Ameaça de rompimento de barragem? A Califórnia tem várias represas sob risco

Adam Nagourney e Henry Fountain

Em Los Angeles

  • Jim Wilson/The New York Times

    Barragem de Oroville, na Califórnia, dá vazão a agua

    Barragem de Oroville, na Califórnia, dá vazão a agua

A Barragem de St. Francis era um imponente símbolo do poder da engenharia e do elaborado sistema hídrico da Califórnia, até que à meia-noite do dia 12 de março de 1928 ela se rompeu, matando mais de 400 pessoas em uma devastadora enxurrada. Desde então, o Estado tem mantido a reputação de realizar cuidadosas inspeções, tendo construído a maior rede de grandes represas públicas do país.

Mas a ameaça de uma catastrófica enchente provocada pelos danos na Represa de Oroville no norte da Califórnia esta semana, forçando a evacuação de quase 200 mil pessoas por causa do que grupos ambientalistas avaliaram em 2005 como sendo uma falha de projeto, apresentou um sinal de alerta para a Califórnia, onde uma rede de barragens e canais está sofrendo com a idade e o desgaste. Ela também mostrou que represas mais antigas podem não estar preparadas para lidar com os padrões climáticos adversos que a Califórnia tem sofrido por causa do aquecimento global. A Represa de Oroville foi concluída em 1968, no final da era de ouro das construções de represas.

O culpado em Oroville foi um vertedouro de emergência defeituoso, usado pela primeira vez desde que a barragem foi aberta após dias de fortes tempestades, causadas pelo que são conhecidos como rios voadores, que preencheram o reservatório até o limite de sua capacidade. Mas engenheiros e ambientalistas dizem que problemas similares podem ocorrer em muitas das cerca de 1.500 represas existentes nesse Estado --sem mencionar o resto do elaborado sistema de canos, bombas e aquedutos que movimentam bilhões de litros de água por ano, desde o norte da Califórnia até o árido sul.

"Não estamos fazendo a manutenção adequada da infraestrutura hídrica", disse Peter H. Gleick, um fundador do Pacific Institute, um think tank dedicado a questões hídricas. "Não estamos fazendo a manutenção em Flint, Michigan, e não estamos fazendo a manutenção em nossas grandes represas na Califórnia. Precisamos gastar mais dinheiro e tempo na manutenção delas".

Das 1.585 represas na Califórnia, 17 estão classificadas como em más condições e 97 em condições aceitáveis, de acordo com o Inventário Nacional de Barragens, que é mantido pelo Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA. Existem cerca de 90 mil represas em todo o país, muitas das quais são de propriedade privada.

Parte do problema, de acordo com representantes, é que o governo tende a investir mais dinheiro na construção de novos projetos, celebrados com pomposas cerimônias de inauguração realizadas por políticos, do que na menos visível (e menos glamorosa) tarefa de manutenção.
 
"Essa é uma preocupação nacional para nós", disse Lori Spragens, diretora-executiva da Associação dos Oficiais de Segurança das Represas Estatais. "A maioria das barragens tem quase 50 anos de idade. Muitas delas estão muito defasadas em sua reforma, e precisam ser atualizadas para os padrões atuais. É a falta de dinheiro. Toda a preocupação com infraestrutura simplesmente não existe, como sabemos".

A mudança climática torna o desafio ainda maior. Cientistas disseram por anos que uma atmosfera cada vez mais quente deveria levar a tempestades mais intensas e frequentes em muitas regiões. Na Califórnia, onde as precipitações em Sierra Nevada são fonte de boa parte da água do Estado, o aquecimento também significa que mais da umidade em uma determinada tempestade cai como água e menos como neve, aumentando a carga imediata sobre reservatórios a jusante.

O último ano tem sido o mais chuvoso na história da Califórnia, uma mudança radical após uma seca de cinco anos de proporções históricas que transformou alguns reservatórios em campos marrons de terra seca e rachada. A estação de inverno chuvosa só termina em abril, e a previsão para esta semana é de mais tempestades em toda a Califórnia. E à medida que o vasto acúmulo de neve de Sierra Nevada vai derretendo aos poucos, ela continuará alimentando os reservatórios até o final da primavera.

A Califórnia tem ainda a complicação de ser permeada por falhas geológicas, o que sempre foi um grande desafio para engenheiros que projetam represas. Entre as barragens consideradas como em risco estão duas próximas a falhas geológicas e que estão passando por melhorias para suportar melhor os choques sísmicos: a Represa de Anderson e a Represa de Calaveras, ambas perto de San José.

Mas a mais problemática represa de grande porte da Califórnia fica no Lago Isabella, construída nos anos 1950 sobre o que se acreditava ser uma falha geológica dormente pelo Corpo de Engenheiros do Exército, no Rio Kern acima de Bakersfield. A falha desde então se mostrou ativa, e por preocupação de que a represa pudesse se romper, as autoridades restringiram o nível do lago atrás dela. Esta semana, autoridades garantiram a residentes das proximidades que, apesar das fortes chuvas, os níveis do lago e a represa em si permaneciam seguros.

Mas a barragem terá de ser reconstruída, com um novo vertedouro de emergência, a um custo estimado em cerca de meio bilhão de dólares (R$1,55 bilhão). A previsão é de que a construção tenha início este ano e dure pelo menos cinco anos.

Isabella é um exemplo de como vertedouros de represas projetados há mais de meio século muitas vezes são inadequados, disse Blake P. Tullis, professor de engenharia civil na Universidade Estadual de Utah, que trabalhou no projeto do novo vertedouro. A mudança climática é parte do problema, ele disse, mas outros fatores, como mudanças no uso da terra --mais estacionamentos, por exemplo, equivalem a um escoamento maior nos rios --e aprimoramento nos dados climáticos também tiveram seu papel.

"Agora, enquanto você faz suas análises estatísticas, a maior enchente que conseguiria prever na verdade é muito maior", disse Tullis. "As pessoas estão meio desesperadas, perguntando como mantemos a segurança das represas".

Os problemas em Oroville, uma comunidade situada 112 km ao norte de Sacramento, são particularmente inquietantes porque a Califórnia está há muito tempo no setor de construção de represas públicas. E ninguém se esquece das lições do rompimento da St. Francis, cujo projeto foi supervisionado por William Mulholland, um engenheiro de Los Angeles cuja carreira foi destruída pela tragédia.

"Eu diria que a Califórnia é a número 1", disse Joseph D. Countryman, que trabalhou por 20 anos como chefe de operações de reservatório para o Corpo de Engenheiros do Exército. Ainda assim, ele acrescentou, não importa o quanto de experiência ou dinheiro uma construtora de represas tenha, sempre tem algo que pode dar errado, especialmente em um Estado como esse que pode passar de cinco anos de uma seca extrema para oceanos de água caindo do céu.

"Quando você constrói uma barragem, você está brincando de Deus", ele disse. "E é difícil ser Deus".

No caso de Oroville, em 2005 grupos ambientalistas protestaram contra a renovação do licenciamento da represa por parte da Comissão Regulatória Federal de Energia, dizendo que o vertedouro de emergência deveria ser reforçado com concreto para garantir sua durabilidade caso os reguladores precisassem liberar água para aliviar a pressão sobre a represa. A agência federal, confirmada pela autoridade estadual responsável pelo reservatório, disse que não era necessário.

"A gestão da represa, a gestão da água, são gestão de riscos", disse Nancy Vogel, uma porta-voz da Agência de Recursos Naturais da Califórnia. "Você precisa avaliar os riscos e calcular o que é um bom gasto e o que não é".

Vários engenheiros disseram que parecia provável que esse episódio mostraria a necessidade de algo em torno do qual políticos raramente se mobilizaram: gastar dinheiro com manutenção em vez de novas construções. O susto veio em um momento em que o presidente Donald Trump disse que proporia algum tipo de programa de infraestrutura. A Califórnia submeteu projetos em um montante de US$ 100 bilhões (cerca de R$ 300 bilhões) que ela gostaria de ver financiados. Eles incluem obras no sistema hídrico do Estado, só que para novas obras, incluindo a construção da Barragem de Folsom no nordeste de Sacramento.

Na terça-feira, Sean Spicer, porta-voz da Casa Branca, disse em uma entrevista coletiva para a imprensa que a administração estava observando os acontecimentos na Califórnia e que a crise "era um exemplo clássico do porquê precisamos buscar a aprovação de um grande pacote de infraestrutura no Congresso".

Os acontecimentos em Oroville são um lembrete de que tudo que diz respeito a uma barragem --desde sua construção até sua manutenção-- é desafiador, em grande parte por causa dos grandes riscos envolvidos em um erro.

"É claro que não deveria acontecer", disse Countryman. "Isso não significa que poderia ser evitado".

"Passamos de uma seca para uma enchente da noite para o dia", ele acrescentou. "Não podemos ter uma pausa entre temer uma coisa e outra?"

* Com reportagem de Adam Nagourney (Los Angeles) e Henry Fountain (Nova York)

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos