Assessor sênior de Trump leva a batalha para outro centro influente: o Vaticano

Jason Horowitz

Em Roma (Itália)

  • Hilary Swift/The New York Times

     O católico Steve Bannon, assessor sênior de Donald Trump, no dia da posse presidencial, em Washington

    O católico Steve Bannon, assessor sênior de Donald Trump, no dia da posse presidencial, em Washington

Quando Steve Bannon ainda chefiava o "Breitbart News", ele foi ao Vaticano para a cobertura da canonização de João Paulo 2º e fazer alguns amigos. No alto de sua lista de pessoas a conhecer estava um cardeal americano ultraconservador, Raymond Burke, que já entrou abertamente em atrito com o papa Francisco.

Em uma das antecâmaras do cardeal, em meio a estátuas religiosas e paredes cobertas de livros, Burke e Bannon, que agora é a eminência anti-establishment do presidente Donald Trump, formaram um laço devido a uma visão de mundo compartilhada.

Eles viam a ameaça do islã tomar um Ocidente prostrado, enfraquecido pela erosão dos valores cristãos tradicionais, e viam a si mesmos como injustamente excluídos por elites políticas fora de contato com a realidade.

"Quando você reconhece alguém que se sacrificou para se manter fiel a seus princípios e que está travando as mesmas batalhas na arena cultural, em uma seção diferente do campo de batalha, não causa surpresa que desenvolva uma afinidade", disse Benjamin Harnwell, um confidente de Burke, que arranjou o encontro em 2014.

Apesar de Trump, um presidente duas vezes divorciado que se gaba de assediar mulheres, poder parecer um aliado improvável dos tradicionalistas no Vaticano, muitos deles consideram sua eleição e a ascendência de Bannon como avanços com potencial de mudar o jogo.

Assim como Bannon tem ligações com os partidos de extrema-direita que ameaçam derrubar governos por toda a Europa Ocidental, ele também tem uma causa comum com elementos da Igreja Católica Romana, que são contrários à direção em que o papa Francisco a está conduzindo. Muitos compartilham a suspeita de Bannon de que Francisco é um Sumo Pontífice perigosamente equivocado, provavelmente um socialista.

Até agora, Francisco tem marginalizado ou rebaixado os tradicionalistas, notadamente Burke, promovendo uma agenda inclusiva sobre imigração, mudança climática e pobreza, algo que torna o papa uma figura de popularidade global incomparável, especialmente entre os liberais.

Mas em um mundo agora turbulento, Francisco de repente está mais solitário. Enquanto antes Francisco tinha em Barack Obama um poderoso aliado na Casa Branca, agora há Trump e Bannon, o guru ideológico do novo presidente.

Para muitos dos oponentes ideológicos do papa no Vaticano e arredores, que temem um sumo pontífice que consideram com uma aparência amistosa, mas que por dentro se mostra um empunhador impiedoso do poder político absoluto, este momento de fúria na história é uma oportunidade de descarrilar o que consideram uma agenda papal desastrosa. E em Trump, e mais diretamente em Bannon, alguns autodescritos tradicionalistas radicais veem um líder alternativo que se erguerá em defesa dos valores cristãos tradicionais e contra os intrusos muçulmanos.

"Há áreas imensas onde nós e o papa entramos em atrito, e como um católico leal, não quero passar minha vida combatendo o papa em questões nas quais eu não mudarei a forma como ele pensa", disse Harnwell durante um almoço, no qual o prato era canelone. "É muito mais valioso para mim passar o tempo trabalhando de forma construtiva com Steve Bannon."

Ele deixou claro que estava falando por si próprio, não em nome do Instituto pela Dignidade Humana, um grupo católico conservador que ele fundou, e insistiu que compartilha a meta do papa de assegurar a paz e acabar com a pobreza, apenas não as ideias dele sobre como conseguir isso.

Bannon articulou publicamente sua visão de mundo em comentários feitos poucos meses após seu encontro com Burke, em uma conferência no Vaticano organizada pelo instituto de Harnwell.

Falando por um link de vídeo de Los Angeles, Bannon, um católico, investiu contra a secularização desenfreada, a ameaça existencial representada pelo islã, e um capitalismo que se afastou das fundações morais do cristianismo.

Essa palestra atraiu muita atenção e aprovação pelos conservadores, por sua expressão explícita da visão de Bannon. Mesmos conhecidos são seus esforços para cultivar alianças estratégicas com pessoas em Roma que compartilham sua interpretação de uma teologia de "igreja militante" de direita.

Beatrice Larco/AP Photo
Recentemente, dezenas de cartazes com críticas ao Papa Francisco foram espalhados nas ruas de Roma

Os discursos e rosto de Bannon, assim como seu endosso a Harnwell como sendo o "sujeito mais inteligente em Roma", estão presentes em destaque no site da fundação de Harnwell. O alto conselheiro de Trump tem mantido contato por e-mail com Burke, segundo Harnwell, que foi à residência do cardeal depois do almoço. E outra pessoa com conhecimento de Bannon disse que o funcionário da Casa Branca está telefonando pessoalmente para seus contatos em Roma em busca de sugestões sobre quem deveria ser o embaixador do governo Trump na Santa Sé.

Durante a viagem de abril de 2014 de Bannon, ele cortejou Edward Pentin, um importante repórter conservador no Vaticano, como potencial correspondente em Roma do "Breitbart", um site popular junto à direita alternativa, um movimento de extrema direita que atrai os supremacistas brancos.

"Ele realmente parece entender as batalhas que a igreja precisa travar", disse Pentin, autor de " The Rigging of a Vatican Synod?" (A Manipulação de um Sínodo do Vaticano?, em tradução livre, não lançado no Brasil), um livro que afirma que Francisco e seus apoiadores passaram por cima de seus oponentes. A principal dessas batalhas, disse Pentin, é o foco de Bannon em reagir ao "marxismo cultural" que se infiltrou na igreja.

Desde aquela visita e a reunião com Burke (uma experiência que Daniel Fluette, chefe de produção do "Breitbart", descreveu como "incrivelmente poderosa" para Bannon), o estrategista ideológico de Trump tem mantido o foco em Roma.

Bannon retornou e dirigiu o documentário "Torchbearer" (Portador da tocha, em tradução livre), no qual o astro da série "Duck Dinasty" (Os Reis dos Patos) contempla as consequências apocalípticas do colapso do cristianismo. Bannon também se reuniu com velhos amigos, incluindo o posterior correspondente em Roma do "Breitbart", Thomas Williams.

Um ex-padre, Williams disse que costumava discutir com Bannon sobre se o papa apoiava um estilo de teologia da libertação radical de esquerda, com Bannon chamando o papa de "socialista/comunista". Williams disse que costumava defender o papa, mas que recentes declarações por Francisco o convenceram de que "Steve estava certo. Isso acontece com frequência".

Os pensamentos privados de Bannon sobre o papa às vezes vêm à tona.

Em 23 de maio, Bannon e Williams falaram sobre Francisco no programa de rádio "Breitbart News Daily".

Discutindo um artigo do "Breitbart" sobre o novo prefeito de Londres, intitulado "Papa Saúda a Eleição de Sadiq Khan, Celebra a Imigração Muçulmana em Massa à Europa", Bannon sugeriu que o papa "parece quase impor a responsabilidade aos homens e mulheres trabalhadores da Itália e da Europa para que não meçam esforços para acomodar" os imigrantes.

Bannon pergunta se o papa não é um elitista global.

Muitos críticos de Francisco expressam posições semelhantes, mas com frequência temem expressá-las por temer retaliação do papa, que, segundo eles, têm olhos e ouvidos por todo o Vaticano.

Em vez disso, os críticos do papa espalharam anonimamente cartazes por Roma no fim de semana, exibindo uma imagem de um Francisco de aparência mal-humorada acompanhada das queixas sobre ele remover e ignorar clérigos e cardeais. "Onde está sua misericórdia?" perguntavam os cartazes.

Conservadores e tradicionalistas no Vaticano distribuem secretamente versões satíricas do jornal oficial do Vaticano, "L'Osservatore Romano", ridicularizando o papa. Ou disseminam um vídeo no YouTube criticando o papa e sua exortação ao amor na família.

"Amoris Laetitia", que muitos tradicionalistas consideram os disparos iniciais de Francisco contra a doutrina da igreja. Tendo como fundo a música "That's Amore", um cantor ofendido canta: "Quando nos livraremos desse tirano cruel, isso é Amoris" e "É o clima de medo construído por quatro anos, isso é Amoris".

Burke (que disse que a exortação do papa, que abriu a porta para católicos divorciados e que se casaram fora da igreja receberem a comunhão, pode exigir um "ato formal de correção") tem sido um crítico incomumente aberto de Francisco. Burke e Bannon se recusaram a comentar para este artigo.

Há poucas semanas, o papa destituiu Burke de sua influência institucional restante, após o estouro de um escândalo envolvendo os Cavaleiros de Malta, uma ordem de quase 1.000 anos para onde ele foi exilado como ligação com o Vaticano.

Francisco removeu o grão-mestre da ordem após ele demonstrar desobediência ao papa. Havia a sensação na ordem de que o grão-mestre seguia a Burke, porque ele projetava autoridade, um poder que parecia derivar em parte do apoio que recebia do governo Trump, disse um influente cavaleiro.

Burke se transformou em um campeão dos conservadores nos Estados Unidos. Sob Bannon, o "Breitbart News"  pedia a seu correspondente em Roma que escrevesse de forma simpática a respeito dele. E em uma reunião antes do comício Macha pela Vida antiaborto do mês passado, em Washington, Burke recebeu o prêmio Nail (Cravo), uma réplica emoldurada do cravo usado para prender os pés do Cristo na cruz.

Segundo John-Henry Westen, editor do "Life Site News", que anunciou o prêmio, ele é concedido aos cristãos "que foram apunhalados pelas costas".

Apesar das incursões de Bannon em Roma, Burke e outros tradicionalistas não estão em ascensão no Vaticano.

O reverendo Antonio Spadaro, um padre jesuíta que edita a revista "La Civilta Cattolica" aprovada pelo Vaticano e que é próximo ao papa, desdenhou as críticas deles como coisas de uma pequena, porém ruidosa, "câmara de eco".

Ele também minimizou o efeito da ascensão de Trump sobre a posição dos oponentes de Francisco no Vaticano, dizendo que se tratava apenas de "imagem" e "propaganda".

O papa manterá sua direção e não se deixará distrair pelas lutas contra aqueles que tentam miná-lo, disse Spadaro. "Ele segue em frente e o faz com rapidez."

Ele acrescentou que a proibição por Trump da entrada de imigrantes de certos países muçulmanos como "oposta" à visão do sumo pontífice sobre como promover a união e a paz. O papa, segundo Spadaro, está fazendo tudo ao seu alcance para evitar o choque de civilizações que os muçulmanos e cristãos fundamentalistas desejam.

De fato, o papa não parece estar desacelerando.

Dias após a eleição de Trump, na Basílica de São Pedro, o Vaticano promoveu oficialmente os novos cardeais escolhidos por Francisco, que refletem a ênfase do papa em uma Igreja inclusiva, muito distante da visão de mundo de Bannon e Burke.

"Não se trata dele estar apenas trazendo novas pessoas que talvez pensem como ele", disse o cardeal Blase Cupich, o influente novo cardeal de Chicago, após a cerimônia. "Ele está transformando a igreja ao nos fazer repensar a forma como fazíamos as coisas."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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