O dia em que o assessor de Trump defendeu que islã e laicismo são ameaças

Scott Shane

  • Hilary Swift/The New York Times

    20.jan.2017 - Stephen Bannon (esq.), estrategista-chefe da Casa Branca, e Reince Priebus, chefe de gabinete do presidente, na manhã da posse de Donald Trump

    20.jan.2017 - Stephen Bannon (esq.), estrategista-chefe da Casa Branca, e Reince Priebus, chefe de gabinete do presidente, na manhã da posse de Donald Trump

Stephen K. Bannon, o ex-chefe da "Breitbart News" e atualmente estrategista-chefe do presidente Donald Trump, foi o principal motivador para a rápida assinatura pelo presidente da ordem executiva (algo semelhante a uma medida provisória no Brasil) de imigração na sexta-feira (27), que causou uma tempestade política. No centro da preocupação dos críticos está a percepção de que a ordem visava os muçulmanos, apesar de Trump ter dito no fim de semana que não se tratava de uma "proibição a muçulmanos", notando que visava apenas sete de cerca de 50 países de maioria muçulmana.

Bannon há muito argumenta que os americanos, quer saibam ou não, estão em guerra contra o Islã radical, o descrevendo em termos abrangentes, quase apocalípticos. Seu ponto de vista parece ser compartilhado por Trump e seu conselheiro de segurança nacional, o general de exército reformado Michael T. Flynn, assim como por vários outros funcionários do governo e oficiais militares. Os pontos de vista de Bannon foram expostos em uma longa palestra que ele deu em meados de 2014 em Los Angeles, pelo Skype, para um encontro do Instituto pela Dignidade Humana, um grupo católico conservador com sede em Roma. A seguir estão trechos da palestra, que foi publicada na íntegra pela "BuzzFeed" em novembro, com comentários explicativos.

Fascismo islâmico

Falando enquanto os combatentes do Estado Islâmico avançavam pelo Iraque, tomando território e chocando as autoridades americanas e europeias, Bannon declarou repetidas vezes que os Estados Unidos estavam em uma "guerra mundial" contra o Islã radical, que ele às vezes descrevia como "fascismo islâmico". Ele enfatiza o fato de terem como alvo os cristãos e usarem as redes sociais contemporâneas:

"Agora esse chamado converge com algo que temos que enfrentar, e é um assunto muito desagradável, mas estamos claramente em guerra contra o fascismo islâmico jihadista. E, acredito, essa guerra está passando por uma metástase mais rápida do que os governos são capazes de lidar.

Olhem para o que está acontecendo no EI, que é o Estado Islâmico da Síria e do Levante, que no momento está formando o califado que está avançando militarmente para Bagdá, olhem para a sofisticação com que lidam com as ferramentas do capitalismo. Olhem para o que fizeram com o Twitter, o Facebook e com formas modernas de arrecadação de fundos, além do uso de crowdsourcing, além de todo o acesso a armas, nos últimos dias eles adotaram um programa radical para pegar crianças e tentar transformá-las em homens-bomba. Eles expulsaram 50 mil cristãos de uma cidade próxima da fronteira curda. Temos um vídeo que postaremos ainda hoje na 'Breitbart', no qual pegam 50 reféns e os atiram de um penhasco no Iraque.

Esta guerra está expandindo e passando por metástase à África sub-Saara. Temos o Boko Haram e outros grupos que posteriormente se unirão ao EI nesta guerra mundial e, infelizmente, é algo que teremos que encarar, e teremos que encarar rapidamente."

O que o EI deseja

Bannon discute a intenção do Estado Islâmico, também conhecido como EI, de massacrar pessoas na Europa Ocidental e nos Estados Unidos:

"Eles postaram hoje no Twitter, o EI, sobre transformar os Estados Unidos em um 'rio de sangue' se vierem e tentarem defender a cidade de Bagdá. E acreditem, isso chegará à Europa. Chegará à Europa Central, chegará à Europa Ocidental, chegará ao Reino Unido. Logo, acredito que estamos em meio a uma crise nas fundações do capitalismo, e somando-se a isso, eu acredito, agora estamos nos estágios iniciais de uma guerra mundial contra o fascismo islâmico."

Laicismo

Ao ser perguntado sobre qual representava a maior ameaça à civilização judaico-cristã, o "laicismo ou o mundo muçulmano", Bannon associa os dois:

"É uma ótima pergunta. Certamente acredito que o laicismo minou a força do Ocidente judaico-cristão de defender seus ideais, certo?

Se vocês voltarem a seus países e propuserem a defesa do Ocidente judaico-cristão e seus princípios, com frequência, particularmente ao lidar com as elites, vocês serão vistos como aberrações. Logo, isso meio que minou a força.

Mas acredito fortemente que sejam quais forem as causas do atual impulso do califado, e podemos debatê-las e pessoas podem tentar descontruí-las, temos que encarar um fato muito desagradável: e esse fato desagradável é que há uma guerra maior fermentando, uma guerra que já é mundial. Ela está se tornando mundial em escala, e a tecnologia atual, a mídia atual, o acesso atual a armas de destruição em massa, levarão a um conflito mundial que acredito que temos que confrontar já. Cada dia que passa que nos recusamos a encarar isso como de fato é, e sua escala, sua selvageria, será um dia que nos arrependeremos de termos perdido por não termos agido."

Vladimir Putin

Uma pessoa pergunta sobre o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e Bannon dá uma resposta ambígua, rejeitando a corrupção de Putin, mas sugerindo que o "Ocidente judaico-cristão" poderia aprender com seu "tradicionalismo".

"Não estou justificando Vladimir Putin e a cleptocracia que ele representa, porque ele é o capitalista de Estado da cleptocracia. Entretanto, nós, o Ocidente judaico-cristão, realmente precisamos olhar para o que ele está falando em relação ao tradicionalismo, particularmente no sentido onde apoia as bases do nacionalismo, e, a propósito, acho que a soberania individual de um país é algo bom e algo forte. Acho que países fortes e movimentos nacionalistas fortes nos países geram vizinhos fortes, e esses são realmente os blocos de construção que construíram a Europa Ocidental e os Estados Unidos, e acho que é o que pode nos conduzir adiante."

Resposta do Ocidente

Ao ser perguntado sobre como o Ocidente deveria responder à ameaça do Islã radical e "não se perder no processo", Bannon abandona pela primeira vez os adjetivos e fala simplesmente na "luta contra o Islã". Ele conecta a atual situação mundial a conflitos de séculos atrás entre o cristianismo e o Islã.

"Acredito que é preciso adotar uma posição muito, muito, muito agressiva contra o Islã radical. E entendo que há outros aspectos que não são tão militantes, não tão agressivos, e tudo bem com isso.

Se vocês olharem para a longa história da luta do Ocidente judaico-cristão contra o Islã, acredito que nossos antepassados mantiveram sua posição, acho que fizeram a coisa certa. Acho que eles o mantiveram fora do mundo, seja em Viena, Tours ou outros lugares (...) Isso nos legou a grande instituição que é a Igreja do Ocidente."

Conflito histórico

Bannon está se referindo a duas vitórias históricas das forças cristãs sobre agressores muçulmanos: uma foi em 732, em Tours, França, quando Carlos Martelo combateu com sucesso os cavaleiros muçulmanos liderados por Abdul Rahman al Gafiqui. A outra foi em 1529, com o cerco fracassado a Viena pelas forças otomanas sob Solimão, o Magnífico, o sultão do Império Otomano. Bannon convoca os católicos a agirem durante o que descreve como uma "crise".

"E eu pediria a todos hoje na plateia, porque vocês realmente são os motores e líderes de pensamento da Igreja Católica atual, para que pensem, para que quando as pessoas daqui 500 anos pensarem nos dias de hoje, pensarem nas ações que tomaram. Acredito que todos os associados à igreja e associados ao Ocidente judaico-cristão que acreditam nas fundações disso, acreditam nos preceitos, desejam ver isso legado a futuras gerações da mesma forma que nos foi legado. Particularmente ao estarem em uma cidade como Roma, e em um lugar como o Vaticano, vejam o que nos foi legado. Perguntem a si mesmos, daqui 500 anos, o que dirão a meu respeito? O que irão dizer sobre o que fiz nos estágios iniciais desta crise?"

Chamado à ação

Na conclusão, Bannon insiste em seu chamado à ação, sem deixar claro que tipo de ação busca, mas também alertando contra o que chama de "nossos instintos mais baixos".

"Porque é uma crise e não irá embora. Vocês não precisam aceitar o que estou dizendo. Basta lerem o noticiário todo dia, verem o que está ocorrendo, verem o que eles estão postando no Twitter, o que estão postando no Facebook, o que está sendo exibido na 'CNN', na 'BBC'. Veja o que está acontecendo e verá que se trata de uma guerra de proporções imensas. É muito fácil ceder aos nossos instintos mais baixos e não podemos fazer isso. Mas nossos antepassados também não o fizeram. E conseguiram rechaçar isso, conseguiram derrotá-lo, conseguiram nos legar uma igreja e uma civilização que realmente é a flor da humanidade, de modo que acho que cabe a todos nós fazer o que chamo de checagem da nossa determinação, para realmente pensarmos sobre qual é o nosso papel nesta batalha diante de nós."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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