Após eleição, amor declarado de Trump por vazamentos desaparece rapidamente

Michael D. Shear

  • Stephen Crowley/The New York Times

    Presidente Donald Trump espera a chegada do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, na Casa Branca, em Washington

    Presidente Donald Trump espera a chegada do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, na Casa Branca, em Washington

Quando era candidato a presidente, Donald Trump aprovou os hackers que vazaram os e-mails de Hillary Clinton para a imprensa, declarando em um comício na Pensilvânia: "Eu adoro o WikiLeaks!"

Naquela noite, diante da multidão que aplaudia, Trump afirmou que "nada é secreto hoje quando se trata da internet". Os vazadores, segundo ele, tinham prestado um serviço público ao revelar o que ele chamou de escândalo sem paralelo na história dos Estados Unidos.

Hoje, com menos de quatro semanas no Salão Oval, Trump mudou de ideia.

Em uma entrevista coletiva na quarta-feira (16) e em uma série de postagens no Twitter no mesmo dia, Trump acusou com irritação os órgãos de inteligência de vazar ilegalmente informação sobre Michael Flynn, seu ex-assessor de segurança nacional, que renunciou depois de se noticiar que ele havia mentido sobre conversas com o embaixador russo.

"É um ato criminoso", fumegou Trump na Casa Branca. Em uma mensagem no Twitter, ele afirmou que "o verdadeiro escândalo aqui é que informação sigilosa é ilegalmente distribuída pela 'inteligência' como se fossem doces. Muito antiamericano!"

Mas isso é Washington, onde os vazamentos são moeda corrente e, dependendo do lado em que você estiver, podem ser sinistros ou patrióticos. Os democratas hoje em dia veem a proliferação de vazamentos sobre o governo Trump como atos de servidores públicos que revelam os malfeitos de uma Presidência.

Os republicanos os consideram atos rebeldes de burocratas enraivecidos, ansiosos para promover suas próprias agendas e sabotar Trump.

De qualquer modo, a vacilação presidencial de Trump se segue a um mês marcante dos vazamentos em Washington.

Rascunhos de seus decretos executivos voaram pela cidade durante dias antes que ele os assinasse. Trechos de conversas do presidente com líderes estrangeiros foram publicados literalmente em reportagens. Memorandos e telegramas de agências foram citados repetidamente por jornalistas para documentar o nervosismo entre os funcionários públicos da cidade.

E uma série interminável de reportagens sobre as conexões entre assessores de Trump e a Rússia foi gerada por vazamentos de fontes da inteligência e de órgãos policiais.

São tantos, na verdade, que em um artigo sobre Flynn o jornal "The Washington Post" citou um número incomumente grande de fontes, além das duas habituais: "Nove autoridades atuais e passadas, que estavam em cargos graduados em diversos órgãos no momento dos telefonemas".

Laura Handman, advogada que representa organizações noticiosas sobre questões ligadas à Primeira Emenda constitucional (que trata da liberdade de expressão), disse sobre Trump: "Ele não será o primeiro presidente que critica os vazamentos depois de se tornar presidente".

"Essa parece ser uma constante no Salão Oval", acrescentou. "É definitivamente verdade que ele os apreciava quando o sapato estava no pé do outro."

Stephen Crowley/The New York Times
Jornalistas se posicionam na ala oeste da Casa Branca


Nos últimos vários dias, os vazamentos sobre Flynn e a questão mais ampla das comunicações com a Rússia criaram o primeiro grande escândalo do presidente, obrigando Flynn a se demitir e provocando pedidos de investigação no Congresso.

Mas o secretário de imprensa da Casa Branca, Sean Spicer, disse que se deu muito pouca atenção a como a informação sobre Flynn foi divulgada.

"Foi por meio de um vazamento de informação sigilosa pelo Departamento de Justiça e supostamente a comunidade de inteligência", disse Spicer. "São os únicos que têm acesso a essa informação."

"A ideia de que não se deu atenção a um assunto tão delicado deveria ser preocupante e alarmante", disse ele.

Os aliados republicanos de Trump seguiram a pista de Spicer e exigiram saber quem no governo está vazando informações para a mídia.

O deputado Devin Nunes, da Califórnia, presidente da Comissão de Inteligência da Câmara, disse à Fox News que sua comissão vai "pedir ao FBI que faça uma avaliação disto para nos dizer o que está acontecendo, porque não podemos continuar tendo esses vazamentos como governo".

Outros republicanos foram circunspectos sobre se pretendem apoiar investigações sobre as conexões russas. Alguns, incluindo o senador Mitch McConnell, do Kentucky, o líder republicano, apoiam um inquérito pelas comissões de inteligência. Mas McConnell rejeitou a necessidade de uma comissão especial para investigar o assunto.

"Sabemos como fazer nosso trabalho", disse McConnell à MSNBC. "Temos uma Comissão de Inteligência."

Em comentários de Trump na Casa Branca, o presidente pareceu pressionar por um inquérito para saber como foi divulgada a informação sobre as comunicações de Flynn com Moscou.

"Isso já acontecia muito tempo antes de mim, mas agora está realmente acontecendo", disse Trump sobre os vazamentos, acusando os que espalharam a informação de "tentar compensar" a derrota de Hillary Clinton na eleição no ano passado. Trump acrescentou que houve "documentos e papéis que vazaram ilegalmente --saliento isto: ilegalmente".

Se os republicanos conseguirem conduzir essas comissões para se concentrarem mais nos vazamentos --e não na informação subjacente que eles revelaram -, estarão seguindo um caminho bem conhecido.

O presidente Barack Obama, democrata, travou uma guerra furiosa contra os vazamentos durante seus oito anos no cargo, processando mais denunciantes que todos os seus antecessores juntos.

Joel Kurtzberg, um sócio da firma Cahill, Gordon & Reindel, especializada em casos relativos à Primeira Emenda, disse que os atos de Obama serviram para desencorajar as autoridades de divulgar informações que revelem erros ou sejam embaraçosas para o governo.

"Eu ficaria preocupado que, tão cedo, haja um pedido público para iniciar uma investigação sobre vazamentos, e realmente esfrie a divulgação de informações dignas de ser noticiadas", disse Kurtzberg. "É uma coisa muito importante que a imprensa seja capaz de relatar informações verídicas."

Os jornalistas que trabalham em Washington muitas vezes são criticados por usarem fontes anônimas e por publicar informação sensível ou secreta. Essa crítica muitas vezes vem dos que estão no poder --que hoje incluem Trump e seus assessores.

"Já aconteceu em governos republicanos e democratas de os presidentes não gostarem disso", afirmou Leonard Downie Jr., um ex-editor-executivo do "Washington Post" que hoje é professor de jornalismo na Universidade Estadual do Arizona.

Downie disse que ficou surpreso com o volume de informação vazada à imprensa só nas primeiras três semanas da Presidência Trump, aparentemente por pessoas de dentro do governo que Trump lidera.

"Eu ficaria preocupado se este governo começasse a punir as pessoas" responsáveis por vazar essa informação ou publicá-la, disse Downie. Na opinião dele, o presidente parecia ávido para fazer exatamente isso.

Em suas mensagens no Twitter, Trump criticou a "mídia de notícias falsas", que ele acusou de se envolver em teorias da conspiração e "ódio cego", aparentemente dirigidos a ele ou seus assessores.

"A informação está sendo dada ilegalmente aos falidos @nytimes & @washingtonpost pela comunidade de inteligência (NSA e FBI?)", escreveu Trump em uma postagem. "Igual à Rússia."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos