Eleitores de Trump mostram ao presidente que eles também podem reclamar no Twitter

Katie Rogers

  • Josh Haner/The New York Times

    Eleitores de Donald Trump estão usando o Twitter para reclamar das ações do presidente

    Eleitores de Donald Trump estão usando o Twitter para reclamar das ações do presidente

Quando o presidente Donald Trump está pronto para informar ao mundo que ele está desapontado com o Serviço Secreto, o Judiciário americano, determinados jornalistas, lojas de departamentos ou qualquer outra coisa que caia em seu campo de percepção, ele usa o Twitter para atingir seus alvos.

Era só uma questão de tempo até que seus eleitores adotassem seu estilo.

"Eu votei em você, mas você ainda está agindo como um bebê", disse um eleitor da Carolina do Norte no domingo, mesmo dia em que Trump insultou o bilionário Mark Cuban dizendo que ele "não era inteligente o suficiente para concorrer à presidência".

"Quando você vai começar a agir como um presidente???", escreveu outro eleitor no Arizona naquele dia. "Nem todo pensamento precisa ser tuitado".

"Eu votei em você, mas isso é constrangedor", outro alguém escreveu na semana passada, em resposta ao tuíte do presidente que atacava a loja de departamentos Nordstrom.

Reclamações como essas estão sendo compiladas por uma conta no Twitter chamada @Trump_Regrets (algo como "arrependidos por ter votado em Trump", em tradução livre). Desde novembro, a conta, administrada por Erica Baguma, uma universitária canadense de 23 anos, ganhou mais de 220 mil seguidores ao fazer a curadoria de cerca de 1.500 mensagens, a maior parte postada por pessoas irritadas que alegam terem votado em Trump.

É fácil não dar importância ao Trump Regrets pelo fato de que, à primeira vista, ele não teria uma fonte muito confiável, uma vez que surgiu em um momento em que várias contas suspeitas existem puramente para lançar aquilo que um escritor da revista "Esquire" chama de "isca para progressistas". Algumas das mensagens são enviadas por pessoas que se escondem por trás de avatares de Pepe o Sapo, um mascote dos trolls da extrema direita e símbolo de conotação de ódio, ou de avatares de ovos sem rostos. Ovos podem ser especialmente volúveis em suas causas.

Baguma, que criou o perfil, disse em uma entrevista que ela conta com os seguidores do Trump Regrets para que lhe informem quando uma resposta for spam. Contudo, ela diz que ainda é difícil se livrar das falsificações.

Com isso em mente, o "The New York Times" procurou uma dezena de pessoas cujas mensagens haviam sido compartilhadas pela conta, e verificou seus nomes junto a registros públicos, incluindo atividades em outras plataformas de mídias sociais. As entrevistas realizadas com várias delas sugeriam que a decepção delas era real, mas que elas também não teriam votado na adversária de Trump, Hillary Clinton.

E, contradizendo o nome da conta Trump Regrets, nem todo mundo que fez uma reclamação se arrepende de ter votado em Trump.

"Você meio que aprende que não pode realmente generalizar uma população", disse Baguma. "Eu aprendi que a população é muito mais diversa do que eu esperava".

"Não é o conteúdo. É o estilo." - Jon A. Krosnick

Jon A. Krosnick, professor na Universidade de Stanford que estuda a psicologia do eleitor, disse ter ficado surpreso com quantas das mensagens do Trump Regrets pareciam focar mais no abusado estilo de liderança de Trump do que em suas políticas.

Krosnick disse que a precipitada proibição de Trump à entrada de certas nacionalidades era um ótimo exemplo.

"O que há de fascinante nisso é o fato de que as pessoas estão dizendo, 'Eu o elegi presidente e você não está agindo de forma presidencial'", disse Krosnick.

Ele acrescentou: "Existe esse componente pessoal que é parte da dor: 'Você não está magoando só o país, está magoando a mim'".

Suzanna Ferebee, 53, que trabalha como assistente pessoal em San Clemente, na Califórnia, está entre os eleitores de Trump cujas críticas foram compartilhadas pela conta. Em geral ela concorda com as políticas de Trump e votou nele porque ela quer que as coisas melhorem para a classe média. Mas, até agora, ela só sentiu vergonha pelo comportamento do presidente, como contou em uma entrevista.

"Eu olho para o meu feed do Twitter todas as manhãs e penso, 'Ai, por que você fez isso?'", disse Ferebee.

"Temos um tolo na presidência." - Debbie Nelson

Debbie Nelson, uma secretária que vive em Orland Park, Illinois, e trabalha no centro de Chicago, disse em uma entrevista que nunca gostou de Trump, mas acabou votando nele porque estava preocupada com o fato de que empregos como o dela estavam sendo terceirizados. Ela também não confiava em Hillary.

Nelson votou relutantemente em Trump - "por causa das mentiras de Hillary" - mas foi ficando desapontada com o comportamento de Trump, que ela achou que fosse mudar depois da eleição. No dia 6 de fevereiro, ela contribuiu com sua mensagem para o presidente: "Precisamos de um adulto maduro como presidente. Posso voltar atrás no meu voto?" (Para Nelson, a gota d'água foi ver Trump dizendo que as notícias e as pesquisas daquele dia eram falsas.)

Trump entrou na Casa Branca com um índice histórico de impopularidade, mas Nelson está entre os eleitores que aprovam suas políticas gerais, especialmente no que diz respeito à imigração. "Quero mais segurança, e não acho que tenha nada de errado nisso", ela disse.

Mas ela ficou frustrada com a natureza desleixada da ordem executiva de Trump de restringir refugiados e pessoas de vários países de maioria muçulmana. Essa proibição foi suspensa desde então pela Justiça, mais recentemente quando o tribunal federal de apelações rejeitou o pedido de reinstauração do decreto na semana passada.

"Eu entendo o conceito da pressa", disse Nelson, 59, "mas quando você é o presidente do mundo livre como ele é, você precisa fazer as coisas seguindo um procedimento. Não pode simplesmente fazer as coisas de qualquer jeito".

"Parecia simplesmente uma grande piada." - Chad Watson

Pessoas que tiveram suas mensagens compartilhadas pelo Trump Regrets foram rapidamente puxadas para dentro de debates com pessoas que são contra as políticas de Trump, e tendem a receber um dilúvio de críticas depois que seus tuítes são compartilhados pela conta.

Quando Chad Watson, um perito de uma seguradora para uma empresa de gestão de riscos e que vive perto de Indianápolis, tuitou seu arrependimento por ter votado em Trump no dia 8 de fevereiro, ele teria ouvido de uma mulher que ela nunca o perdoaria por seu voto.

Watson, que é gay e faz parte da diretoria de uma organização de Indianápolis pelos direitos gays, disse que havia votado em candidatos democratas para presidente, incluindo em Barack Obama, no passado. Mas, como ele colocou para um crítico no Twitter, "Eu preferia arrancar meus olhos e só beber vodca barata a votar em Hillary Clinton".

Em uma entrevista, Watson, 40, disse que nunca foi fã de Trump - "Eu realmente achei que ele não ia dar em nada" - e agora ele lamenta sua decisão de ter votado nele "como dos males, o menor", depois de ver algumas das decisões que ele tomou já no começo de seu mandato. Watson disse que recentemente ligou para o gabinete do senador Todd Young (Republicano-Indiana), para pedir que ele não votasse em Betsy DeVos, uma rica doadora republicana, para liderar o Departamento de Educação.

Watson ainda não recebeu nenhuma resposta, e hoje DeVos é secretária da Educação.

"É só um monte de politicagem para colocar os amigos deles no governo", disse Waston sobre essa nomeação.

"Trump está sempre um passo à frente da mídia." - John Tyler

Nem todos caracterizariam seus sentimentos como arrependimento. John Tyler, o eleitor da Carolina do Norte que disse a Trump que ele estava agindo como um "bebê" no Twitter, disse em um e-mail que ele ainda apoiava o presidente.

"Seu jornal e outros veículos da mídia não suportam Trump", escreveu Tyler, um corretor de imóveis aposentado que hoje canta músicas do Elvis e música gospel no YouTube. "Eu votei nele por um motivo: o ego dele é tão grande que ele não pode deixar de cumprir o que prometeu".

Tradutor: UOL

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