Onda de vazamentos gera medo de um "Estado profundo" nos EUA

Amanda Taub e Max Fisher

Em Washington (EUA)

  • Pablo Martinez Monsivais/AP Photo

    Vazamentos podem evidenciar conflito entre o presidente e as instituições do governo

    Vazamentos podem evidenciar conflito entre o presidente e as instituições do governo

Uma onda de vazamentos por funcionários do governo tem afetado a administração Trump, levando algumas pessoas a fazerem comparações com países como Egito, Turquia e Paquistão, onde redes clandestinas dentro das burocracias do governo, com frequência chamadas de "Estados profundos", ou "Estados paralelos", minam e coagem os governos eleitos.

Estariam os Estados Unidos vendo a ascensão de seu próprio Estado profundo?

Não exatamente, dizem especialistas, mas os ecos são reais e perturbadores.

Apesar de vazamentos poderem ser um controle normal e saudável ao poder do presidente, o que está acontecendo agora vai um pouco além. Os Estados Unidos, alertam esses especialistas, correm o risco de desenvolver uma cultura entrincheirada de conflito entre o presidente e sua própria burocracia.

Issandr El Amrani, um analista que escreve sobre o Estado profundo do Egito, disse estar preocupado com os paralelos, apesar de os Estados Unidos não terem chegado aos extremos autoritários.

A crescente discordância entre um presidente e os funcionários de sua burocracia, ele alertou, "é perigosa, encoraja divisões profundas dentro da sociedade e cria tensões constantes".

"Como cidadão americano, considero realmente desalentador ver todas essas semelhanças com o Egito", disse El Amrani.

O que é um Estado profundo?

Apesar do Estado profundo às vezes ser discutido como uma conspiração clandestina, ajuda pensar nele como sendo na verdade um conflito político entre o líder de uma nação e suas instituições de governo.

Isso pode ser profundamente desestabilizador, levando ambos os lados a empregar poderes de Estado, como os serviços de segurança ou tribunais, um contra o outro, corrompendo essas instituições no processo.

No Egito, por exemplo, os militares e serviços de segurança minaram ativamente Mohammed Morsi, o presidente eleito democraticamente do país, contribuindo para o levante que culminou em sua derrubada em um golpe em 2013.

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, combateu o Estado profundo consolidando o poder para si mesmo e, após uma tentativa fracassada de golpe no ano passado, realizando vastos expurgos.

Apesar de a democracia americana ser resistente o suficiente para suportar esses choques, indícios iniciais de um conflito podem ser difíceis de avistar, porque algum atrito entre um presidente e suas agências é normal.

Em 2009, por exemplo, oficiais militares usaram vazamentos para pressionar a Casa Branca a respeito do que consideravam como sendo o número mínimo de tropas necessárias para envio ao Afeganistão.

Vazamentos também podem servir como um freio de emergência para políticas que funcionários acreditam que podem ser temerárias ou ilegais, como os programas da era George W. Bush de grampos sem mandado judicial e a instalação de detenção em Abu Ghraib, no Iraque.

"Você quer que essas pessoas briguem como cães e gatos a respeito de qual é a melhor política, expressem suas opiniões, defendam sua posição e então, quando tudo está terminado, aceitem a decisão e a implantem", disse Elizabeth N. Saunders, uma cientista política da Universidade George Washington. "Essa é a forma como deveria funcionar."

"Vazamento não é algo novo", ela disse, "mas este nível de vazamentos é sem precedente".

Os conflitos institucionais sob Trump, ela teme, cresceram em algo maior e mais preocupante.

Trump, aparentemente buscando cortar quase totalmente a comunidade de inteligência, o Departamento de Estado e outras agências do processo de autoria de políticas, pode ter provocado um conflito cuja escalada estamos vendo no crescente número de vazamentos.

Cultura de conflito

Os funcionários, privados de sua influência habitual na moldagem de políticas que supostamente deveriam ser sua função, ficam com pouco o que fazer exceto vazá-las. E o ritmo frenético de ordens executivas de Trump, que as agências normalmente analisariam internamente por semanas ou meses, os leva a fazerem isso repetidamente.

Eles vazaram minutas de ordens executivas, incitando reações que levaram as ordens a serem engavetadas. E revelaram esforços por parte do governo para contornar os canais habituais de autoria de políticas, minando a capacidade de Trump de implantar sua agenda.

As medidas de Trump para consolidar o poder sob sua própria autoridade, sem participação dessas agências, também as faz lutarem para manter o que consideram seu papel crucial na governança.

"Estamos em um mundo onde o presidente está exercendo o extremo de seus poderes e acho que há preocupações reais sobre as implicações constitucionais de algumas das ações que está tomando", disse Amy Zegart, codiretora do Centro para Segurança e Cooperação Internacional da Universidade de Stanford.

Isso força os funcionários das agências a se perguntarem quão longe irão. À medida que cada lado começa a se perceber como estando sob ataque e o outro tomando poder de forma perigosa, isso justificará mais e mais comportamento extremo.

"No presidente Trump, temos um presidente cujo comportamento choca ainda mais do que o conteúdo de suas políticas", disse El Amrani.

"Esse foi o caso com Morsi", ele disse, o que levou o serviço público a "vazar agressivamente" em oposição ao desrespeito de Morsi pelas normas e procedimentos burocráticos. "Estamos vendo a mesma coisa agora."

Na mesma moeda

A tendência de Trump de tratar cada vazamento como um ataque em vez de uma tentativa de influenciar as políticas criou um clima em Washington de conflito institucional aberto.

Alguns vazamentos parecem motivados mais do que por mero desacordo com as políticas, como as revelações envolvendo as conversas entre Michael T. Flynn, o então conselheiro de segurança nacional, e o embaixador da Rússia nos Estados Unidos, Sergei I. Kislyak, que levaram à renúncia de Flynn na segunda-feira.

Isso ocorreu após meses de piora nas relações entre Trump e as agências de inteligência, que ele criticou frequentemente durante sua campanha.

Trump, ao rejeitar as conclusões da inteligência de que a Rússia interferiu na eleição para ajudá-lo a vencer, deixou implícito que só aceitará inteligência que atenda aos seus interesses políticos.

O presidente planeja nomear Stephen A. Feinberg, um executivo financeiro que foi um apoiador de sua campanha, para revisar as agências de inteligência.

"Parece, soa e há a sensação de uma caça às bruxas política", disse Zegart. "É como jogar gasolina no fogo."

"O que está acontecendo aqui é que o presidente não quer nem mesmo ouvir inteligência com a qual não concorda, e salta à conclusão de que deve ser algo com finalidade política, de que deve ser algo por parte de pessoas conspirando contra ele", disse Zegart.

Ao criar a percepção de conflito, Trump pode tê-lo tornado mais provável.

Cruzando a linha

Flynn, em seu breve mandato, serviu como exemplo da ruptura entre o círculo interno do presidente e os funcionários públicos de carreira. Ele manteve o Conselho de Segurança Nacional em grande parte de fora da autoria de políticas e buscou realizar mudanças abrangentes na política externa.

Para funcionários do governo preocupados, os vazamentos podem ter se tornado uma das poucas formas restantes de influenciar não apenas as iniciativas de Flynn, mas a ameaça que ele parecia representar para o lugar deles na democracia. Isso alimentou especulação de que os detalhes do contato de Flynn com o embaixador russo podem ter sido vazados tanto para minar Flynn quanto por preocupação com sua impropriedade.

Mesmo se não for o caso, essas práticas são um risco da crescente dependência dos funcionários de vazamento e outras ferramentas de resistência burocrática. Isso leva ao risco de entrincheiramento de uma cultura de guerra burocrática, que por sua própria natureza é conflituosa e disfuncional, não exatamente um Estado profundo ao estilo turco, mas também não uma democracia saudável.

As autoridades se veem em uma posição difícil: mesmo se cada vazamento individual for justificável, à medida que a insubordinação se torna mais sustentada e aberta, isso conduz de forma cada vez mais profunda à zona cinzenta das atividades contrademocráticas.

A distinção entre interferência do Estado profundo e protesto aceitável é difícil de traçar nos Estados Unidos, disse Zegart, porque esse grau de oposição é muito incomum.

"Não acho que seja possível dizer com antecedência o que seria uma atividade imprópria de Estado profundo, porque nunca vimos isso antes", afirmou.

Em países como o Egito, disse El Amrani, a linha é muito mais clara.

Lá, o "Estado profundo não é uma rebelião das instituições oficiais", ele disse, mas sim "redes clandestinas dentro dessas instituições, e dentro de empresas, que conspiram juntas e formam instituições de Estado paralelas".

Trump, ao tratar essas instituições como se já fossem inimigas políticas, torna isso mais difícil de evitar.

Ruim para todos

Uma lição dos Estados profundos: até mesmo decisões menores se tornam alvo de disputas políticas, o que torna difícil a governança básica.

"Nós vimos no Egito em 2013 que o resultado é uma paralisia completa da tomada de decisão", disse El Amrani.

Esse é um dos resultados mais brandos. Mas quando instituições com vastos poderes de grampear, multar, molestar e deter se veem presas em uma disputa pela sobrevivência, com frequência são as liberdades civis básicas e direitos democráticos que acabam no fogo cruzado.

El Amrani não acredita que esses piores cenários venham a se tornar realidade nos Estados Unidos. Mas ainda há um risco de que a resistência burocrática contra o presidente possa se tornar uma característica duradoura da política americana. Assim que a confiança é quebrada, é difícil de ser reconstruída.

Zegart concordou. "Não há boas consequências de longo prazo aqui", afirmou. "Essa guerra entre a comunidade de inteligência e a Casa Branca é ruim para a comunidade de inteligência, ruim para a Casa Branca e ruim para a segurança do país."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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