Como uma comunidade luta pela sobrevivência no frio polar do Alasca

Kirk Johnson

Em Beaver (Alasca)

  • Ruth Fremson/The New York Times

    Crianças observam moradora sob frio de 20 graus negativos em Beaver, Alasca

    Crianças observam moradora sob frio de 20 graus negativos em Beaver, Alasca

Nessa estação de dias breves e noites longas, as pessoas deste vilarejo logo abaixo do Círculo Polar Ártico se unem em torno de lugares iluminados e aquecidos, em salas de estar na frente de fogões a lenha ou no ginásio da escola, onde uma bola de basquete sempre pode ser encontrada. Cerca de 60 pessoas vivem aqui, embora o número flutue à medida que as famílias vão se mudando por algum tempo e depois voltam --ou não.

A insegurança em relação ao futuro é uma constante em lugares remotos como este. No passado, os moradores precisavam se concentrar em sobreviver, arrumando alimentos e combustível o suficiente para suas famílias conseguirem atravessar o pior do inverno. Agora as pessoas estão mais conectadas ao resto do mundo através de empregos e da tecnologia, mas os vilarejos em si não têm essa certeza --eles podem desaparecer à medida que as pessoas vão indo embora ou vão atrás de oportunidades e da sedução de Anchorage, Fairbanks e outros lugares além.

Com novos alunos, um vilarejo consegue manter seu financiamento

Os pés de Xavier Sanford, sentado em sua carteira, ainda nem alcançam o chão. Mas, no outono passado, Xavier, que tem 5 anos de idade e adora dinossauros, ajudou a salvar sua escola só por ir até lá. As matrículas escolares --chamadas de contagem de outubro, muitas vezes temidas-- contam muito em Beaver e outras escolas rurais. Se a população de alunos cai abaixo de 10, o Estado do Alasca corta o financiamento, o que pode levar à morte de uma escola e de uma comunidade.

Beaver começou o ano letivo com força, com 14 alunos, incluindo Xavier, o único aluno do jardim de infância. Mas no final do outono, depois de concedida a verba para o ano, o número de alunos inscritos caiu para 9, depois que uma família embarcou em um avião e foi viver em outro lugar. Reforços na forma de dois alunos do jardim de infância prontos para começar no próximo outono, incluindo Alaina Pitka, de 5 anos, estão aliviando os temores de que a escola vá ser fechada, pelo menos por enquanto.

Um fogo crepitante e um jogo de cartas

Uma partida relâmpago de panguingue --imagine que seria como um rummy cafeinado, com nove baralhos de cartas-- é um ritual noturno nessa cabana de madeira aconchegante, de paredes forradas por fotos, aquecida por um fogão a lenha crepitante. Enquanto parentes e amigos conversam, blefam e fazem apostas, eles também tiram sarro do amor que o dono da casa, que dança ao fundo, tem por rock clássico dos anos 1970.

Teisha Wiehl, 23, se mudou em novembro de Fairbanks para Beaver junto com seu marido Clinton, que é daqui, e a filha deles, Lauren, de 3 anos. "Eu estava cansada de carros e multidões", disse Wiehl.

Ruth Fremson/The New York Times
Casa abandonada em Beaver

Compras de supermercado, às vezes aéreas

Velhos e jovens se cruzam. Pacotes da Amazon e de outras lojas chegam de Fairbanks no voo da tarde, um aviãozinho com motor turboélice que atende a comunidade. Alguns moradores até compram carne dessa forma, vinda de lojas em Fairbanks, atraindo o desdém de tradicionalistas que enchem seus congeladores com carne de alce e de urso que eles mesmos esfolam e cortam, além de salmão vindo do Rio Yukon, que nesta época do ano está congelado bem na entrada do vilarejo.

Casas mais novas, bem seladas e arrumadas, convivem lado a lado com cabanas abandonadas de portas escancaradas e chãos cobertos por neve, e em alguns lugares lamparinas de querosene vazias ainda penduradas.

Os direitos sobre as terras e o financiamento são desafios frequentes

A sobreposição de sucessões nos direitos sobre as terras complica as coisas. A agência federal de Assuntos Indígenas chegou a administrar a antiga escola, hoje abandonada, que tem isolamento de amianto e uma dor de cabeça referente a uma compensação ambiental pela qual ninguém quer pagar. Então o prédio continua mofando onde está. Problemas recentes com o orçamento do Estado acrescentaram mais uma dificuldade, uma vez que os legisladores no parlamento de Juneau cortaram programas, em tempos de queda nas receitas geradas por impostos sobre o petróleo.

Rhonda Pitka, chefe do vilarejo e mãe de Alaina, que começará a frequentar o jardim de infância no próximo outono, tentou por anos obter o título para uma faixa de terra de propriedade da Igreja Episcopal, com o objetivo de instalar um gerador de biomassa para aquecer os prédios da comunidade e a nova escola. Pitka finalmente conseguiu a terra, mas então o dinheiro do Estado que ajudaria nos projetos de energia renovável desapareceu em meio a uma poça de dívidas.

Ruth Fremson/The New York Times
O cemitério da cidade

Pontinhos de humanidade em uma vasta área

O destino e a sorte dos nativos de toda a América do Norte foram moldados por políticas governamentais, pela economia e por ondas demográficas, mas também, e talvez ainda mais, pelo espaço físico.

Nos 48 Estados de baixo, tribos foram forçadas para dentro de reservas quando uma onda de colonos tomou terras tribais para suas fazendas, ranchos e minas. Em compensação, aqui em cima, onde alasquianos nativos são conectados pela língua e pela tradição em amplos grupos étnicos, as pessoas se aglomeraram naquilo que são basicamente ilhas em um cenário em sua maior parte vazio --pontinhos de humanidade fora do sistema viário em um mar de tundra e florestas. Muitos moradores de Beaver, que fica na fronteira das regiões de Gwich'in e Koyukon, têm ancestrais em ambos os lados da linha.

Adaptação a uma nova casa

Ai Adams nasceu e foi criada em Tóquio, filha de uma figurinista de teatro, e se apaixonou pela mística do Alasca vista em livros que ela lia quando criança. Depois de visitar Beaver cerca de uma década atrás em uma excursão, ela se casou com um residente local, Cliff Adams, realizando seu sonho. "Só se vive uma vez", ela disse, com um sotaque japonês ainda forte.

Hoje ela tem suas próprias fileiras de armadilhas para animais de pele, caça e pesca junto com seu marido, e fabrica roupas tradicionais que a aquecem nos dias mais frios, ela disse, enquanto junta lenha no inverno na floresta silenciosa e aparentemente infinita que começa na entrada do vilarejo. Ela diz que não sente falta de quase nada da vida urbana e do Japão.

Novas raízes para uma família

Lyla Evans, 4, apontou empolgada pela janela na direção de uma casa em construção ao lado da sua: era a primeira nova moradia em Beaver que se via em anos. "Vamos nos mudar para lá em breve!", ela gritou.

Seus pais, Nellie e Mike Evans --ela trabalha na escola como cozinheira; ele perdeu o emprego em uma plataforma de petróleo-- vieram ambos de famílias arruinadas pelo alcoolismo, dizem eles, e foram criados por famílias adotivas depois que seus pais biológicos não puderam mais cuidar deles. Eles juraram que dariam uma vida melhor à sua filha, que começará o jardim de infância no próximo outono. "Nós dois tivemos vidas difíceis, mas não queríamos que nossa filha crescesse assim", disse Evans.

Lyla tinha motivos mais urgentes para querer se mudar logo e deixar a antiga e fria cabana de caçador na qual eles vinham morando, ainda com ganchos nas vigas onde antes se penduravam peles. "Tem ratos em casa", ela disse franzindo as sobrancelhas.

Ruth Fremson/The New York Times
Moradores jogam panguingue na casa de Eddie Evans

Em terras incultas

O desespero e a esperança andavam de mãos dadas no começo da história de Beaver, durante a corrida do ouro no início dos anos 1900, como um entreposto de suprimentos para mineiros na região mineradora do Rio Chandalar, ao norte do Yukon.

Frank Yasuda, um alasquiano nascido no Japão que vivia na fronteira noroeste de Barrow, chegou aqui no início do século 20 depois de guiar um grupo mato adentro por mais de 640 km com sua mulher, Nevelo. Barrow passava por uma crise de doenças e fome, pois as baleias das quais os moradores dependiam para se alimentar estavam desaparecendo.

A façanha da sobrevivência dos Yasudas, além de sua determinação para chegar aqui, construir e ancorar Beaver no século 20, se tornaram lendários. Yasuda até viveu o suficiente para ver o Alasca se tornando um Estado em 1959. Sua cabana continua em pé.

"Basta um pequeno erro"

Quando os céus começam a clarear nesta época do ano, a temperatura pode cair até 45º C abaixo de zero ou menos, atravessando aquilo que os moradores descrevem como uma espécie de limite de risco. Assim como mergulhadores de águas profundas que sofrem de doença da descompressão, as pessoas que sofrem confusão induzida por hipotermia podem sentir calor, ainda que estejam congelando, de forma que elas fazem exatamente o que não devem e começam a tirar a roupa. Uma respiração não filtrada por uma máscara pode congelar os pulmões. Uma bota molhada se torna uma jaula de ferro em segundos que não pode ser removida sem fogo ou abrigo. "Basta um pequeno erro", disse Cliff Adams, marido de Ai.

Um compromisso em ficar

Carmen Russo havia desistido de lecionar. Aos 62 anos de idade, ela já havia visto de tudo e estava cansada, em vilarejos remotos onde a marginalidade, o alcoolismo e o desespero podem criar uma ameaça de ruína. Um aluno de 11 anos de idade da última escola onde ela lecionou cometeu suicídio no pátio.

Mas então, este ano, ela foi convencida a assumir um trabalho temporário em Beaver --um último trabalho antes de se aposentar, ela pensou-- e tudo mudou. Ela se apaixonou pelos alunos e sentiu que podia contar com uma rede de pais mais solidária. Agora ela deixou de lado a aposentadoria e pediu recentemente para ficar na escola permanentemente.

"Funciona, aqui", disse Russo, que nasceu e foi criada no Alasca. "Lembra minha casa".

No entanto, devido às poucas opções de moradia em Beaver, há um preço a se pagar: ela tem morado junto com seus dois cachorros e seu gato em uma sala de aula desocupada.
 

Tradutor: UOL

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