Ele chamou o presidente da China de "Xitler" no Twitter. Agora pode ser preso

Chris Buckley

Em Pequim

  • Twitter/ @kwonpyong

    Selfie de Kwon Pyong com a camiseta escrita "Xitler"

    Selfie de Kwon Pyong com a camiseta escrita "Xitler"

A partir de sua cidade natal no nordeste da China, Kwon Pyong usou a internet para ridicularizar e criticar os dirigentes da nação, inclusive postando uma selfie na qual ele usava uma camiseta que associava o presidente Xi Jinping a Hitler.

Mas Kwon, que é de etnia coreana e estudou nos Estados Unidos, desapareceu ao ser levado pela polícia em setembro, logo depois de ter compartilhado no Twitter uma foto da camiseta que trazia nomes escabrosos para Xi, incluindo "Xitler". E na quarta-feira Kwon enfrentou um julgamento acusado de "incitar a subversão", disseram seus dois ex-advogados de defesa, que foram repentinamente dispensados do caso dias antes do julgamento.

O destino de Kwon mostrou que ultimamente mesmo postagens toscas na internet sobre os dirigentes da China podem levar a uma sentença de prisão, disse Liang Xiaojun, um dos advogados dispensados, em uma entrevista por telefone concedida na quinta-feira. As autoridades do Partido Comunista têm uma preocupação especial em proteger a imagem de Xi, e comparações com o ditador nazista parecem enfurecê-las de forma certeira.

"Antes, havia os casos de pessoas como Liu Xiaobo, julgado por subversão por longos comentários e artigos, mas agora até mesmo comentários breves no Weibo e no Twitter podem ser tratados como incitação à subversão do poder estatal", disse Liang. "Esse ponto é uma mudança em relação a como era antes. Existem outros casos parecidos, inclusive alguns que ainda não foram a julgamento".

O Weibo é equivalente ao Twitter na China, uma popular plataforma para comentários breves compartilhados com seguidores.

Mas Kwon, 28, divulgava a maior parte de suas opiniões no Twitter e no Facebook, ambos inacessíveis na China, exceto por pessoas com conhecimento e ferramentas para atravessar a barreira da censura digital.

"Vamos trabalhar juntos para derrubar essa barreira invisível", disse Kwon na postagem do Twitter que o mostrava usando a camiseta zombando de Xi. O nome chinês de Kwon é Quan Ping, mas na internet ele preferia usar seu nome coreano, e no Twitter ele se descrevia como um "eterno estudante, cidadão, dedicado a derrubar o comunismo".

O indiciamento contra Kwon dizia que a acusação se baseava nos 70 e tantos comentários, imagens e vídeo que ele compartilhou no Twitter e em sua página do Facebook, de acordo com Liang. Os comentários e as imagens "caluniavam e insultavam o poder do Estado e o sistema socialista", acusaram os promotores, de acordo com a Human Rights Campaign in China, um grupo de apoio que acompanhou seu caso.

Mas os advogados disseram não saber quais eram classificados como subversivos e não sabiam se a foto da camiseta era uma delas, porque oficiais negaram seus pedidos para ver Kwon e os arquivos do caso. Eles também refutaram a alegação de que tais críticas equivaliam a uma subversão.

Os dois advogados contratados pelos pais de Kwon foram afastados de sua defesa em tribunal dias antes do início do julgamento, quando um juiz exigiu uma documentação extra e então o pai de Kwon disse que os serviços deles não eram mais necessários.

"Um juiz da corte nos disse que precisávamos fornecer uma carta de apresentação de nossa secretaria local de justiça" em Pequim, disse por telefone Zhang Lei, que era o outro advogado de defesa de Kwon. "Esse é um pedido impossível e fora dos limites da lei. É uma demanda ilegal e despropositada".

Kwon é a encarnação de um fenômeno que tem preocupado o governo chinês: jovens expostos a ideias estrangeiras, que às vezes estudam no exterior, e se sentem livres para criticar o governo, talvez ingenuamente acreditando que não vão arrumar sérios problemas, disse Liang.

"Ele é de uma geração mais recente que absorveu ideias sobre a democracia e a liberdade", ele disse. "Eles têm um espírito mais claro de oposição".

No mês passado, Zhang Haitao, um ativista de 40 e poucos anos, foi condenado por um tribunal no extremo oeste da China a 19 anos de prisão, acusado de "incitar a subversão" através de seus textos na internet e de fornecer informações para o exterior de forma ilegal.

Kwon estudou engenharia aeroespacial na Universidade do Estado de Iowa, mas trabalhou no comércio da família depois de terminar seus estudos em 2014, de acordo com Liang. Yanbian, a cidade onde Kwon vive e foi julgado, é um hub de comércio entre a China e a Coreia do Norte, e empresas sul-coreanas também investiram ali, em parte por causa de sua população de etnia coreana.

Mas em seu tempo livre, os pensamentos de Kwon se voltavam para o resto do mundo. Ele costumava enviar mensagens criticando a censura e o controle político do governo chinês e demonstrando apoio a dissidentes e outras causas proibidas. Em uma de suas postagens no Twitter, ele contou que lhe mandaram "beber chá", um popular eufemismo chinês para interrogatórios por parte de oficiais de segurança.

"Se eu tiver de beber chá de novo, não vou ficar tímido ou nervoso", ele escreveu no Twitter, em setembro. "Vou declarar minhas opiniões de forma muito clara, tão clara quanto uma faixa contra o Partido Comunista. Essa é minha atitude. Não vou procurar encrenca, mas se acontecer comigo, vou aceitar as consequências".

Mas Kwon se encrencou naquele mês, depois que ele postou uma foto da provocativa camiseta e então, de acordo com relatos posteriores de grupos de direitos humanos de outros países, contou a amigos que ele usaria a camiseta em uma manifestação no dia 1º de outubro, Dia Nacional da China.

No dia 30 de setembro, Kwon enviou uma mensagem para amigos, "Surgiram problemas", e depois ele desapareceu, de acordo com a Human Rights Campaign in China.

Mais tarde sua família descobriu que ele havia sido levado pela polícia. Oficiais disseram a seus pais que Kwon poderia esperar uma sentença de um ano e meio de prisão, contanto que ele dispensasse Liang e Zhang como seus advogados, disse Zhang. Os pais de Kwon resistiram a princípio, mas na segunda-feira eles disseram aos advogados que não precisavam mais deles.

O tribunal não deu um veredito após o julgamento de um dia, e os antigos advogados de Kwan não tinham certeza de quando ele anunciaria uma decisão. Representantes do Tribunal Intermediário do Povo de Yanbian se negaram a comentar sobre o julgamento, e a mãe de Kwon, Li Lianhua, disse à Radio Free Asia que ela não queria dizer nada.

"As autoridades foram insistentes e ele se declarou culpado", disse Liang. "Ele sofreu todo tipo de pressão".

Tradutor: UOL

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