Famílias divididas por decreto de Trump vivem período de incertezas

Somini Sengupta*

  • Nathaniel Brooks/The New York Times

    Sana Mustafa, uma refugiada síria, em sua casa em Red Hook, Nova York, EUA

    Sana Mustafa, uma refugiada síria, em sua casa em Red Hook, Nova York, EUA

Sana Mustafa se considera "a privilegiada" da família.

Uma refugiada síria de 25 anos que conseguiu chegar aos EUA, ela tem diploma universitário e um apartamento em um vilarejo tranquilo, coberto de neve, no vale do rio Hudson, em Nova York. Ela se manifesta livremente e sem medo sobre os direitos dos refugiados como ela.

"Mas eu me sinto muito culpada", disse. "Minha vida está avançando, enquanto a delas ficou em suspensão."

Ela se refere a sua mãe e sua irmã mais moça, Ghena. Elas vivem como refugiadas em uma cidade na fronteira na Turquia, temerosas de falar demais. O pai de Mustafa foi apanhado pelas autoridades sírias há quase quatro anos e desde então não se soube dele. Sua irmã mais velha, Wafa, fugiu para a Alemanha.

A ordem executiva do presidente Donald Trump que congelou o assentamento de refugiados também congelou as esperanças de sua família de viverem juntos nos EUA. As contestações jurídicas à ordem trazem pouca clareza.

Cerca de 2.000 refugiados deverão chegar aos EUA em um período de dez dias que começou na segunda-feira (6). Mas outros milhares esperam na fila no exterior para reunir-se a parentes que já estão no país, como Sana Mustafa. Essas famílias continuam em estado de incerteza, e as pessoas que conseguiram sair dizem ter um terrível sentimento de culpa.

Em Knoxville, no Tennessee, uma mulher iraquiana que chegou há cinco meses não tem explicação para dar a suas filhas gêmeas de 18 anos, que ficaram em seu país. Elas choram toda vez que a mãe telefona.

Em Clarkstone, na Geórgia, uma mãe somali teme por sua filha de 20 anos, que deveria vir em 6 de fevereiro, mas continua em um campo de refugiados no Quênia. A família tinha fugido da Somália depois que atiradores invadiram sua casa e estupraram e mataram outra filha. Essa lembrança só piora as coisas.

"Não consigo dormir ou comer", disse a mãe, Habibo Abdikadir Mohamed, 38, por meio de um intérprete na semana passada. "Não tenho certeza se ela está em segurança. Já perdi uma filha, tenho medo de perder outra."

Exatamente quantas famílias estão divididas como essa não se sabe. Um advogado do governo americano disse na sexta-feira (03) que 100 mil vistos foram revogados, enquanto o Departamento de Estado disse que o número era mais próximo de 60 mil.

As regras mudam tão depressa que é impossível prever o destino de parentes que ficaram para trás.

Em 27 de janeiro, Trump assinou a ordem que suspendeu o reassentamento de refugiados de qualquer país durante quatro meses, acrescentando que os sírios que buscam asilo seriam barrados indefinidamente. Os sírios e cidadãos de outros seis países de maioria muçulmana, entre eles Iraque e Somália, não poderiam visitar mesmo que tivessem vistos válidos. Então juízes federais suspenderam a proibição, pelo menos temporariamente. O Departamento de Estado disse que permitiria que refugiados que foram aprovados entrassem nos EUA até 17 de fevereiro.

Havia quase 20 mil pessoas nessa categoria --checadas e filtradas por diversos órgãos do governo--, segundo a Organização Internacional para Migrações, uma agência da ONU que organiza viagens para refugiados. Ela estava trabalhando para colocar 10% deles em aviões com destino aos EUA nos próximos dez dias.

Isso não trouxe muito alívio para Meathaq Alaunaibi, do Iraque. Seu marido trabalhou durante dez anos como tradutor para a Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA em Bagdá. Sua casa foi bombardeada em 2006, um ataque que, segundo ela, foi feito por militantes por causa do trabalho do marido para as autoridades americanas. A mão dele foi queimada em um ataque de carro-bomba em 2014.

Mas demorou quatro anos para que seu pedido de visto fosse aprovado, e no último verão o casal, sua filha de 15 anos e o filho de 5 chegaram a Knoxville. Mas havia outro problema. Como o processo demorou tanto, as filhas gêmeas, Aisha e Fatima, tinham completado 18 anos e souberam que teriam de ser verificadas de novo. Uma estuda medicina em Bagdá, e a outra está na faculdade de odontologia em Kirkuk. Alaunaibi telefona para elas todos os dias, mesmo que só para lhes dizer que esperem.

"Elas só choram. 'Por que isso aconteceu conosco? Nós amamos os EUA. Queremos viver nos EUA'", disse Alaunaibi, 45, sobre a reação delas. "Você sabe, elas são jovens e ambiciosas, são inteligentes e responsáveis. Então isso é um choque para elas."

Mohamed, a mãe somali em Clarkston, esperava ansiosamente para saber se sua filha mais velha estaria entre os autorizados a viajar. A família de Mohamed chegou à Geórgia em 18 de janeiro, depois de dez anos em um campo de refugiados no Quênia. Ela havia fugido da Somália depois que homens armados invadiram sua casa e estupraram uma de suas filhas na frente dela. A irmã e o cunhado de Mohamed também foram mortos, então ela ficou com os dois filhos da irmã, além de seus sete.

A última da família, Batulo Abdalla Ramadhan, 20, deveria partir do Quênia na segunda-feira, mas então veio a proibição no mês passado. Sua viagem foi cancelada, como avisou a seus pais por telefone. Eles ouviram a tristeza em sua voz.

"Ela está sempre nos perguntando: 'O que eu faço?'", disse o marido de Mohamed, Abdalla Ramadhan Munye. "Ela está magoada porque a deixamos para trás. A única coisa que podemos fazer é escutá-la e sentir sua tristeza."

Munye disse que queria entregar uma mensagem à primeira-dama, Melania Trump.

"Como mãe", disse, "ela sabe como seria difícil ser separada de um filho."

Sana Mustafa, da Síria, disse que seus pais a incentivaram e à sua irmã a sair do país assim que pudessem, depois que começou a guerra civil no país.

Mustafa recebeu uma bolsa de seis semanas financiada pelo Departamento de Estado para visitar Washington no verão de 2013. "Eu me inscrevi por curiosidade, online, no meio da guerra", disse ela. "Meu pai disse: 'Vá'."

Foi uma das últimas conversas que teve com ele. Um empresário conhecido por sua oposição ao governo do presidente Bashar al Assad, seu pai foi preso em julho de 2013, enquanto Mustafa estava em Washington.

Seus planos mudaram imediatamente. Não havia condições de voltar à Síria. Ela dormia no sofá de desconhecidos que a abrigavam. Pediu asilo político nos EUA, e rapidamente o conseguiu.

Para pagar as contas, ela trabalhou como recepcionista em um restaurante, depois como babá de crianças, dormindo no emprego. Por meio de amigos de amigos, conseguiu uma bolsa de estudos integral no Bard College, no interior de Nova York, e se formou no ano passado.

Sua mãe, Lamia Zreik, não teve tanta sorte. Fugiu com suas duas outras filhas, Wafa e Ghena, depois que seu marido foi detido em 2013. Elas foram para Gaziantep, na Turquia --a cidade de fronteira que abriga centenas de milhares de sírios-- e em 2014, esperando reunir-se a Sana, pediu o assentamento nos EUA.

Elas foram entrevistadas quatro vezes --por autoridades da ONU, depois americanas. Passou um ano, mais um. Quando Wafa, que sustentava a família, teve uma oportunidade de ir para a Alemanha, Zreik lhe disse que não podia perdê-la.

"Tínhamos duas opções --ou ela fica ou eu trabalho", disse Zreik por telefone de Gaziantep, onde ela trabalha com crianças sírias órfãs de guerra. "E a primeira não era realmente uma opção."

No início de janeiro, chegaram as primeiras más notícias: um e-mail informou a Zreik que ela e sua filha teriam de passar por mais verificações de segurança.

Mustafa estava visitando Gaziantep nessa época. "Três anos não foram suficientes para verificar?", disse ela. "Eu fiquei arrasada. Na verdade, fiquei furiosa."

Durante algum tempo, nenhuma delas contou a Ghena, 16, a má notícia. Então veio a ordem executiva de Trump.

Mustafa disse que Ghena foi a que mais sofreu. "Ela ficou muito triste", disse. "Ela disse: 'Não vamos a lugar nenhum. Ninguém quer ficar com a gente'."

*Maher Samaan colaborou na reportagem, de Paris.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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