À medida que velhos inimigos se tornam novos vizinhos, tensão aumenta na Colômbia

Nicholas Casey

Em La Paz (Colômbia)

  • Federico Rios Escobar/The New York Times

    Membros das Farc em uma das zonas de transição para voltar à vida civil, perto de La Paz, na Colômbia

    Membros das Farc em uma das zonas de transição para voltar à vida civil, perto de La Paz, na Colômbia

O nome da cidade significa "paz" em espanhol. Os dias por vir testarão se ela realmente fará jus.

Após meio século de guerra, os rebeldes da Colômbia estão se desarmando, preparando-se para ingressar na vida civil segundo um acordo assinado no ano passado. Nesta cidade na montanha, um novo assentamento de ex-combatentes, que chegam a 80 e estão crescendo, está ganhando forma, um dos muitos espalhados pelo país.

A maioria das fardas se foi, substituídas por roupas do mesmo tipo usado pelos moradores que vivem nas proximidades e que observam com cautela. As tendas e seus paus também serão removidos, substituídos por uma pequena biblioteca, um centro comunitário, uma loja; uma cidade em miniatura, um degrau para saída da selva.

"Nós passamos 52 anos dormindo em redes", disse o comandante dos combatentes, que ainda usa seu nome de guerra, Aldemar Altamiranda. "É hora de nos mudarmos para casas pequenas."

Por todo o país, cerca de 7.000 rebeldes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou Farc, entregarão suas armas para monitores da ONU neste ano. As armas serão derretidas e transformadas em monumentos de guerra. As Farc também esperam se transformar, se tornando um partido político de esquerda, como os que surgiram depois das guerras de guerrilha na Nicarágua e El Salvador.

O assentamento em La Paz, chamado Tierra Grata, é a vanguarda do esforço para implantação do contestado acordo de paz da Colômbia. O acordo foi rejeitado por voto popular no final do ano passado, apenas para ser aprovado à força no Congresso pelo presidente Juan Manuel Santos, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz por buscar o fim de décadas de conflito.

Mas a decisão do presidente de submeter o acordo a aprovação pelos eleitores, para depois ignorá-los quando não gostou do resultado, é uma pílula amarga para muitos colombianos, o que deixa o futuro do acordo incerto caso os oponentes de Santos assumam o poder quando ele deixar o cargo, no ano que vem.

Federico Rios Escobar/The New York Times
Segundo o comandante Aldemar Altamiranda, guerrilheiros precisam se acostumar até com camas
La Paz é uma evidência clara das divisões no país: apesar do referendo ter sido apoiado aqui, quatro entre 10 moradores votaram contra o acordo de paz. Alguns ainda guardam memórias amargas da guerra e de um inimigo que antes os atacava, mas que de repente se transformou em um vizinho.

"Muitos têm a capacidade de perdoar, mas não podemos perdoar a violência sob a qual vivemos naquela época", disse Julio Fuentes, um médico de 42 anos que disse ter votado contra o acordo. Fuentes, cujo irmão foi morto no final dos anos 90, disse estar em paz com os guerrilheiros. Mas para muitos, ele alertou, "será uma opção individual se o fizerem".

O assentamento para os combatentes aqui está entre os mais desenvolvidos, uma área do tamanho de um sítio onde tratores removeram o mato. Na terra vermelha há um campo de futebol, um refeitório de concreto e uma área de recepção onde o governo espera que os rebeldes comecem a se reencontrar com familiares abandonados anos atrás.

As únicas pessoas armadas aqui são os rebeldes. O perímetro é protegido pelos militares colombianos, que estão se ajustando a um novo papel: proteger os guerrilheiros, em vez de combatê-los.

Um contingente da ONU também está posicionado aqui, encarregado de coletar as armas dos rebeldes antes de partir.

O assentamento se transformou em um local de reflexão. Agora sem uma guerra, os rebeldes passam seus dias contemplando que vida escolherão. Será que devem voltar para os vilarejos de onde saíram e trabalharem a terra? Ou devem ingressar no novo partido político que os líderes rebeldes prometeram criar?

"Muitos olham para como a política é feita aqui, com gravata, carro bonito e todo o dinheiro, e dizem: 'Não podemos fazer isso, não queremos fazer isso'", disse Yimmy Ríos, 47 anos, um agente da inteligência rebelde no assentamento. Ele disse que será um desafio para os guerrilheiros ingressar em um cenário político onde não sabem realizar uma campanha.

O primeiro eleitorado deles será conquistar a comunidade cética de La Paz.

A cidade, que fica no sopé da Sierra de Perijá, uma íngreme cadeia de montanhas que por muito tempo serviu como reduto rebelde, foi assolada por anos tanto pelas Farc quanto por seus inimigos paramilitares. Em 1997, o prefeito foi morto a tiros em seu gabinete por homens armados, uma das inúmeras mortes que os moradores atribuem aos guerrilheiros.

Essa história estava na mente de Alcides Daza Quintero, o vice-prefeito de 27 anos, quando ligou a televisão no final de agosto e viu Santos anunciar o acordo de paz do palácio presidencial. Com o anúncio veio uma surpresa: o governo disse que as Farc tinham escolhido La Paz como uma das zonas onde se estabeleceriam para desarmar.

"Foi como um golpe", disse Quintero, explicando que a cidade não foi consultada a respeito por nenhum dos lados. "Receber um grupo marginal dessa forma. Nós fomos duramente atingidos por eles."

O restante da cidade se sente profundamente ambivalente. Alguns protestaram diante do gabinete do prefeito. Outros, como Juan Martinez, um líder comunitário da cidade próxima de San José del Oriente, argumentou que a presença dos rebeldes seria boa, pois traria atenção do governo ao seu vilarejo, que recebe água apenas por duas horas por dia.

"Nós recebemos promessas como parte desses acordos", ele disse. "Há, pode-se dizer, o início de uma reconciliação."

As Farc seguiram em frente, descendo das montanhas e ocupando um pedaço de terra não distante de La Paz em setembro. Mas lá elas receberam uma recepção fria: os membros do grupo indígena seminômade Yukpa, que controla aquelas terras, disseram aos rebeldes que não eram bem-vindos e que deveriam em breve se mudar para outro lugar.

Então veio o referendo em outubro, uma rejeição que surpreendeu os rebeldes.

"Todos estávamos concentrados no rádio, primeiro ouvindo o resultado, depois para ouvir os comandantes dizerem o que ocorreria a seguir", disse um combatente de 25 anos da cidade costeira de Barranquilla, que atende pelo nome de José. Como outros, não disse seu nome completo por medo de represálias.

Os altos comandantes das Farc rapidamente tranquilizaram o público de que, apesar do fracasso do acordo, eles permaneciam abertos às negociações e não retornariam à guerra. E Altamiranda, o comandante em La Paz, decidiu que era hora de se encontrar em público com os céticos.

Em uma noite no final de outubro, centenas se reuniram em um parque municipal, enquanto líderes religiosos, políticos e líderes rebeldes discutiam o acordo. As vítimas pegavam o microfone e contavam sobre seus entes queridos que foram mortos durante a guerra. Altamiranda fez um pedido público de desculpas pelos crimes dos rebeldes.

Os eventos conseguiram sensibilizar líderes como Sol Marina Torres, 39 anos, membro do Centro Democrático, o partido de direita que liderou a campanha contra o acordo e prossegue nos esforços para anulá-lo. Torres decidiu se posicionar contra os líderes de seu partido e apoiar a presença dos guerrilheiros em sua cidade, dizendo não haver opção, a não ser a paz.

"Não posso concordar com tudo do partido", disse Torres. "Não posso dar as costas ao bem-estar da minha comunidade."

Mas nem todos os eventos públicos se saíram bem.

Houve alvoroço durante uma visita da imprensa neste ano, quando surgiram vídeos dos rebeldes dançando com os membros da missão da ONU que deveriam estar supervisionando o processo de desarmamento. Os oponentes do acordo fizeram uso das  gravações e quatro membros da missão foram demitidos.

O governo vê mais do que um desarmamento ocorrendo nesses assentamentos, mas também uma chance de desenvolver vastas áreas do interior que passaram décadas fora de alcance devido ao conflito. Um dos assentamentos se encontra em uma floresta costeira distante; outro se encontra no fim de uma estrada, cujo acesso só é possível por mula.

Nenhuma conta com presença estável do governo há décadas, se é que já teve alguma.

"Estamos falando sobre os locais onde as Farc estiveram: não havia água ou eletricidade", disse Carlos Córdoba, o diretor do governo para as zonas rurais.

Federico Rios Escobar/The New York Times
Membros das Farc se abraçam depois de longo tempo sem se verem perto da cidade de Laz Paz
No campo fora de La Paz, alguns aspectos da vida guerrilheira permanecem. Os combatentes ainda acordam às 4h30 da manhã, mas para cursar aulas sobre o acordo de paz em vez de marchar. Um guerrilheiro patrulhava o campo desconfiadamente, com uma arma pendurada no ombro.

Outras cenas mudaram. Na entrada do campo, uma jovem guerrilheira abraçava seus parentes. A família estava às lágrimas.

A maioria dos combatentes entrevistados disse planejar permanecer com as Farc, que agora veem como sendo sua família, independente de qual seja a encarnação política que assuma nos próximos anos.

"Não havia outra forma de sair de onde vim", disse Yackeline, 32 anos, uma combatente que fugiu de casa para um campo rebelde quando tinha 13 anos, pois ela disse que era o único local onde poderia receber educação.

Ela ainda não entrou em contato com sua família, mas disse que o fará. Ela estava dando passos pequenos, um de cada vez, para se ajustar a uma vida pós-conflito cheia de surpresas.

"Nós acordamos cansados nos colchões, como se não tivéssemos dormido", ela disse. "Não estamos acostumados a eles."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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