A reabilitação de 'Pitbull', um ex-lutador e neonazista

Joseph Goldstein

Em Nova York (EUA)

  • Joshua Bright/The New York Times

    Duke Schneider com sua mulher Catherine Boone, no Brooklyn, Nova York

    Duke Schneider com sua mulher Catherine Boone, no Brooklyn, Nova York

Duke Schneider é um velho lutador profissional conhecido como Pitbull e um guarda aposentado da prisão de Rikers Island. Por oito anos, ele também foi membro do Movimento Nacional Socialista. Sua devoção era primeiro a Adolf Hitler e segundo ao grupo de neonazistas que ele comandava de seu lar no Brooklyn.

Ele fazia discursos em comícios nazistas por todo o país. Uma pequena milícia que operava ao longo da fronteira no Arizona, usando uma insígnia nazista, telefonava constantemente para ele à procura de orientação.

Mas há poucos anos atrás ele fez uma pausa para reavaliar sua vida, se viu sentindo a falta de uma amiga, Catherine Boone, uma assistente de saúde e uma personalidade menor da televisão por assinatura. Schneider a conheceu anos atrás em uma convenção de autógrafos. Agora eles estavam se vendo cada vez menos, em parte porque ele estava ocupado demais sendo neonazista e em parte porque seus camaradas desaprovariam.

Boone é negra.

"Eu não podia demonstrar emoções e tinha que continuar seguindo o 'Mein Kampf'" (o livro "Minha Luta" de Hitler, no qual expõe sua ideologia), explicou recentemente Schneider, 66 anos, enquanto ele e Boone se sentavam à sua mesa habitual nos fundos do Floridian Diner, na Flatbush Avenue.

Hoje eles estão casados e felizes, naquela que é certamente uma das histórias de amor mais incomuns do Brooklyn. "Nós não discutimos sobre nada", disse Boone.

O uniforme da SS de Schneider está guardado em um saco de lixo no sótão e ele fala com pesar de seu período com o Movimento Nacional Socialista, que em geral é considerado o maior grupo neonazista americano.

"Eu não bebia e nem descumpria a lei, mas era uma das pessoas mais malignas que já existiu", disse Schneider. "Eu não estava servindo a Deus. Estava servindo a Satã ao servir a Hitler."

"É isso mesmo", acrescentou sua esposa.

A história de Schneider é uma das histórias mais improváveis de transformação. Atualmente, disse Schneider, ele trabalha como segurança para judeus ortodoxos, montando guarda do lado de fora de sinagogas, o que ele considera uma honra.

Para entender como ele se tornou um neonazista, Schneider disse que ajuda saber que na infância se sentia indesejado. "Eu cresci de forma torta", ele disse. Seu pai era ausente e sua mãe "me odiava por fazê-la se lembrar dele", e um parente mais velho batia nele impiedosamente.

Joshua Bright/The New York Times
Schneider se casou com uma mulher negra e agora repudia os anos que passou como um neonazista
Quando menino, com suas costas às vezes doendo após ser açoitado com a corrente do cachorro, ele assistia documentários. Nada rivalizava seu fascínio por programas sobre o Terceiro Reich. Os uniformes imponentes e a conversa sobre uma raça superior o encantavam. "Por que não posso ser tão durão quanto eles?" ele se perguntava.

Ele se tornou levantador de pesos e ingressou no circuito profissional de luta livre. Por 20 anos, ele foi um guarda na prisão de Rikers Island, se aposentando em 1999.

E ao longo dos anos, Schneider nutria uma obsessão não tão secreta pelo nazismo.

Ao se aposentar, Schneider encontrou trabalho como guarda e voltou aos ringues. Nas horas livres, ele ia a eventos como o Chiller Theater Expo, uma convenção de autógrafos para ex-famosos e ex-quase famosos. Lá, ele puxou conversa com Boone, que estava autografando fotos para fãs que a reconheciam do Channel 35, uma emissora por cabo de acesso público. Ela também participou de alguns poucos filmes de terror.

Schneider era um segurança e Boone precisava de proteção. Ela lhe disse que temia um homem violento de um relacionamento anterior. Schneider se tornou seu protetor. Ele a acompanhava às compras e sempre a visitava para checar se estava bem. Ela acabou se mudando para a casa dele. E então ele se tornou neonazista.

Os motivos de Schneider foram um tanto confusos. Ele disse que pretendia se infiltrar no movimento supremacista branco de modo disfarçado. O motivo, segundo ele, era por Boone ter sido molestada por skinheads em um ônibus da cidade. Perturbado com a forma como ela foi maltratada, ele começou a pesquisar os supremacistas brancos online.

Mas após meio século de fascínio pelos nazistas, Schneider se viu empolgado ao discar o número do Movimento Nacional Socialista. Ele conversou com um recrutador, preencheu uma inscrição e comprou um uniforme marrom. Quando ele chegou, ele o provou imediatamente. "Foi quase como voltar a ter 6 anos", ele disse.

Em poucos meses, ele se juntou ao círculo interno da organização, seu quadro da SS. Ele raspou a barba e jurou lealdade a Hitler e Jeff Schoep, um neonazista em Michigan que comanda o Movimento Nacional Socialista americano.

A maioria dos americanos conhece a organização, se é que a conhecem, devido às marchas do grupo. Os encontros com frequência terminam em briga. Quando Schneider partia para marchar, na Carolina do Sul, Califórnia, Nova Jersey e em outros lugares, Boone ficava acordada até tarde, espalhando fotos de Schneider pela cama e olhando para elas até começar a chorar.

"Eu rezava para ele voltar em segurança e para que ele deixasse o movimento", ele lembrou.

Schneider se transformou em um dos rostos públicos do grupo, fazendo discursos em comícios e falando para a mídia. Ele comparava os imigrantes ilegais no país a baratas e, quando perguntado sobre o Holocausto, falava sobre como os alemães também sofreram.

Nos comícios, ele se misturava com pessoas que deram o nome de Hitler a seus filhos e outras que não escondiam seu ódio. "Muitas delas tiveram infâncias muito infelizes e se comportavam como crianças perdidas, de modo que achei que podia ajudá-las", disse Schneider, um ouvinte paciente com voz suave levemente nasalada, provavelmente devido a ter seu nariz quebrado uma dúzia de vezes.

Schneider ficou cego, segundo ele, devido à sua rápida ascensão. "Eu tinha 100 homens sob meu comando prontos para fazer o que eu dissesse", ele disse. Nem mesmo após a morte violenta de dois homens que ele considerava companheiros Schneider repensou as coisas.

Em 2011, um líder do movimento na Califórnia, Jeff Hall, foi morto por um tiro dado por seu filho de 10 anos. "Fui eu que o promovi e lhe dei seu uniforme", disse Schneider sobre Hall.

No ano seguinte, J.T. Ready, que patrulhava a fronteira com o México no Arizona e detinha imigrantes, matou quatro pessoas a tiros antes de se suicidar, disseram as autoridades.

Também em 2012, os médicos encontraram o que parecia ser um tumor cancerígeno na garganta de Schneider. O prognóstico era sombrio.

Por anos, Schneider sentia um crescente distanciamento entre ele e Boone, mas de repente percebeu que ela "era a única pessoa que me fazia sentir alguma esperança". Encorajado por ela, ele conversou com o pastor dela. No culto dominical, ele apareceu perante a congregação e "confessei tudo e me arrependi", disse Schneider. "Eu imaginei que estava prestes a morrer."

O tumor acabou se revelando benigno, uma obra de Deus, disse Schneider. Em seu leito no hospital, ele disse a Boone: "Assim que minha força voltar, nós vamos nos casar". Semanas depois, eles se casaram.

A notícia chegou ao Movimento Nacional Socialista quando a esposa do pastor postou as fotos do casamento no Facebook. Neonazistas por todo o país criticaram e Schneider ficou aliviado. "Eu queria que meus ex-companheiros soubessem que esta mulher negra é a minha vida. Sim, eu amarei esta mulher para sempre e estou renunciando ao nacional-socialismo", ele disse.

Schneider telefonou para seu comandante para renunciar. De agora em diante, Schneider disse a Schoep, ele viveria segundo a Bíblia, não segundo o "Mein Kampf".

"Ele estava fazendo algo com que não concordamos, mistura de raças", disse Schoep em uma entrevista por telefone. "Estou tentando encontrar uma forma delicada de colocar isso, mas realmente não acreditamos nisso."

No restaurante Floridian, muitos clientes conhecem Schneider como ex-lutador. Quando visitam sua mesa, Boone pega uma pilha de fotos de um Schneider mais jovem e mais feroz, que ela dá aos fãs após seu marido autografá-las.

Eles já estão casados há quatro anos, um período que trouxe "muitas mudanças felizes", ele disse. Uma delas é seu trabalho atual como segurança de yeshivas (escolas judaicas) e sinagogas. Ele se diz tocado pela gentileza dos parentes dos rabinos, que lhe trazem sopa nos dias frios. "Eu passei a amar e respeitar essas pessoas", ele disse.

Ele expressou ansiedade de que algum dia possam descobrir seu passado e afastá-lo. "Rezo a Deus para que nunca descubram", ele disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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