Quais consequências que a política "nós contra eles" de Trump pode causar?

Amanda Taub

  • Christopher Lee/The New York Times

    28.jan.2017 - Manifestantes protestam contra decreto de Trump que proíbe entrada de imigrantes no país, no aeroporto internacional de Nova York

    28.jan.2017 - Manifestantes protestam contra decreto de Trump que proíbe entrada de imigrantes no país, no aeroporto internacional de Nova York

A história está cheia de exemplos de líderes que usam a política do "nós contra eles" para retratar um determinado grupo minoritário como uma ameaça à segurança, à moral ou à cultura da maioria.

Essa história deixou os estudiosos do autoritarismo nervosos com a ordem do presidente Donald Trump para deter a imigração de pessoas de sete países de maioria muçulmana, suspender temporariamente o programa de reassentamento de refugiados nos EUA e barrar indefinidamente os refugiados da Síria.

As novas regras estão na linha da proibição à imigração muçulmana que Trump propôs durante a campanha presidencial, embora não vetem absolutamente todos os muçulmanos. Entretanto, os estudiosos dizem que há paralelos preocupantes entre sua proibição e o comportamento dos governos que eles estudam.

Esse tipo de política nós-contra-eles, advertem, pode ter consequências danosas não apenas para os grupos específicos que são seu alvo, mas para os sistemas políticos em geral.

Visando os fracos

A dinâmica do nós-contra-eles é "fácil para unir muita gente", disse Jonathan D. Weiler, um cientista político da Universidade da Carolina do Norte. Visar minorias temidas ou impopulares é uma maneira de "estabelecer um limite", disse Sheri E. Berman, uma cientista política do Barnard College --uma maneira de distinguir entre "nós", que merecemos proteção, e "eles", que são uma ameaça.

Em toda população há sempre um segmento que desconfia de forasteiros e é amedrontado pela diferença, disse Marc Hetherington, um cientista político da Universidade Vanderbilt e autor, juntamente com Weiler, do livro "Authoritarianism and Polarization in American Politics" [Autoritarismo e polarização na política americana]. E muitos outros que normalmente seriam mais tolerantes e abertos se voltarão contra os forasteiros se se sentirem especialmente amedrontados --em tempos de guerra, por exemplo, ou depois de um atentado terrorista.

Esse medo cria um ambiente propício para políticas que visam uma determinada minoria com medidas repressivas em nome de "proteger" a maioria.

Os políticos que trabalham de acordo com o "manual" para tirar vantagem desses preconceitos humanos inatos, segundo Hetherington, podem usar esse medo para reforçar sua popularidade e seu poder político.

É um manual que líderes autoritários de todo o mundo seguiram. Eles podem fazê-lo por um desejo consciente de manipular o público, uma crença de que o grupo que eles visam representa uma ameaça ou uma combinação das duas coisas.

Com frequência, os líderes afirmam que o grupo alvo é tão perigoso que os controles de poder habituais devem ser postos de lado e as normas centrais, abandonadas, para reagir adequadamente à ameaça.

Weiler citou o presidente Rodrigo Duterte, das Filipinas, que foi eleito com a promessa de livrar o país dos traficantes de drogas, como um exemplo do uso dessas táticas. Desde que assumiu o cargo, Duterte incentivou a polícia a matar milhares de civis acusados de ser "distribuidores" de drogas.

Eelco van der Maat, um especialista em consolidação autoritária na Universidade de Leiden, na Holanda, disse que os líderes tendem a ser estratégicos em relação a grupos que identificam como ameaças. Eles se concentram nos que são politicamente marginalizados e relativamente impotentes, e que já são vistos como alienígenas e assustadores. Visar esses grupos, segundo Van der Maat, é "mais fácil" porque o público tem maior probabilidade de aceitar que eles são ameaçadores, e também há pequeno custo político em perseguir os que já são fracos.

Hetherington disse acreditar que a ordem executiva de Trump segue esse padrão. Os imigrantes muçulmanos não são um grupo poderoso nos EUA, e o temor público do terrorismo torna os imigrantes muçulmanos um alvo especialmente fácil, acrescentou ele. "Inclua na mistura os atentados do 11-S e você pode transformar isto em preocupações com a sobrevivência."

O cientista disse que o limite nós-eles tende a não permanecer estável, porém. Os líderes autoritários, segundo sua pesquisa, tendem a expandir a categoria de pessoas visadas como forasteiros ameaçadores.

E suas políticas com frequência ficam mais duras, além de mais amplas, disse Van der Maat, quando os líderes sobem o que ele chama de "escada de violência" --passando da discriminação à perseguição mais séria.

Deportações em grande escala, como as que Trump prometeu durante a campanha, seriam um degrau acima naquela escada, disse Van der Maat, porque exigiriam o uso da força e afetariam um segmento maior da população. O presidente assinou na semana passada um decreto que daria às autoridades policiais mais recursos para efetuar deportações, e prometeu punir as "cidades santuários" que se recusam a cooperar com os esforços federais de deportação.

Testando os limites de poder

Trump é um presidente eleito democraticamente, e os EUA são uma democracia. Mas os especialistas advertem que isso não significa que as lições do comportamento autoritário devam ser totalmente ignoradas.

Os presidentes Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, e Vladimir Putin, da Rússia, segundo Weiler, foram eleitos democraticamente, depois minaram sistematicamente os controles democráticos para consolidar seu próprio poder.

Os líderes com tendências autoritárias "forçarão até encontrar um ponto onde não podem mais forçar --e se não encontrarem continuarão forçando", disse Berman. "Estamos assistindo a esse processo em câmera não muito lenta na Turquia hoje", disse ela. Erdogan "erodiu o sistema democrático a um ponto em que a maioria dos analistas acredita que não é mais democrático".

A proibição aos refugiados de Trump, se for considerada legal, não é necessariamente um passo na direção desse tipo de declínio democrático, disse Berman. O principal a se observar, segundo ela, é se ele tentará usar o poder da Presidência para impor regras ilegais ou desconsiderar os limites de poder.

Isso ainda não aconteceu. Mas a proibição é um sinal de que Trump está disposto a forçar os limites das normas de governança americanas. Ao contornar os procedimentos normais para traçar e emitir ordens executivas, a Casa Branca criou confusão e caos nas agências que aplicarão as novas regras. Na segunda-feira (30), a procuradora-geral em exercício, Sally Yates, disse que não considerava a proibição legal e orientou o Departamento de Justiça a não defendê-la. Trump a demitiu no mesmo dia.

Vários tribunais federais emitiram ordens de emergência que limitam o efeito das novas regras. Houve relatos de autoridades da Alfândega e Proteção de Fronteiras que se recusaram a acatar as ordens do tribunal, provocando preocupações de que isso possa levar a um choque direto entre os poderes Judiciário e Executivo. Se o Executivo impedir o Judiciário de aplicar suas ordens, poderia levar ao tipo de crise constitucional mencionada por Berman.

Os EUA hoje estão em posição muito diferente da Turquia sob Erdogan. Mas, segundo Berman, a Turquia tem uma vantagem: diversos partidos de oposição que poderiam obstruir a agenda de Erdogan. Por contraste, no sistema político dos EUA "a oposição tem de vir de dentro do próprio partido principal" --especialmente quando esse partido controla as duas casas do Congresso e a Presidência, como faz o Partido Republicano.

Mas enquanto Trump continuar popular com uma base de apoiadores que apreciam esse tipo de política nós-contra-eles, disse Hetherington, resistir a ele será politicamente arriscado para os republicanos.

E se os legisladores republicanos permitirem que Trump continue com a repressão que prometeu, eles terão a oportunidade de avançar com sua agenda legislativa, incluindo cortes de impostos e a rejeição da Lei de Acesso à Saúde.

Isso deixa os especialistas incertos sobre até onde Trump poderá forçar contra as normas centrais da democracia liberal dos EUA.

"Agora estamos todos esperando por coisas que poderão ser uma espécie de encosta escorregadia", disse Berman.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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