Negócio arriscado para executivos e CEOs: um convite de Trump

James B. Stewart

  • Al Drago/The New York Times

    Encontros com Trump na Casa Branca se tornaram um risco para os executivos de grandes empresas

    Encontros com Trump na Casa Branca se tornaram um risco para os executivos de grandes empresas

Para os maiores executivos do país, um convite à Casa Branca há muito era considerado uma honra cobiçada.

Agora, passado menos de um mês do governo do presidente Donald Trump, se transformou em algo a ser evitado, ao menor por ora.

Como o dono do time de basquete Dallas Mavericks, Mark Cuban, disse ao jornal "The Fort Worth Star-Telegram": "É uma situação difícil para os presidentes-executivos. Você quer fazer bonito com o presidente por ser uma empresa pública e ter acionistas, e é difícil equilibrar, fazer a coisa financeira certa e o que eles acham que é o certo, independente de qual seja sua crença política".

Cuban, o investidor bilionário e astro do reality show de TV "Shark Tank - Negociando com Tubarões", está envolvido em uma briga pelo Twitter com Trump. Na mais recente rodada, o presidente tuitou que Cuban "me apoiou em peso, mas eu não estava interessado em atender todas suas chamadas". "Ele não é inteligente o suficiente para concorrer à presidência!", respondeu.

Um convite de Trump "se transformou em uma espada de dois gumes, já que a população está muito dividida", disse Jeffrey Sonnenfeld, um professor da Escola da Administração de Yale que organiza os encontros de presidentes-executivos ali.

As coisas eram diferentes até dezembro, quando o presidente-executivo do Blackstone Group, Stephen A. Schwarzman, anunciou a formação do Fórum Estratégico e de Políticas do Presidente, cujos membros se "encontrariam com frequência com o presidente para compartilhar sua experiência específica e conhecimentos", como Schwarzman colocou na ocasião.

Na época, os executivos insistiam em participar, mesmo aqueles frios ou, em alguns casos, hostis à candidatura de Trump. Mais de 100 presidentes-executivos abordaram Schwarzman e a equipe de transição de Trump com interesse em ser incluídos.

Apenas duas pessoas recusaram, citando falta de tempo: o presidente-executivo da Apple, Tim Cook, e o cofundador da Microsoft, Bill Gates.

A lista final de 16 incluía nomes de peso como Jack Welch, o ex-presidente-executivo da General Electric; Jamie Dimon, do JPMorgan Chase; Bob Iger, da Disney; Mary Barra, da General Motors; e Virginia Rometty, da IBM.

Logo depois, Elon Musk, da Tesla Motors, Travis Kalanick, do Uber, e Indra Nooyi, da PepsiCo, foram acrescentados, reforçando a experiência do grupo em tecnologia e produtos de consumo.

Então Trump foi empossado e logo emitiu sua divisora ordem de imigração, provocando caos nos aeroportos e protestos em todo o país. Exatamente uma semana depois, quase sem aviso prévio, ele convocou a primeira reunião do fórum, com cobertura ao vivo pela televisão da Sala de Jantar de Estado da Casa Branca.

Jake Naughton/The New York Times
Encontro do CEO do Uber com Trump levou a protesto na sede da empresa

Apesar de quase toda empresa representada no fórum ter emitido uma declaração se distanciando da ordem de imigração em vários graus ou até mesmo a condenando, as imagens da reunião provocaram um risco de parecer um endosso do governo Trump e de suas políticas.

As imagens de Nooyi, uma imigrante nascida na Índia (e agora uma cidadã americana), que estava sentada ao lado de Schwarzman e dentro do enquadramento da câmera apontada para Trump, parecia especialmente incongruente.

E tudo isso antes da renúncia abrupta de Michael T. Flynn como conselheiro de segurança nacional e os novos questionamentos sobre os contatos da campanha de Trump com os russos.

Kalanick foi o primeiro no fórum a sentir a ira dos consumidores. Manifestantes acusaram o Uber de "colaborar" com Trump e se acorrentaram às portas da sede da empresa, no centro de San Francisco. Logo depois, a hashtag #DeleteUber (remova o Uber) se tornou uma dos mais comentadas no Twitter. Passados quatro dias da ordem de imigração, 200 mil usuários removeram o aplicativo Uber e um dos concorrentes da empresa, o Lyft, relatou que o download de seu aplicativo mais que dobrou.

Em um esforço para colocar um fim aos protestos, Kalanick se desligou do fórum um dia antes da primeira reunião. A "suposição implícita de que o Uber (e eu) estava de alguma forma endossando a agenda do governo criou uma percepção equivocada da realidade sobre quem as pessoas pensam que somos e quem somos de fato", ele disse em um memorando aos funcionários.

Quando o contatei nesta semana, Kalanick disse: "Participar do grupo não significava ser um endosso do presidente ou de sua agenda, mas infelizmente foi interpretado de forma equivocada com assim sendo. Há muitas formas de continuarmos defendendo mudanças justas na imigração, mas permanecer no conselho atrapalharia isso".

Protestos e uma campanha de boicote pelas redes sociais começaram após o fundador da Under Armour, Kevin Plank, se juntar à Iniciativa de Empregos Manufatureiros composta por 28 membros, anunciada por Trump em janeiro, e então elogiar as políticas pró-negócios do presidente na "CNBC".

Nesta semana, em uma carta aberta publicada como um anúncio no jornal "The Baltimore Sun" (a sede da Under Armour fica em Baltimore), Plank disse: "Eu acredito pessoalmente que a imigração é a base do excepcionalismo de nosso país" e "em uma época de divisão, aspiramos ser uma força de unidade, crescimento e otimismo para nossa cidade e nosso país". Ele prometeu se opor a "quaisquer novas ações que tenham impacto negativo sobre nossa equipe, nossos vizinhos ou suas famílias".

Alguns funcionários da Disney organizaram manifestações em três cidades nesta semana, exigindo a saída de Iger do fórum, apesar dele não ter participado da primeira reunião devido a um conflito de agenda com uma reunião do conselho diretor marcada há muito tempo. Os protestos reuniram cerca de 120 manifestantes, disse a empresa.

Ao mesmo tempo, a Out & Equal, um grupo de defesa de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros, elogiou a participação de Iger no fórum em uma carta à empresa, citando seu apoio à igualdade no local de trabalho e a capacidade de influenciar o presidente.

O próprio Schwarzman recebeu algumas críticas de alguns acadêmicos, que recebem apoio de um programa criado por ele para estudo na China. Em uma carta aos acadêmicos explicando seu papel de fornecimento de conselhos a Trump, Schwarzman escreveu: "Na vida, você com frequência percebe que ter influência e fornecer conselho sólido é algo bom, mesmo que isso provoque criticas ou exija algum sacrifício. Mas sempre acreditei na obrigação de trabalhar pelo bem comum".

Como a experiência do Uber sugere, os riscos de se envolver com Trump são maiores para as empresas com exposição direta ao consumidor, especialmente aqueles que podem facilmente trocar por um concorrente menos identificado com a marca Trump. A General Motors e a PepsiCo podem enfrentar uma maior reação dos consumidores; bancos e gestores de fundos menos; o grupos industriais como a General Electric ainda menos.

Ao mesmo tempo, os benefícios de fazer parte do fórum e ter a atenção do presidente são óbvios: virtualmente toda empresa da Fortune 500 tem interesses vitais afetados pelo governo federal, de políticas antitruste, trabalhistas e comerciais, até reforma tributária e regulação bancária, incluindo as mudanças na Lei Dodd-Frank.

Ressaltando o valor do acesso, o presidente apontou Dimon, que foi cortejado pela campanha de Trump como potencial secretário do Tesouro, dizendo na reunião: "Não há ninguém melhor para me falar sobre a Dodd-Frank do que Jamie".

O comentário pareceu ressaltar o grau com que Trump entregou a regulação de Wall Street aos banqueiros que criticou durante a campanha. (Curiosamente, dada a hostilidade declarada de Trump à Dodd-Frank, Dimon já declarou publicamente apoio a muitos aspectos da legislação, dizendo que ela torna o sistema bancário mais seguro, mas também torna mais difícil para que bancos menores possam competir). Um porta-voz do JPMorgan Chase se recusou a comentar.

E recusar um convite de Trump gera o risco de uma reação presidencial pelo Twitter, algo sem precedente na história política e empresarial americana e cujo impacto ainda está sendo avaliado. Na semana passada, o Yahoo Finance disse que analisou mais de 34 mil tweets de Trump e identificou ataques a 62 empresas, incluindo pelo menos duas representadas no fórum, a General Motors e a Boeing. (Eu pedi na quinta-feira à Casa Branca que comentasse sua interação com os líderes empresariais, mas não recebi resposta.)

Percepção à parte, Sonnenfeld, de Yale, disse que as aberturas do presidente aos executivos representam uma mudança bem-vinda em comparação ao governo Obama, que em grande parte ignorava as grandes empresas e convocava os banqueiros a Washington para intimidá-los publicamente devido à crise financeira. Por sua vez, Trump abraçou os membros de seu fórum empresarial como "os melhores e mais brilhantes", dizendo que aprecia suas ideias.

"Há sempre o risco de os presidentes-executivos serem usados para fotos oportunistas", reconheceu Sonnenfeld.

Mas ele elogiou a decisão de Trump de "dar aos presidentes-executivos uma cadeira à mesa" e disse que ele conversou com pelo menos metade dos participantes desde a reunião.

"Eles me disseram que o consideraram muito receptivo às suas ideias e disposto a ouvir", ele disse. "Eles disseram que assumiram a responsabilidade de serem sinceros e levantarem questões cruciais junto a ele."

Sonnenfeld se encontrou com Trump desde a eleição e ofereceu conselho. "Ele é encantador e aberto a novas ideias", disse Sonnenfeld. "Já vi executivos derreterem na presença dele."

Charles Elson, um professor e especialista de governança corporativa da Universidade de Delaware, também elogiou o presidente por contatar os líderes empresariais. Ele disse que discorda da decisão de Kalanick de renunciar.

"Quando o presidente chama, você deve ir vê-lo, independente de sua posição política, por respeito ao cargo", disse Elson. "Como presidente-executivo com um dever para com seus acionistas, você tem a obrigação de fazê-lo, goste dele ou não."

O escritório de Schwarzman apresentou um argumento semelhante quando o contatei nesta semana.

"Steve aconselhou presidentes de ambos os partidos no passado e se sente no dever de ajudar qualquer governo que o chame, se puder fazê-lo pelo bem do país", disse Christine Anderson, uma porta-voz de Schwarzman.

Mesmo assim, todos com quem falei concordaram que há limites que não devem ultrapassar.

"Você não precisa concordar" com o presidente, disse Elson. "Se ele lhe pedir para assumir uma posição política, você pode dizer não. E se ele lhe pedir para endossar algo a respeito do qual você tenha profunda objeção filosófica, você não deve fazê-lo."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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