumbuko, 38, no Terminal 4 junto com sua mulher Roza, suas duas filhas Nathalie, 20, e Kwizi, que fará 13 anos na quarta-feira, e seu filho de 8 anos, Leo. "Estamos muito felizes".

A Church World Service, que estava reassentando a família, pediu para que o sobrenome deles não fosse divulgado por temerem pela segurança da família.

A família estava indo para o norte, para o Vale do Hudson, onde a Christ Episcopal Church e a Vassar College —ambas em Poughkeepsie, Nova York— haviam preparado seu reassentamento.

Apesar do apoio de 1.200 voluntários de 30 organizações, do Vassar Temple, da Mesquita de Masjid al-Noor e de sete faculdades locais, um protesto e uma ameaça de morte surgiram na internet.

Ainda assim, só se viam sorrisos, abraços e gritos de boas-vindas quando os voluntários da Christ Church encontraram a família no estacionamento do Aeroporto Internacional de Stewart perto de Newburgh, Nova York.

"É uma declaração de todas as pessoas da igreja e da comunidade que tornaram isso possível", disse a reverenda Susan Fortunato. "Sinceramente, se me permitem um pequeno comentário profissional, foi um pouco de fé e talvez uma intervenção divina que fizeram com que essas pessoas conseguissem entrar antes que as fronteiras fossem fechadas para os refugiados".

A viagem a partir do Aeroporto JFK foi silenciosa, como se a paisagem em branco e cinza do caminho tornasse a viagem ainda mais surreal. A van foi fornecida pela Organização Internacional para as Migrações. O motorista, Jimmy Yu, imigrou de Hong Kong para os Estados Unidos em 1991.

Masumbuko, que atende pelo apelido de Masu, explicou que durante seis anos eles viveram em uma casa com um telhado de palha e paredes de barro, em um acampamento de mais de 20 mil pessoas com refugiados da Somália, de Ruanda, da Etiópia e do Burundi. Masu era um enfermeiro que costumava trazer bebês ao mundo. Inclusive gêmeos, por três vezes. Roza trabalhava costurando roupas.

Masu disse que sua primeira entrevista para entrar nos Estados Unidos foi em março de 2011, quando eles foram registrados como refugiados. Eles tiveram outras entrevistas, incluindo uma avaliação pela Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) em 2014, entrevistas com oficiais de imigração dos Estados Unidos, e verificações de saúde e segurança.

Eles foram aprovados para serem realocados em outubro de 2016. A partir de então, eles tiveram sessões de orientação cultural no Malaui, enquanto se preparavam para embarcar para seu novo lar.

A entrevista final foi depois que a família desembarcou no JFK. A Polícia da Imigração, que nos dois dias anteriores havia barrado detentores de vistos e residentes permanentes naquilo que foi um cenário de caos em aeroportos do mundo inteiro, fez diversas perguntas a Masu sobre seus motivos para deixar o Congo, sua linha de trabalho e sua família.

Tanto seu pai, um ancião da aldeia, e seu irmão, um sacerdote, foram assassinados por rebeldes em 1996. Masu havia se tornado diretor de um departamento de enfermagem em um hospital, algo que o tornou alvo para grupos rebeldes, segundo ele.

Uma semana depois que atiradores entraram em sua casa à sua procura, ele se mudou com sua família para o Maláui.

Sua mudança para os Estados Unidos foi possibilitada por um grupo chamado Mid-Hudson Refugee Solidarity Alliance. Uma professora alemã de história da Vassar College, Maria Hoehn, teve a ideia pela primeira vez em 2015 e consultou um grupo de refugiados em Connecticut que estava trabalhando junto com a Church World Service.

Na terça-feira, Sarah Krause, uma diretora sênior da Church World Service, reconheceu que esse dia de celebração era tão triste quanto feliz. Essa era a primeira família, e provavelmente seria a última, que eles conseguiriam receber no Vale do Hudson.

"Esse veto de 120 dias dificultará muito a manutenção deste escritório", explicou Krause. "Sem nenhum refugiado no escritório, não teremos nenhum financiamento. Faremos de tudo que pudermos para manter a capacidade do escritório e certamente prestaremos serviços para esta família".

O governo fornece alguma assistência financeira imediata. Masu espera começar a trabalhar como enfermeiro, mas ele não sabe dirigir. Voluntários levaram a família até seu novo apartamento, passando primeiro por uma fileira de redes de fast food. Ao ver a placa do McDonald's, Masu deu de ombros e confessou que nunca havia ouvido falar naquilo.

Depois que voluntários os levaram até seu apartamento de dois quartos, Leo saiu do carro, deu alguns passos cautelosos na neve e saiu correndo até a porta. Alguns voluntários haviam abastecido a geladeira e os armários com comida. A mesa estava posta para cinco, com flores.

"Magnifique!" Roza exclamou, radiante.

*Com contribuição de Gardiner Harris.

Tradutor: UOL

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