Cadeirante pede esmola durante o dia e tenta se tornar astro do rap na noite da Libéria

Clair MacDougall

Em Monróvia (Libéria)

  • Jim Tuttle/The New York Times

    Emmanuel Dongo passa seus dias pendido esmola na capital da Libéria. À noite, vira o cantor de rap Lyrical D, em busca do sonho de viver da música

    Emmanuel Dongo passa seus dias pendido esmola na capital da Libéria. À noite, vira o cantor de rap Lyrical D, em busca do sonho de viver da música

Emmanuel Dongo, que passa seus dias pedindo esmola nas ruas de Monróvia, entrou com suas muletas no palco de concreto e sob luzes de neon. Ele jogou seus musculosos ombros para a frente, com suas pernas flácidas para trás, e se transformou em Lyrical D, um cantor de rap em ascensão.

"Um deficiente tentando sobreviver, enquanto você fica sentado aí só criticando, o quê e quando você realmente vai fazer?", ele perguntou, disparando as letras para uma multidão encantada no Code 146, onde astros aspirantes do rap da Libéria em começo de carreira se apresentam. "Quer fechar a boca e dar as costas para você mesmo? Eu me sinto muito mal sentado nesta cadeira de rodas, só quero andar como você, cara. Eu passo e você tira sarro de mim, me dizendo que nem pareço um ser humano".

Dongo colocou suas muletas no chão, se inclinou para trás em sua cadeira de rodas e se lançou pelo palco, dançando freneticamente e disparando rimas furiosas sobre suas experiências de discriminação em uma sociedade que vê a deficiência muitas vezes através das lentes da superstição. Embora vítimas da guerra com deficiência circulem comumente pelas ruas da Libéria, eles são vistos muitas vezes como malditos, e suas amputações ou membros paralisados são interpretados como resultado de feitiçaria pelos cruéis e invejosos, ou senão como punição por alguma malfeitoria.

A música parece ser uma escolha improvável de carreira para um liberiano que enfrenta as muitas dificuldades de Dongo. Mas a proliferação de estúdios improvisados, engenheiros autodidatas e um som característico liberiano deram lugar a uma cena musical fervilhante em Monróvia, abrindo espaço para artistas emergentes como Dongo. Artistas aspirantes podem gravar músicas por até US$ 20 (R$ 62) se o engenheiro de som gostar deles, ou até de graça se tiverem um nome grande o suficiente.

Naquela noite, no Code 146, o DJ fez a base rítmica para a última faixa dançante de Lyrical D. No palco, Dongo voltou para sua cadeira de rodas e começou a girar, rodopiar e bater as rodas da cadeira no chão.

"Quero ouvir vocês, pessoal!", ele gritou. Os ouvintes na plateia respondiam, sacudindo o corpo e erguendo os braços.

O Code 146 é de propriedade de Jonathan Koffa, o rapper mais famoso de Monróvia. Conhecido como Takun J, Koffa é considerado por muitos como um pioneiro do HipCo, o estilo de rap da Libéria que usa o singular dialeto do país como sua base.

Seu clube fica escondido no final de um beco escuro. Suas paredes são verde-limão e cobertas com retratos de ícones musicais da cidade. As apresentações raramente começam antes das 23h, com música alta saindo dos alto-falantes até o amanhecer.

Na noite em que Dongo se apresentou, seu produtor, Alhaji Yaits, 22, que atende pelo nome de Young Master, acompanhava com a cabeça a batida que ele ajudara a produzir uma semana antes.

Yaits descobriu Dongo, 27, nas ruas de Monróvia há três anos e, entre um projeto pago e outro, tem o ajudado a produzir um álbum sem cobrar nada.

A cadeira de rodas de Dongo pode ser vista com frequência estacionada na base da escadaria que leva ao estúdio de Yaits. Do lado de dentro, as paredes são decoradas em cores alegres com os nomes de artistas com quem Yaits trabalhou e uma grande foto dele pilotando uma mesa de mixagem.

Yaits, assim como Dongo, se inspirou na música de Takun J e no HipCo, um som que nasceu em Monróvia após a guerra civil da Libéria, que terminou em 2003. O HipCo é cru, realista e profundamente anti-sistema em espírito. Ele ataca políticos e a elite da Libéria, que rappers de HipCo acusam de saquear a riqueza do país e de ignorar os pobres.

Dezenas de artistas como Dongo tentam uma oportunidade de se apresentar nas sessões semanais de microfone aberto do Code 146. No início de sua carreira, Dongo era ridicularizado quando se apresentava nas jams de rua que costumam brotar pela cidade, mas no Code 146 ele foi recebido de braços abertos.

Jim Tuttle/The New York Times
Dongo usa a maior parte do dinheiro que ganhar para sustentar o filho; a outra, para custear sua carreira
Nascido em uma zona rural fora da capital, Dongo veio ao mundo na véspera de um conflito que matou mais de 250 mil pessoas e deslocou milhões. Sua mãe nunca conseguiu chegar até uma clínica para que ele tomasse a vacina contra a poliomielite, deixando Dongo com duas pernas definhadas.

Seu tio, que trabalhava na área de saúde, trouxe Dongo para Monróvia, mas perdeu seu emprego e não pôde sustentá-lo. Então ele enviou Dongo para um deprimente abrigo público para deficientes.

Dongo viveu ali por mais de uma década antes de se mudar por conta própria, para ir atrás de seu sonho de virar um astro do rap.

De dia, Dongo fica sentado em áreas movimentadas para pedestres e pede esmolas do lado de fora de supermercados novinhos que atendem aos expatriados e à elite da Libéria, que circulam em grandes SUVs e vivem em condomínios luxuosos com ar condicionado, protegidos por arame farpado.

Ele usa a maior parte do dinheiro para sustentar seu filho de 2 anos, que vive com a mãe de Dongo. O resto do dinheiro vai para sua incipiente carreira musical que, ele espera, vai tirá-lo da pobreza, em um país onde não existem oportunidades para deficientes.

Só se deslocar por Monróvia já é difícil para os deficientes. São raras as calçadas, e quando elas existem, muitas vezes são uma série de blocos de concreto desconjuntados que se projetam como dentes tortos. Tampas de bueiro de metal muitas vezes são roubadas para serem vendidas como sucata, deixando buracos abertos no meio das ruas.

Mas muitas das principais vias públicas de Monróvia foram pavimentadas nos últimos anos, e Dongo e outros deficientes podem ser vistos com frequência deslizando em suas cadeiras de rodas no meio do tráfego urbano, desviando de carros em um país onde as leis de trânsito raramente são respeitadas.

Assim como muitos monrovianos, Dongo vive em uma favela, chamada Clara Town, onde ele passa com dificuldades pelos estreitos caminhos empoeirados entre os barracos de zinco da comunidade. Embora seja bastante independente, muitas vezes ele paga para que vizinhos busquem água da bomba para que ele possa tomar banho, lavar suas roupas à mão e às vezes cozinhar.

Dongo sonha com um futuro no qual ele não tenha mais de mendigar para sobreviver ou navegar em ruas esburacadas, podendo ser transportado em um SUV preto, acompanhado por um guarda-costas que o conduza entre fãs histéricos até o palco.

Nas ruas, ele sente vergonha quando aqueles que o conhecem como artista o veem pedindo esmola.

"Eu sei que ao ficar sentado na rua pedindo esmola eu me deprecio", disse Dongo. "Mas quando me apresento no palco, eu me sinto bem porque sei que meu sonho está se realizando e as pessoas ficam enlouquecidas por mim".

Enquanto Lyrical D terminava sua breve apresentação no Code 146, Koffa assistia atrás do bar, em uma presença dominante e silenciosa. Seus braços musculosos, descobertos, mostravam tatuagens de mapas da Libéria e de homenagens ao HipCo. No final da apresentação, Koffa disse a Lyrical D que ele havia gostado de sua nova faixa e apertou sua mão.

Vários dias depois, Dongo estava nas ruas gravando um vídeo clipe para sua música "Show Love". Um diretor disse a Dongo onde se posicionar enquanto assistentes espantavam as pessoas para longe da gravação. Um amigo tocava a música através de um celular ligado a uma caixa de som, e Dongo começou a cantar.

Ele estava acompanhado de dois amigos vestidos com camisetas iguais listradas de vermelho e branco e jeans, como seus dançarinos de apoio, rodopiando em cadeiras de roda. Dongo franzia as sobrancelhas e fazia algumas manobras com sua cadeira.

"Lembro que quando eu me apresentava as pessoas costumavam rir", ele cantou. "Mas eu insisto, não é divertido, eu insisto, não é divertido, eu insisto, eu não desisto".

Tradutor: UOL

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