Caso de submarino assombra Netanyahu em momento crítico

Isabel Kershner

Em Jerusalém

  • Baz Ratner/Reuters

    O premiê israelense, Benjamin Netanyahu, sai de dentro do submarino Rahav no porto de Haifa

    O premiê israelense, Benjamin Netanyahu, sai de dentro do submarino Rahav no porto de Haifa

Em meio a um turbilhão de inquéritos policiais e investigações éticas envolvendo o premiê Benjamin Netanyahu de Israel e seu círculo íntimo, um escândalo a respeito de contratos para novos submarinos e outros navios de guerra parece estar ganhando força como mais uma ameaça em potencial a seu futuro político.

Há semanas a polícia vem conduzindo uma investigação sobre as circunstâncias relativas a contratos israelenses com uma fabricante naval alemã para a compra de submarinos e novos navios lança-mísseis, defendida por Netanyahu.

Seu advogado pessoal, David Shimron, também representa o agente israelense para a empresa, o que levou a acusações de conflito de interesses em contratos que envolvem bilhões de dólares em negócios e o formato da estratégia de defesa de Israel.

Moshe Yaalon, que Netanyahu destituiu do cargo de ministro da Defesa no ano passado e era contra a compra de novos submarinos, supostamente prestou depoimento recentemente.

O Supremo Tribunal de Israel, aumentando a gravidade do caso, concordou em aceitar uma petição que solicita que o caso dos navios seja submetido a uma investigação criminal completa.

Na última quarta-feira, Netanyahu submeteu uma resposta de 45 páginas ao tribunal antes de uma audiência marcada para o dia 8 de março. Nela ele argumentou, através de outro advogado, que a petição deveria ser desconsiderada com base no fato de que ela foi iniciada por políticos "ávidos por publicidade" com segundas intenções que basearam suas alegações em questionáveis relatos da imprensa e estariam tentando usurpar a autoridade do procurador-geral.

Ainda que Netanyahu, enfraquecido, tenha feito concessão atrás de concessão a políticos de extrema-direita na questão dos assentamentos na Cisjordânia nas últimas semanas, para segurar seu eleitorado conservador, algumas pessoas dentro de sua coalizão veem o acúmulo de casos envolvendo o primeiro-ministro e seus associados próximos como uma desvantagem política.

Um indiciamento criminal contra ele em qualquer um deles provavelmente o obrigaria a renunciar e provocar eleições antecipadas.

Netanyahu, o líder do conservador Partido Likud, que está em seu terceiro mandato, negou veementemente ter cometido algum crime em qualquer um desses casos e acusou a mídia e adversários políticos de estarem armando uma conspiração para derrubar seu governo.

O chamado caso dos submarinos veio à tona pela primeira vez há mais de dois meses, mas logo foi ofuscado por duas investigações mais conspícuas de corrupção. Uma delas envolvia acusações de presentes impróprios de charutos e champanhe rosé para a família de Netanyahu oferecidos por um produtor de Hollywood.

A outra gira em torno de conversas gravadas nas quais Netanyahu e um magnata da imprensa israelense, que por muito tempo lhe foi hostil, negociavam um acordo que beneficiaria o jornal em troca de uma cobertura mais positiva para o primeiro-ministro. Ele nunca se concretizou.

Inicialmente, o Canal 10 de Israel noticiou uma possível ligação entre a construtora naval alemã ThyssenKrupp Marine Systems e Netanyahu, através de seu advogado pessoal Shimron.

Logo vieram mais relatos de circunstâncias aparentemente estranhas em torno das aquisições de outros navios de guerra por parte de Israel. Houve o repentino cancelamento em 2014 de uma licitação internacional para a construção de quatro corvetas lança-mísseis que favorecia mesmo estaleiro alemão.

Os navios seriam para proteger plataformas de gás israelenses no Mediterrâneo de ameaças, principalmente do Hezbollah, a organização militante libanesa.

Para complicar a história, a empresa terceirizada contratada pela ThyssenKrupp Marine Systems para construir os quatro navios lança-mísseis para Israel é controlada pela Privinvest, uma holding registrada em Beirute, no Líbano, que tecnicamente é um Estado inimigo de Israel.

A terceirizada, German Naval Yards Kiel, está listada no site da Privinvest como membro de seu maior grupo internacional de construção de navios, que tem presença em 40 países.

Netanyahu e Shimron, que também é filho de uma prima do pai do primeiro-ministro, negaram qualquer impropriedade ou conluio nos contratos dos navios.

Não está claro se Netanyahu é suspeito de qualquer má conduta pessoal no caso. Mas críticos dizem que os contratos foram feitos em seu mandato, e que se ele não sabia sobre o envolvimento de seu advogado, deveria saber.

Uma questão central é se Netanyahu empenhou-se em cancelar a licitação para os navios lança-mísseis.

Questionado sobre esse assunto em janeiro, seu gabinete respondeu: "A decisão do primeiro-ministro Netanyahu sobre essa questão se baseou unicamente na segurança de Israel e foi recomendada por especialistas em defesa de Israel. Ela também foi completamente consistente com a lei".

Dias depois, o gabinete emitiu uma declaração que parecia distanciar Netanyahu do cancelamento. O gabinete descreveu o processo de decisão em uma detalhada linha do tempo e atribuiu a decisão ao Ministério das Relações Exteriores, ao Ministério da Defesa e à Marinha depois de o governo alemão ter oferecido um desconto de 27,5%.

Shimron confirmou que ele representa Michael Ganor, o agente israelense da ThyssenKrupp Marine Systems, e que representou Ganor "em determinados aspectos de um acordo" relacionado à consultoria de Ganor para a empresa alemã.

Negando-se a fornecer detalhes de seu papel em acordos específicos, Shimron acrescentou: "Nossa relação é governada por uma relação entre cliente e advogado. Portanto, toda informação a respeito de minha relação com o Sr. Ganor é protegida por lei".

Shimron disse que como advogado de Ganor ele "não tinha por que investigar o contrato de terceirização" para as corvetas, e tanto ele quanto o gabinete do primeiro-ministro disseram que perguntas a respeito de qualquer conexão libanesa com o contrato deveriam ser dirigidas para o Ministério da Defesa israelense.

O Ministério da Defesa se negou a comentar. Mas em uma declaração ao jornal "Yedioth Ahronoth" em dezembro, ele dizia que o contrato havia sido assinado "com uma empresa alemã, com o envolvimento direto do governo alemão, que inclusive financia um terço do acordo".

O ministério acrescentou: "Antes da assinatura do contrato, o diretor de segurança do ministério da defesa verificou com oficiais de governo alemães para garantir que nenhuma informação sigilosa do projeto seria passada a partes não autorizadas. É importante salientar que o estaleiro alemão só constrói o casco dos navios de guerra, e o resto dos sistemas é instalado em Israel".

A German Naval Shipyards Kiel disse que estava contribuindo na engenharia e na construção dos navios de guerra, e que estava em contato com o lado israelense somente através da ThyssenKrupp.

A Privinvest se negou a comentar.

A petição que agora está sendo examinada pelo Supremo Tribunal foi submetida por Erel Margalit, um membro da oposição da Knesset, o parlamento israelense, que está concorrendo à liderança do Partido Trabalhista de centro-esquerda, e por Eldad Yaniv, um político de inclinação à esquerda e ativista social.

Até o momento, cerca de 26 mil cidadãos israelenses assinaram a petição online em um site fundado por Margalit e Yaniv chamado bbwanted.co.il ("Bibi Procurado").

Tradutor: UOL

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