Trump adota pilares da política externa de Obama

Mark Landler, Peter Baker e David E. Sanger

Em Washington

  • Brian Snyder/Reuters

O presidente Donald Trump, depois de prometer uma ruptura radical com a política externa de Barack Obama, está adotando alguns dos principais pilares da estratégia do governo anterior, inclusive as advertências a Israel para parar as construções de assentamentos, os pedidos para que a Rússia se retire da Crimeia e as ameaças de sanções ao Irã em resposta a testes com míssil balístico.

Em sua mudança mais surpreendente, a Casa Branca emitiu um inesperado comunicado fazendo um apelo para que o governo israelense não expanda a construção de assentamentos judaicos para além de suas atuais fronteiras em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia. Segundo o comunicado, uma expansão como essa "pode não estar ajudando a atingir" a meta da paz.

Nas ONU, a embaixadora Nikki Haley declarou que os Estados Unidos não suspenderiam suas sanções contra a Rússia até que o Kremlin parasse de desestabilizar a Ucrânia e retirasse suas tropas da Crimeia.

Quanto ao Irã, a administração está preparando sanções econômicas similares àquelas impostas pela administração Obama pouco mais de um ano atrás. A Casa Branca também não deu nenhuma indicação de que pretende rasgar o histórico acordo nuclear de Obama, apesar das devastadoras críticas de Trump a seu respeito durante a campanha presidencial.

Novas administrações muitas vezes não conseguem mudar as políticas externas de seus antecessores de forma tão radical quanto o prometido, em grande parte porque governar é muito diferente de fazer campanha. E, é claro, as posições de hoje poderiam mudar com o tempo. Não há dúvidas de que a administração Trump delimitou novos territórios no que diz respeito ao comércio e à imigração, destruindo relações com o México e grandes partes do mundo muçulmano no processo.

Mas as mudanças de posicionamento do governo foram particularmente bruscas por terem vindo após dias de telefonemas tempestuosos entre Trump e líderes de outros países, nos quais ele desafiava alegremente a ortodoxia diplomática e parecia colocar todas as relações em xeque.

Trump fez da aproximação com a Rússia o destaque de sua política externa durante a campanha, e líderes europeus têm se preparado para a possibilidade de ele retirar as sanções que eles e Obama impuseram ao presidente Vladimir Putin depois que este anexou a Crimeia. Mas, na quinta-feira, a embaixadora de Trump na ONU, Haley, soou muito como sua antecessora, Samantha Power.

"Nós queremos sim melhorar nossas relações com a Rússia", disse Haley em seus primeiros comentários em uma sessão aberta do Conselho de Segurança da ONU. "No entanto, a situação desesperadora no leste da Ucrânia demanda uma condenação clara e forte sobre as ações russas".

Da mesma forma, Trump se apresentou durante a campanha como um leal partidário de Israel e criticou a administração Obama por permitir a aprovação de uma resolução do Conselho de Segurança em dezembro que condenava Israel pela expansão dos assentamentos.

"Embora não acreditemos que a existência de assentamentos seja um impedimento para a paz", disse seu secretário de imprensa Sean Spicer, em um comunicado, "a construção de novos assentamentos ou a expansão de assentamentos existentes para além de suas atuais fronteiras pode não ajudar nessa meta".

A Casa Branca observou que o presidente "não assumiu uma posição oficial sobre as atividades de assentamento". Disse ainda que Trump discutiria a questão com o premiê Benjamin Netanyahu de Israel quando se encontrassem no dia 15 de fevereiro, na prática pedindo a Netanyahu para que espere até lá.

Encorajado pelo apoio de Trump, Israel havia anunciado mais de 5.000 novas casas na Cisjordânia desde sua posse.

Trump mudou seu posicionamento depois que se encontrou brevemente com o rei Abdullah 2º da Jordânia paralelamente ao Café da Manhã Nacional de Orações —um encontro que fez com que o rei, um dos mais respeitados líderes do mundo árabe, se encontrasse com o novo presidente antes de Netanyahu. A Jordânia, com sua ampla população palestina, tem sido uma crítica fiel dos assentamentos.

A brusca reviravolta da administração também coincidiu com o primeiro dia do secretário de Estado Rex W. Tillerson no Departamento de Estado, e com a chegada do secretário de Defesa Jim Mattis à Coreia do Sul, em sua primeira viagem oficial. Ambos são vistos como potencialmente capazes de exercer uma influência moderada sobre o presidente e seu quadro de conselheiros da Casa Branca, embora não tenha ficado claro o quanto eles tiveram a ver com as mudanças.

Com o Irã, Trump assumiu uma linha indiscutivelmente mais dura do que seu antecessor. Enquanto a administração Obama muitas vezes procurou meios de evitar confrontos com o Irã em seu último ano de mandato, Trump parece igualmente ansioso para desafiar o que ele disse ser uma expansão iraniana pela região, especialmente no Iraque e no Iêmen.

Em um post publicado no Twitter no início da manhã de quinta-feira, Trump foi bombástico para falar sobre o Irã.

"O Irã foi formalmente NOTIFICADO por disparar um míssil balístico", ele escreveu. "Deveria agradecer pelo terrível acordo que os Estados Unidos fizeram com eles!" Em um segundo tuíte ele disse, erroneamente, que "O Irã estava exaurido e prestes a cair quando os Estados Unidos chegaram e lhe deram uma salvação na forma do Acordo Iraniano: US$ 150 bilhões". (R$ 466 bilhões)

Ainda assim, a administração tem tido o cuidado de não especificar o que o conselheiro de segurança nacional, Michael T. Flynn, quis dizer quando ele falou na quarta-feira que o Irã havia sido "notificado" por seu teste com míssil e por seu armamento e treinamento de rebeldes houthi no Iêmen.

A maior parte dos especialistas diz que as sanções anunciadas por Trump terão pouco efeito prático, porque as empresas que fornecem peças de mísseis raramente fazem negócios diretamente com os Estados Unidos, e aliados em geral têm relutado em voltar a impor sanções depois que muitas delas foram retiradas como parte do acordo nuclear de 2015.

Ali Akbar Velayati, um conselheiro do líder supremo do Irã, respondeu: "Essa não é a primeira vez em que uma pessoa inexperiente ameaça o Irã", de acordo com a agência de notícias semi-oficial Fars. "O governo americano entenderá que ameaçar o Irã é inútil".

Alguns analistas dizem que ficaram preocupados com a possibilidade de o governo não ter as ferramentas para cumprir sua advertência, sem recorrer a uma ação militar.

"Independentemente de a administração Trump ter tido essa intenção ou não, eles criaram sua própria linha vermelha", disse Aaron David Miller, membro sênior da Woodrow Wilson International Center for Scholars. "Quando o Irã voltar a fazer testes, a administração não terá outra escolha a não ser tolerar ou se calar".

Netanyahu torcerá pelo tom duro de Trump com o Irã. Mas a declaração do governo americano sobre os assentamentos pode forçá-lo a mudar de rumo sobre uma delicada questão interna. Seu governo de coalizão parecia entender a posse de Trump como um tiro de largada em uma corrida para aumentar as construções em território ocupado.

Depois que Trump foi empossado, Israel anunciou que autorizaria outras 2.500 casas em áreas já assentadas na Cisjordânia, e esta semana fez o anúncio de outras 3.000 . Na quarta-feira, Netanyahu deu um passo além, prometendo construir o primeiro novo assentamento na Cisjordânia em muitos anos.

Para Netanyahu, essa onda de assentamentos reflete um sentimento de libertação após anos de restrições de Washington, especialmente no mandato de Obama, que, assim como outros presidentes, via a construção de assentamentos como um impedimento à negociação por um acordo final de paz. É também um esforço para evitar críticas da direita israelense por Netanyahu ter cumprido uma ordem da Justiça de despejar dezenas de famílias do assentamento ilegal de Amona, na Cisjordânia.

A frase "além de suas atuais fronteiras" no comunicado da Casa Branca sugeria um retorno a uma política que o presidente George W. Bush esboçou para o premiê Ariel Sharon em 2004, que reconhecia que não era realista esperar que Israel abrisse mão de seus principais assentamentos em um acordo final, embora eles fossem ser compensados com trocas de terras acordadas por ambas as partes.

Trump também havia prometido transferir a embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém. Mas a Casa Branca adiou essa mudança, em parte por temor de uma resposta violenta.

As mudanças de posicionamento vieram após uma semana turbulenta, na qual Trump também bateu de frente com os líderes da Austrália e do México a respeito de uma das questões mais difíceis de sua presidência: a imigração. Ele defendeu os tensos diálogos alegando que seria uma demonstração de firmeza que deveria ter sido feita há muito tempo pelos Estados Unidos, que foram explorados "por praticamente todas as nações do mundo".

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos