Emmanuel Macron entra no vácuo político da França

Adam Nossiter

Em Paris

  • Etienne Laurent/Efe

    Emmanuel Macron ganhou força na corrida presidencial na França

    Emmanuel Macron ganhou força na corrida presidencial na França

Os insultos e os rumores não param de chegar: seus discursos são longos demais e cheios de banalidades água com açúcar. Ele não tem um programa de verdade. Sua passagem pelo governo foi um fracasso. Ele é gay não assumido. Ele está desenvolvendo um culto à personalidade. Ele favorece o capitalismo e, além disso, é jovem demais.

Se era necessário um sinal mais certo de que Emmanuel Macron, o ex-ministro da Economia de 39 anos, seria o novo favorito na corrida presidencial da França, é só olhar para a concentração de ataques virulentos contra ele. Até mesmo os russos, por meio de sites pró-Kremlin, estão em cima.

Os dois principais partidos da França, tanto à direita quanto à esquerda, estão em um processo de autodestruição. O primeiro, abalado pelo escândalo de corrupção envolvendo François Fillon, e o segundo por um sonhador utópico, Benoît Hamon.

Macron se esgueirou habilmente pela brecha. O jovem Macron tem sido visto cada vez mais como aquele que reverterá a onda de populismo autoritário, o não-político que derrotará Marine Le Pen da Frente Nacional, de extrema-direita.

Mas talvez a única coisa mais improvável para a França do que eleger Le Pen seja eleger Macron.

Apesar dos esforços de Le Pen para reformar seu partido, a Frente Nacional tradicionalmente tem sido nociva demais para ser abraçada pela maioria dos franceses. Então, embora ela esteja liderando as pesquisas, praticamente ninguém espera que ela passe pelo segundo turno da eleição presidencial do país na primavera.

Contudo, Macron nunca foi eleito para nada. Ele atuou por dois anos em grande parte fracassados dirigindo a ampla, mas vagarosa, economia francesa, com realizações insuficientes. Ele não é membro de nenhum dos principais partidos, ou de qualquer partido, e não agrada a muitos dos socialistas em cujo governo ele atuou. Ele alega transcender os partidos.

Embora o ex-ministro tenha passado uma mensagem que inclui doses da esquerda, da direita e do centro - como manter os benefícios sociais da França, manter o país dentro da União Europeia e aliviar o fardo para os empresários - essa é uma estratégia que também o tornou o candidato que oferece aquilo que quase todos podem odiar.

Ou, algo que talvez seja mais condenatório na França, isso pode fazer dele um candidato manequim que não representa nada.

"Emmanuel Macron não quer uma definição para si mesmo, e isso está se tornando um problema", disse recentemente Jean-Christophe Cambadélis, um nome de peso socialista e secretário do partido. "Enquanto isso, está tudo meio vago".

Quando Macron deu início à sua campanha, gozações sobre o nome de seu novo movimento - "En Marche!", ou "Avante!" - quase fizeram submergir qualquer mensagem que o jovem ministro estivesse tentando projetar. "Avante para onde?", perguntaram os céticos.

Essa pergunta permanece sem resposta, mesmo agora que ele vem ganhando força. Alguns poucos membros socialistas do Parlamento o apoiaram, apesar de ameaças de expulsão do partido, bem como alguns líderes empresariais e políticos.

Macron é casado com sua ex-professora de teatro do colegial - isso fascina seus compatriotas - que é 24 anos mais velha, e ele causou um escândalo em sua cidade natal no interior, Amiens, ao cortejá-la. Ele foi banqueiro de investimentos junto à Rothschild & Co., algo que não está exatamente no topo da lista das profissões mais admiradas.

No entanto, Macron e sua mulher Brigitte apareceram na capa da "Paris Match" quatro vezes no ano passado. A revista publicou fotos do ministro dando mamadeira para os netos de sua mulher.

Na segunda-feira, ele trouxe à tona os rumores sobre ser gay, fazendo piadas sobre o tema em um discurso, para surpresa da mídia francesa: "É desagradável para Brigitte", disse Macron. "Ela está perguntando como eu consegui fazer isso, fisicamente. Ela convive comigo desde a manhã até a noite, e eu nunca lhe paguei por isso", ele acrescentou, evocando maliciosamente o escândalo de nepotismo em torno de Fillon por este ter mantido sua mulher na folha de pagamentos do Estado em um emprego fictício.

Multidões e comícios lotados nas últimas semanas surpreenderam os comentaristas. Em Lyon, no último fim de semana, 8.000 pessoas se espremeram no ginásio esportivo para ouvi-lo, obrigando outras milhares de pessoas a irem assistir Macron nos telões do lado de fora.

Ele falou durante quase duas horas, com o rosto para cima em uma espécie de enlevo, dirigindo-se à multidão muitas vezes como se fossem seus amigos.

Houve muitas promessas vagas de esperança e união, e, acima de tudo, deleite entre a enorme multidão que foi vê-lo. "A presença de vocês, esse muro de presenças ao meu redor, é uma prova viva de que realmente estamos aqui", disse Macron, radiante.

"É uma demonstração de desejo", afirmou à multidão, "o desejo de imaginar um novo futuro", ele continuou, em uma linguagem literária que diz ter assimilado durante uma infância estudiosa, em seu programa de campanha, cujo título grandioso "Revolução" foi alvo de zombaria por parte de comentaristas.

Em seu discurso, Macron vestiu a camisa da esquerda, da direita, do centro, de Charles de Gaulle e de outras facções, bem como de escritores como Émile Zola, Charles Péguy e René Char, todos sob a égide flutuante de uma "vontade de unir" e "reconciliação".

"E os gaulistas", ele disse, "não carregaram em seus genes essa vontade de unir, essa vontade de não capitular a nenhuma fação, essa incompatibilidade com o conservadorismo, com o ódio pelo outro e com a divisão?"

A multidão irrompeu em gritos de "Macron para Presidente!"

Ele falou em baixar os impostos para as empresas, em restringir o capitalismo, criticou o "obscurantismo" dos Estados Unidos de Trump e denunciou a Frente Nacional por "trair a fraternidade por ela detestar esses rostos que não se parecem com ela".

Ele basicamente não foi conciso nem específico, mas não era para isso que a multidão estava lá.

Em contraste com Le Pen, Macron foi alvo de zombarias por ser o queridinho dos "burgueses boêmios", e por sua falta de jeito entre as classes trabalhadoras. Ele foi atingido por ovos em uma periferia comunista no ano passado e disse a um manifestante que o melhor meio de comprar um terno era arrumando um emprego.

Mas aqueles que enfrentaram naquele dia o frio de Lyon - médicos, professores universitários, pessoas que se descreviam como "chefes de empresas", servidores públicos e muitos jovens - pareciam seduzidos por sua retórica pretensiosa.

"Liberdade, igualdade, fraternidade: não conheço nenhum outro candidato que entenda isso tão bem", disse Pierre-Alexandre Le Guerm, um urbanista de 35 anos. "Ele tem muita coragem, em um mundo onde as ideologias estão dividindo as pessoas. A sua candidatura nos dá um pouco de esperança".

"Com ele, todas as ideias estão vindo da base", disse Monique Janin, 78, que esteve ali junto com seu marido, Raymond, 80, que trabalhou na indústria química. "Ele é muito mais dinâmico", ela disse a respeito de Macron. "Tem a ver com muito mais do que simplesmente criticar os outros".

"Ele tem ideias claras e não é um divisor", afirmou Geneviève Kepenekian, 70, uma médica aposentada. "E ele é realista. Sua ideia é obter dinheiro de diferentes fontes".

"Ele é aberto. Ele é novo. Ele está unindo as pessoas. E ele sai do lugar comum", disse Thomas Buy, 37, que contou ter uma rede de salões de beleza na região de Lyon.

"Foi bem genérico", admitiu Buy. "Teremos de esperar mais um pouco para ver. Mas sentimos um verdadeiro fervor."

Tradutor: UOL

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