Trump transforma clube de luxo na "Casa Branca de inverno"

Mark Landler

Em Palm Beach (Flórida)

  • Stephen Crowley/The New York Times

    Vista geral de Mar-a-Lago, em Palm Beach, Flórida

    Vista geral de Mar-a-Lago, em Palm Beach, Flórida

A notícia saiu assim que os fogos de artifício começaram a estourar sobre o bem-cuidado gramado da propriedade, um pano de fundo festivo para os convidados que bebericavam champanhe em torno de uma piscina ornamental: a Casa Branca havia recorrido da decisão que suspendia o decreto de Donald Trump sobre a imigração.

Em aeroportos do mundo inteiro, o cabo de guerra jurídico se dava em termos claramente humanos, com viajantes de sete países predominantemente muçulmanos tendo que decidir se embarcavam em voos para os Estados Unidos, sem saber se seriam enviados de volta uma vez que aterrissassem.

No entanto, nos privilegiados limites de Mar-a-Lago, essas preocupações pareciam estar a quilômetros de distância. Os convidados haviam se reunido para ao 60º baile anual da Cruz Vermelha, uma parte importante da agenda social de Palm Beach, que este ano tinha como tema "De Viena para Versalhes".

Seguindo o tema Habsburgo e Bourbon, os funcionários homens usavam perucas empoadas e culotes; as mulheres estavam trajadas em vestidos rodados e perucas altas e loiras no estilo de Maria Antonieta, a rainha guilhotinada na Revolução Francesa.

A desconexão entre a alta sociedade e as massas teria sido completa não fosse pelo fato de que um proprietário de Mar-a-Lago— --o convidado de honra daquela noite, embora ele tivesse que esperar na fila junto com sua mulher para entrar em seu próprio salão de baile-- era a pessoa que havia assinado o decreto sobre a imigração e entrado na Justiça para preservá-lo: Trump.

"Vamos vencer", disse o presidente a um repórter escalado para cobrir a entrada dos convidados, que lhe perguntou se ele tinha confiança no recurso do governo. "Pela segurança do país, vamos vencer".

Stephen Crowley/The New York Times
O presidente Donald Trump e a primeira-dama Melania Trump são recebidos no Trump International Golf Club

Quando outro repórter perguntou se ele acataria a decisão do tribunal federal, Trump deu um sorriso sem graça mas não respondeu, remexendo-se nervosamente enquanto a primeira-dama, Melania Trump, resplandecente em um vestido de festa cor-de-rosa e brincos de diamantes e esmeraldas, mantinha um olhar sereno.

Esta é Mar-a-Lago no primeiro mês da presidência Trump, ainda fazendo a transição de um clube exclusivo para membros bronzeados e plastificados da Gold Coast da Flórida fugindo do inverno para a "Casa Branca de Inverno" que a herdeira do império dos cereais, Marjorie Merriweather Post, sempre sonhou que seria depois que ela construiu o castelo de 126 quartos nos anos 1920.

Assim como sua residência, Donald Trump ainda está em transição, pego entre as demandas de ser presidente (uma conversa telefônica às 17h com o presidente Petro O. Poroshenko da Ucrânia) e os rituais reconfortantes de sua vida antiga (uma partida de golfe em seu clube na vizinha West Palm Beach).

Em seu primeiro fim de semana em Mar-a-Lago desde que tomou posse, o baile da Cruz Vermelha caiu na categoria "confortável".

Ele foi o anfitrião desse evento beneficente várias vezes nos últimos 20 anos, disse Dick Robinson, um amigo e filantropista de Palm Beach, que parou para conversar com a equipe de imprensa da Casa Branca, que aparece juntamente com repórteres de jornais locais para cobrir eventos como esse.

Foi surpreendente ver Trump na fila junto com seus convidados, considerando que presidentes normalmente entram em um recinto só depois que todos já estão sentados, e muitas vezes ao som de "Hail to the Chief".

Com o paletó de seu smoking desabotoado, segurando a mão de sua mulher, ele mais parecia aquela figura excessivamente efusiva que passou anos cumprimentando convidados em seu clube.

No entanto, havia vários outros sinais de como a vida de Trump havia mudado, desde o posto de segurança montado no estacionamento ao lado e o barco da polícia ancorado no Canal Intracostal até os agentes do serviço secreto que observavam a multidão, enquanto ele e Melania Trump dançavam ao som de uma banda que tocava "Old Time Rock 'n' Roll" de Bob Seger.

O final de semana de Donald Trump tinha também aquele clima de trabalho levado para casa que a maioria dos lugares de refúgio presidenciais tem.

Além da conversa por telefone com Poroshenko, ele falou com o primeiro-ministro Paolo Gentiloni da Itália, o primeiro-ministro Bill English da Nova Zelândia e o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg --uma conversa que não deve ter sido agradável, considerando as afirmações feitas anteriormente por Trump de que a aliança era uma relíquia da Guerra Fria.

Em seu resumo feito em duas frases do telefonema com a Ucrânia, a Casa Branca descreveu a conversa com Poroshenko como "muito boa" e citou uma suposta fala de Trump: "Vamos trabalhar junto com a Ucrânia, a Rússia e outras partes para ajudá-los a restaurarem a paz junto à fronteira" --uma afirmação que não levava em conta o fato de que a Rússia havia anexado ilegalmente a Crimeia.

Trump trouxe seu chefe de gabinete, Reince Priebus, e seu estrategista-chefe, Stephen Bannon, que sugeriu que ele estaria sendo informado regularmente sobre a batalha jurídica a respeito de seu decreto sobre a imigração. Tanto Priebus quanto Bannon ficaram hospedados em Mar-a-Lago, que tem quartos de hóspedes.

Mesmo quando Trump estava fora do horário de trabalho, ele parecia preocupado com o mundo lá fora.

Na manhã de sábado, ele começou uma diatribe pelo Twitter contra o juiz de Seattle que suspendeu o decreto sobre a imigração.

Stephen Crowley/The New York Times
Convidados chegam para baile de gala em Mar-a-Lago, em Palm Beach

Embora ele tivesse permanecido calado durante as quarto horas e meia em que esteve no Clube de Golfe Internacional Trump --a Casa Branca se negou a confirmar se ele de fato jogou golfe ou a dizer quem eram seus companheiros-- os posts no Twitter voltaram quando ele voltou para a casa.

Mesmo enquanto seus convidados socializavam durante um coquetel, Trump escrevia no Twitter: "O juiz abre nosso país para terroristas em potencial e outros que não querem o melhor para nós. Os malvados estão muito felizes!"

Quando Trump comprou Mar-a-Lago a um preço de banana em 1985, ele foi visto por muitos nesse arrogante enclave como um novo rico que desvalorizaria o histórico da propriedade.

Isso é passado, especialmente agora que ele tem o poder de tornar seus amigos embaixadores de capitais europeias.

Mas Trump ainda atrai sua dose de vaias --algumas menos sutis do que outras.

Do outro lado da rua, em frente ao seu clube de golfe, a Biblioteca do Condado de Palm Beach tinha uma placa na porta anunciando uma noite com Amy Sherman, repórter do "The Miami Herald" e do PolitiFact Florida, para discutir sobre como expor figuras políticas insidiosas. "Perna Curta: Como Verificar Fatos sobre Políticos", dizia a placa.

No sábado, cerca de 3 mil manifestantes marcharam pela Flagler Drive, carregando cartazes e gritando: "Hey-hey, ho-ho, Donald Trump has got go go" ("Donald Trump precisa cair fora")

Cerca de 300 deles conseguiram atravessar a ponte até Palm Beach, de acordo com o "The Palm Beach Post", onde eles avançaram por 20 metros para dentro de Mar-a-Lago antes de se depararem com um veículo blindado de segurança.

Às 20h, quando os fogos de artifício estouraram sobre a propriedade, eles lançaram uma luz sobre a multidão, segundo testemunhas, dando-lhes uma visão melhor do espetáculo do que a que os convidados tiveram dentro da Casa Branca de inverno de Trump.

Tradutor: UOL

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