Esgotados e grogues, jornalistas encontram em Trump um renovado senso de missão

Michael M. Grynbaum e Sydney Ember

  • Sam Hodgson/The New York Times

    Filas de cadeiras para repórteres antes de coletiva de imprensa do então presidente eleito Donald Trump na Trump Tower, em Nova York

    Filas de cadeiras para repórteres antes de coletiva de imprensa do então presidente eleito Donald Trump na Trump Tower, em Nova York

Má conduta da Casa Branca. Vazamentos sensacionais. Concorrência entre jornais.

A história em torno das relações do presidente Donald Trump com a Rússia está sendo comparada nos círculos jornalísticos a escândalos anteriores como Watergate e o caso Monica Lewinsky, mas com um toque do século 21.

Organizações de notícias como "The Washington Post", "The New York Times" e CNN estão disputando furos, mas em vez de enviarem funcionários para buscarem as primeiras edições nas bancas, os editores veem as notícias se desdobrarem em tempo real pelo Twitter. Fontes anônimas levam a histórias bombásticas, vazamentos brotam de aplicativos de mensagens encriptadas do iPhone em vez de encontros em estacionamentos subterrâneos.

O ciclo de notícias começa ao amanhecer, quando repórteres grogues ouvem o ping de um tuíte presidencial, e termina tarde da noite, quando editores de jornal rasgam a primeira página planejada para poder publicar a mais recente revelação de Washington. Em consequência e velocidade, os desdobramentos políticos das últimas quatro semanas fazem lembrar tempos jornalísticos momentosos.

"Há esse senso de urgência e energia que estou sentindo agora, que me faz recordar de quando tinha 29 anos e estava em uma situação muito diferente: no meio de uma situação revolucionária na Rússia", disse David Remnick, o editor da revista "The New Yorker", que era correspondente do jornal "The Washington Post" em Moscou durante o colapso da União Soviética.

"Não estou dizendo que agora é uma revolução. Mas há essa incerteza a respeito do que está acontecendo minuto a minuto, dia a dia."

"Há essa sensação de que todo dia trará algo surpreendente, se não calamitoso", ele acrescentou.

Para jornalistas ansiosos a respeito do estado de sua profissão, há um senso renovado de missão. Os jornais estão vendo um grande aumento de assinaturas. Os noticiários de televisão, antes desdenhados como dinossauros na era da internet, estão prosperando.

A audiência de Rachel Maddow na MSNBC subiu 79% em comparação há um ano, com seu programa atraindo mais de 2 milhões de espectadores por noite nas últimas duas semanas. Na terça-feira, Tucker Carlson, da "Fox News", teve mais telespectadores do que séries de sucesso como "New Girl" e "Marvel's Agents of SHIELD".

Se a rotina é energizante, também é implacável. Na tarde de quarta-feira, uma redatora da revista "The Atlantic", Rosie Gray, tuitou: "Restando apenas cerca de 9 horas para a próxima notícia de última hora nos impedir de novo de ter uma vida". Hallie Jackson, uma correspondente da "NBC News" na Casa Branca, respondeu brincando um minuto depois, "O que é uma vida?", à qual Gray respondeu: "Me recordo vagamente de um tempo em que tinha uma". À noite, a mensagem original de Gray tinha sido curtida mais de 850 vezes.

"O ritmo de tirar o fôlego dos eventos me faz recordar dos tempos de O.J. e Monica", disse Jeffrey Toobin, que cobriu o julgamento de O.J. Simpson por assassinato e o escândalo envolvendo Lewinsky para "The New Yorker". "A forma como tanto jornalistas quanto consumidores se sentem sobrecarregados pelo ritmo dos desdobramentos. A sensação de 'não dá para fazer uma pausa?'"

Até mesmo pessoas pagas para satirizar a política se veem ansiosas. No set em Los Angeles de "Veep", a série da HBO estrelada por Julia Louis-Dreyfus, roteiristas e elenco correm para saber as mais recentes notícias entre os takes. "Todos ficam atentos aos seus telefones", disse Frank Rich, o colunista liberal, que é um dos produtores executivos da série.

O metabolismo acelerado é não partidário. Muitos nos sites de notícias de direita estão cobrindo cada novo desdobramento na Casa Branca e resistindo à noção de que o governo está envolvido em um grande escândalo.

"Querida esquerda: quando tudo é um ultraje, nada é um ultraje", escreveu Katie Pavlich, editora do site "Townhall", na quarta-feira pelo Twitter, acrescentando sobre os recentes desdobramentos: "Isto não é um Watergate".

Na Fox & Friends na manhã de quarta-feira, os apresentadores da Fox News atacavam os vazadores por trás dos recentes furos. "Eles estão causando danos a todos nós; estes são segredos nacionais", disse a âncora Ainsley Earhardt. Seu coapresentador, Steve Doocy, disse: "O presidente, a Casa Branca e o Congresso precisam fazer algo a respeito".

De modo pertinente a um presidente encantado por reality shows, o drama da Casa Branca começou a lembrar uma versão política do julgamento de O.J. Simpson, prendendo a atenção da nação e criando uma série de celebridades improváveis.

Saul Loeb/AFP
Sean Spicer, porta-voz da Presidência, lê nota na Casa Branca


O circo de Simpson tinha Lance Ito e Robert Shapiro. O governo Trump tem Sean Spicer, o porta-voz da Presidência, cujas coletivas de imprensa vespertinas agora superam em audiência a novela "General Hospital". Nos dois últimos fins de semana, Spicer apareceu no programa "Saturday Night Live" interpretado por Melissa McCarthy, que já é considerada uma candidata ao prêmio Emmy (o Oscar da televisão).

Kellyanne Conway, a conselheira da Casa Branca, era uma obscura especialista em pesquisas republicana antes de suas defesas de Trump na televisão, que distorcem a lógica, lhe renderem fama. Na quarta-feira, a apresentadora Mika Brzezinski da "MSNBC" disse que não mais entrevistaria Conway em seu programa, dizendo: "Não acredito em notícias falsas ou em informação que não é verdadeira".

O que separa a história da Rússia de um frenesi típico da mídia, dizem jornalistas, é o que está por trás das alegações: espionagem russa e interferência na eleição geram questões graves para a democracia e para a política externa. A imagem de um círculo interno caótico da Casa Branca evoca governos problemáticos do passado.

"Você tem uma história que parece ter as proporções de Watergate", disse Rich, "casada a este fervente Velho Oeste da nova midiasfera".

Com o setor de notícias em um sprint interminável desde o dia da posse, alguns jornalistas se perguntam se o ritmo desacelerará. Os repórteres que deixam de lado seus smartphones por apenas algumas poucas horas podem ficar desconcertados com o que perderam. Remnick, da "The New Yorker", disse: "Exaustão não é uma opção".

"Se você já estiver exausto após três semanas e meia, é melhor se recompor", ele disse. "Isso vai continuar, e continuará seguindo em todas as direções."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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