Ela compareceu todos os anos à agência de imigração, que agora a deportou

Fernanda Santos

Em Phoenix

  • Rob Schumacher/The Arizona Republic via AP

    Guadalupe García de Rayos é detida em van da agência federal de imigração, em Phoenix (Arizona)

    Guadalupe García de Rayos é detida em van da agência federal de imigração, em Phoenix (Arizona)

Durante oito anos, Guadalupe García de Rayos compareceu à agência federal da imigração (Immigration and Customs Enforcement, ICE), uma exigência desde que ela foi pega usando um número falso de Seguridade Social durante uma batida policial em 2008, em um parque aquático onde ela costumava trabalhar.

Desde então, todos os anos ela tem entrado e saído das reuniões após uma breve revisão de seu caso e algumas perguntas.

Mas não neste ano.

Na última quarta-feira, agentes de imigração prenderam Rayos, 35. Apesar dos esforços de seus familiares e outras pessoas que tentaram impedir -- legal e até mesmo fisicamente -- sua remoção dos EUA, sua família disse que ela foi deportada para o México na quinta-feira (9), país que ela não via havia 21 anos. 

Agentes de imigração "disseram que ela é uma ameaçã, mas minha mulher não é uma ameaça", disse seu marido numa entrevista.

Rayos foi presa poucos dias depois de a administração Trump ter ampliado a definição de "estrangeiro criminoso", uma definição que poderia facilmente ser aplicada à maioria dos imigrantes irregulares nos Estados Unidos, segundo defensores dos direitos dos imigrantes.

"Estamos vivendo em uma nova era agora, uma era de guerra contra os imigrantes", disse Ray A. Ybarra Maldonado, advogado de Ray, na quarta-feira depois de sair do prédio que abriga a agência federal de imigração, conhecida por seu acrônimo ICE.

A administração Obama tornou prioridade deportar pessoas que fossem consideradas uma ameaça à segurança, tivessem ligações com gangues criminosas ou tivessem cometido crimes graves ou uma série de contravenções.

Rayos não se enquadrava em nenhum desses critérios, e é por isso que lhe foi permitido permanecer nos Estados Unidos mesmo depois que um juiz emitiu um mandado de deportação contra ela em 2013.

Tudo isso mudou com o presidente Donald Trump. Entre as 18 ordens executivas que ele emitiu desde que tomou posse no dia 20 de janeiro, está uma que estipula que imigrantes ilegais condenados por qualquer crime —e mesmo aqueles que não foram acusados, mas sob suspeita de terem cometido "atos que constituem um crime indiciável"— se tornem prioritários para a deportação.

Rob Schumacher/The Arizona Republic via AP
Manifestante se prende a van que leva Guadalupe García de Rayos, em Phoenix (Arizona)

Yasmeen Pitts O'Keefe, uma porta-voz da ICE, disse em um comunicado que Rayos "está atualmente sendo detida pela agência federal de imigração com base na ordem de remoção emitida pelo Escritório Executivo para Revisão de Imigração do Departamento de Justiça".

Maldonado, advogado de Rayos, submeteu um pedido para um adiamento da deportação depois que ela foi detida, mas o comunicado da ICE não o mencionou nem discutiu o cronograma de sua deportação.

Advogados de dois dos principais grupos de direitos civis do país disseram que Rayos é possivelmente a primeira imigrante ilegal a ser presa durante uma reunião marcada com oficiais da imigração desde que Trump tomou posse.

Milhares de outros estão correndo um risco parecido quando eles comparecem a suas verificações regulares de imigração em grande parte porque agentes federais agora têm liberdade de decidir quem é e quem não é uma ameaça à segurança pública, segundo esses advogados.

"Esse é exatamente o problema alarmante que há na ordem de Trump", disse Cecilia Wang, vice-diretora jurídica da American Civil Liberties Union, em uma entrevista na quarta-feira. Segundo ela, Trump "liberou os agentes e permitiu que eles fossem atrás de imigrantes independentemente de seus laços e contribuições para os Estados Unidos".

Rayos tinha 14 anos quando ela saiu de Acambaro, uma cidade de uma parte pobre do Estado mexicano de Guanajuato, e atravessou escondida a fronteira para dentro de Nogales, no Arizona, uma viagem de três horas de estrada a partir de Phoenix. Ela se casou —seu marido também está nos Estados Unidos ilegalmente— e deu à luz um menino e uma menina, hoje adolescentes.

Antes de aparecer para sua reunião com os oficiais da imigração na manhã de quarta-feira, Rayos e sua família foram à missa. Mais tarde, enquanto ela passava pelo portão do prédio da ICE, ela parou por um momento, juntou as mãos e abaixou a cabeça, como se estivesse fazendo uma oração em silêncio.

"O único crime que minha mãe cometeu foi ir trabalhar para dar uma vida melhor aos seus filhos", disse sua filha Jacqueline, com Rayos ao seu lado antes de entrar no prédio da ICE com seu advogado.

Rayos estava trabalhando na Golfland Sunsplash em Mesa, um subúrbio de Phoenix, quando assistentes do xerife do Condado de Maricopa fizeram uma batida em 16 de dezembro de 2008, prendendo-a e vários outros funcionários por suspeita de roubo de identidade e uso de documentos falsificados para obtenção de emprego.

A incursão foi uma das primeiras ordenadas por Joe Arpaio, que era xerife na época, sob uma lei do Arizona que autorizava sanções contra empregadores que contratassem imigrantes irregulares conscientemente.

Ela passou três meses em uma prisão do condado, seguidos por mais três meses na detenção da imigração, como contou a um repórter. Em 2013, um tribunal de imigração ordenou que ela fosse enviada de volta ao México, mas seu caso se encontra em suspenso desde que as autoridades federais— durante a administração Obama— decidiram não executar a ordem de deportação.

Seu filho, Angel, ainda se lembra da noite em que ela foi presa; da batida na porta, da luz da lanterna no escuro da sala, da visão das algemas nos pulsos de sua mãe.

"Eu estava no segundo ano", ele disse. "Eu nunca me esqueci daquela noite e vivo com medo de perder minha mãe toda noite desde então".

Rayos também estava com medo de ir à sua reunião na quarta-feira. Carlos Garcia, diretor-executivo do Puente, um grupo de direitos dos imigrantes, disse que ela poderia faltar e ir se esconder ou buscar refúgio em uma igreja no norte de Phoenix, juntando-se a dois outros imigrantes ilegais sujeitos à deportação que viveram ali por meses.

Ela decidiu arriscar, uma aposta que era também uma afirmação.

O motivo pelo qual ela foi presa não foi o fato de ela ter entrado ilegalmente nos Estados Unidos, que é uma infração não criminal. Foi por ter sido condenada pelo crime grave de uso de número falso de Seguridade Social, um subterfúgio comum usado por imigrantes ilegais que procuram trabalho nos Estados Unidos.

"Tenho fé em Deus", disse Rayos, segurando-se para não chorar.

Ela caminhou na direção do portão do prédio, seguida por Garcia e um pequeno exército de voluntários do Puente, o mesmo grupo de organizou inúmeros protestos contra Arpaio no auge de sua perseguição aos imigrantes ilegais.

Os voluntários gritavam: "No estás sola," ou "você não está sozinha" em espanhol.

Tradutor: UOL

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