Procuram-se companheiros de quarto. Apoiadores de Trump, abstenham-se

Katie Rogers

Em Washington

  • T.J. Kirkpatrick/The New York Times

    Sahar Kian não quer dividir o aluguel com alguém que apoie as ideias de Donald Trump

    Sahar Kian não quer dividir o aluguel com alguém que apoie as ideias de Donald Trump

Ela chama isso de "cláusula anti-Trump".

Quando Sahar Kian precisava de uma nova pessoa para dividir com ela o aluguel de uma casa perto da Universidade de Georgetown, fez como muitos jovens na área de Washington: pôs um anúncio no site Craigslist e estabeleceu algumas regras: "Bebida alcoólica, animais e produtos de carne não são permitidos na casa", escreveu Kian. "Nem apoiadores de Trump", acrescentou.

Kian, 23, não é a primeira pessoa a incluir essa cláusula em uma solicitação para companheira de quarto. Uma série constante de postagens como a dela apareceu, uma ou duas de cada vez, no Craigslist desde que o presidente Donald Trump tomou posse, em 20 de janeiro.

Como sabe qualquer pessoa que veio morar na área de Washington com poucos contatos e um salário inicial baixo, encontrar alguém (ou várias pessoas) para dividir o aluguel alto é uma prática comum. O custo médio de um apartamento de um quarto é de aproximadamente US$ 1.990 por mês (R$ 6.200), segundo o site de locações Zunger. Mas para algumas está se tornando mais importante garantir que as opiniões políticas combinem antes de dividir os custos com um estranho.

Em grupos no Twitter, Reddit, Craigslist e Facebook, pessoas estão excluindo os seguidores de Trump desde o último outono. Esses anúncios, dos quais mais de uma dúzia foram publicados no Craigslist desde o dia da posse, são apenas uma fração das milhares de postagens no site, mas de todo modo representam um pequeno ato de contestação em uma área que favorecia muito Hillary Clinton e cujos moradores continuam politicamente ativos depois da eleição.

"Não consigo morar com alguém que apoie um 'líder' com esse tipo de ideais", escreveu em um e-mail Jessica, 32, uma professora que não quis que seu sobrenome fosse citado por temer assédio online. Ela publicou um anúncio no Craigslist para dividir aluguel pouco depois da posse. "Sinto como se eu fosse a um protesto todos os dias."

Em um anúncio recente, um casal dessa área que se identificou como de "mentalidade aberta" e liberal, anunciou um quarto por US$ 500 (R$ 1.560) em sua casa: "Se você for racista, sexista, homofóbico ou um apoiador de Trump, por favor, não responda. Não combinamos".

Em outro, duas mulheres de 20 e poucos anos procuravam alguém para morar em um quarto cor de lavanda em seu apartamento em Columbia Heights, por US$ 550. Elas explicavam que adoram "happy hours", uma "boa sessão de Netflix", sopa vietnamita e panquecas mexicanas. "Estamos abertas a qualquer idade/identidade de gênero/não identidade", acrescentaram, "desde que você não seja eleitora de Trump."

No mesmo bairro, uma mulher publicou um anúncio procurando alguém para ficar com seu quarto: "Seguidoras de Trump, esta não é a casa para vocês (sério)", escreveu.

Kian, que trabalha na Amideast, uma instituição beneficente que se dedica a oportunidades educacionais para estudantes do Oriente Médio e da África, aceita tomar essa medida a mais para garantir que seu filtro político chegue à sua casa. Kian, que tem cidadania americana e iraniana e foi criada como muçulmana, disse que a ideia da cláusula anti-Trump surgiu como piada. Mas se tornou séria, disse ela, depois que o presidente assinou o decreto proibindo parcialmente a entrada de muçulmanos nos EUA.

"Qualquer pessoa que concorde com esse tipo de pensamento não é bem-vinda", disse ela. Quem acabar morando com Kian pagará US$ 1.300 para dividir o andar superior da casa (os pais dela moram embaixo). Apoiadores de Trump, segundo ela, não se interessariam em morar em sua casa, que é "extremamente liberal".

"Francamente, não daria certo", disse Kian. "Essa pessoa não ficaria à vontade aqui, porque nós criticamos Trump todas as noites."

Pessoas como Kian podem estar se fechando a outras, mas seus atos são legais, segundo Sheila C. Salmon, uma advogada de Washington especializada em direito habitacional. As opiniões políticas não são protegidas pela Lei de Habitação Justa, que proíbe discriminação baseada em fatores como raça, religião, origem nacional e deficiência.

"Não vejo nada ilegal nisso", disse. Washington estabeleceu um conjunto de proteções amplas, que incluem afiliação política, mas Salmon afirmou que não está claro se o apoio de uma pessoa a Trump recairia nessa categoria.

"Seria realmente rejeição ou discriminação sobre afiliação política?", indagou ela. "Acho que há uma teoria razoável de que não seja."

Kevin Kemp, 29, que trabalha em publicidade na "Educational Week", é outro residente que filtra os apoiadores de Trump. Kemp disse que costumava avaliar sutilmente a política de potenciais companheiros de quarto fazendo piadas e vendo a reação deles. Mas há cerca de um mês, quando procurava alguém para dividir um apartamento de dois quartos em Silver Spring, em Maryland, ele se viu dando um passo a mais ao redigir um anúncio no Reddit.

"Por favor, nada de seguidores do Império, Borgs, Vogons, Lannisters (algumas exceções), Sith ou Trump", escreveu ele em uma postagem procurando um companheiro, citando alguns dos mais notórios vilões da ficção. A piada, segundo ele, reflete uma frustração mais profunda.

"Como um homem negro, o Black Lives Matter é importante para mim", disse ele. "E os seguidores de Trump não são conhecidos por apreciarem esse movimento."

T.J. Kirkpatrick/The New York Times
Cole Lyle é veterano e se considera um republicano conservador

Na outra ponta do espectro, pessoas que se identificam como conservadoras e apoiam Trump estão percorrendo terreno difícil. Cole Lyle, um veterano dos fuzileiros navais que recentemente se mudou para Washington para fazer lobby para fornecer cães-guias aos veteranos feridos, usa o Craigslist e o boca-a-boca entre seus amigos para encontrar um co-locatário.

Ele disse que está aberto a morar com qualquer pessoa, mas acrescentou que o grupo de potenciais colegas que compartilham suas crenças políticas é pequeno.

"Washington é uma cidade pequena", disse Lyle. "A Washington republicana é menor ainda, e a Washington republicana conservadora, minúscula." Lyle, 27, um ex-estagiário na Fundação Heritage, está morando por enquanto na residência do grupo de pensadores. Ele diz que espera que ele e seu cão-auxiliar, Kaya, acabem morando em um lugar onde possa ter afinidades com a pessoa --"os cães são a chave para o bipartidarismo"--, mas não quer morar com alguém que o rejeite por causa de suas opiniões políticas.

"Se alguém colocar isso em um anúncio, não é o tipo de pessoa com quem eu quero me associar", disse ele. "Se alguém disser: 'Não quero viver com um liberal', eu provavelmente também não gostaria de me aproximar dessa pessoa."

Mas Kian, que vive em Washington apenas desde a era Obama, disse que provavelmente continuará evitando os defensores de Trump.

"Não tenho certeza de como será esta cidade", disse Kian. "É mais uma razão para eu manter a cláusula contra os eleitores de Trump."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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