Como Melania Trump pode superar as expectativas como primeira-dama dos EUA

Katie Rogers

  • Stephen Crowley/The New York Times

    15.fev.2017 - A primeira-dama Melania e o presidente Donald Trump aguardam a chegada do premiê israelense Benjamin Netanyahu, na Casa Branca, em Washington

    15.fev.2017 - A primeira-dama Melania e o presidente Donald Trump aguardam a chegada do premiê israelense Benjamin Netanyahu, na Casa Branca, em Washington

Ser primeira-dama é tecnicamente uma função sem qualquer responsabilidade oficial, se descontarmos as expectativas do presidente, de sua equipe, dos eleitores dos EUA e de alguns milhares de jornalistas.

Mas, assim como seu marido, Melania Trump mostrou que está disposta a superar o que esperam dela.

Na semana passada, Melania voltou a Washington, de Nova York, pela primeira vez desde a posse de seu marido em 20 de janeiro, e indicou que ela e o filho do casal, Barron, não se mudarão para a Casa Branca antes do fim do ano escolar (no mínimo).

Que Melania possa ter uma visão um tanto cética da vida em Washington não causa completa surpresa em professores, escritores e curadores de museus que estudam as primeiras-damas. Alguns dizem que ela está no grupo de várias antecessoras que levaram tempo para encontrar seu lugar.

"Primeiras-damas de todos os tipos foram tateando o caminho até chegar à posição", disse na semana passada em uma entrevista ao "The New York Times" no Facebook Live a escritora Lisa Kathleen Graddy, curadora da exposição sobre primeiras-damas no Museu Nacional Smithsonian de História Americana. "Cada uma teve seu próprio período de adaptação, e algumas nunca se adaptaram na verdade."

Melania Trump, conheça Louisa Adams

Além de Melania, que nasceu na Eslovênia, só mais uma primeira-dama americana nasceu fora dos EUA: Louisa Adams, nascida em Londres em 1775, de pai americano e mãe inglesa. Adams, que foi mulher do presidente John Quincy Adams, teve de enfrentar uma sogra dominadora, Abigail Adams, que também havia sido primeira-dama.

Abigail "achava que a nova senhora Adams talvez fosse uma dama refinada demais para ser a mulher de um político americano", disse Graddy, a curadora. "Louisa teve de provar à sogra que era uma mulher de fibra."

Louisa Adams provou isso fazendo viagens pela Europa para acompanhar seu marido, um diplomata de carreira. Conhecida como uma anfitriã esmerada que teve um papel importante na eleição de seu marido em 1824, Louisa ficou deprimida quando eles chegaram à Casa Branca, porém. Segundo um relato, ela se distraía "comendo montes de chocolates, escrevendo poesia e peças sobre uma personagem feminina 'reprimida' que supostamente era ela mesma". As festas pararam.

Pensando bem, talvez Truman deva entrar nesta conversa

As escolhas de moda de Melania Trump tendem a provocar comparações com Jacqueline Kennedy, mas sua decisão de ficar em Nova York com seu filho levou pesquisadores a traçar paralelos mais fortes com Bess Truman.

A mulher do presidente Harry Truman nunca se adaptou à sua época na Casa Branca, preferindo fazer visitas frequentes à sua cidade natal (e a seu clube de bridge) em Independence, no Missouri. Bess Truman desempenhou a contragosto as funções necessárias, mas não gostava da vida em Washington, apesar de ter ajudado a dirigir uma reforma na Casa Branca no início dos anos 1950.

A teoria de Bess Truman era que "não era ela quem tinha sido eleita", segundo Graddy. "Portanto, o público só devia esperar dela uma certa quantidade de tempo."

A dedicação de Truman à sua filha é outra comparação forte que os pesquisadores veem em Melania Trump, que protegeu o filho da imprensa. Truman, que morreu em 1982, também se concentrou na proteção da privacidade de sua filha, Margaret, que passou grande parte da infância e toda a adolescência como filha de uma autoridade eleita. (Margaret Truman mais tarde se casou com Clifton Daniel, que trabalhou como editor-gerente e correspondente do "Times". Daniel certa vez escreveu que ele e sua mulher eram "puritanos entre os hedonistas".)

Várias outras primeiras-damas, de Eleanor Roosevelt a Michelle Obama, teriam se debatido inicialmente com o papel. Mas um exemplo moderno notável de uma primeira-dama que nunca se adaptou ao clarão da vida pública é Pat Nixon, mulher do presidente Richard Nixon, segundo Katherine Jellison, uma professora na Universidade de Ohio que estuda as primeiras-damas. Apesar de a carreira de seu marido ter sido manchada por escândalos, ela o apoiou, mas sempre discretamente.

"Até pessoas que se lembram da Presidência Nixon provavelmente não conseguem se lembrar do som da voz dela", disse Jellison. "Ela teria preferido um tipo de vida muito diferente."

Agora vamos tratar das comparações com Jacqueline Kennedy

Quando se trata de Trump e Kennedy, as comparações não param na moda. Jellison disse que Jackie adotou o papel de primeira-dama, mas tendia a proteger ferozmente sua privacidade e a de seus filhos.

"Eu acho que ela queria uma certa celebridade que acompanha a posição de primeira-dama", disse Jellison. "Mas queria em seus próprios termos, e desejava controlar sua imagem pública em maior medida do que era possível."

Carl Sferrazza Anthony, que escreve extensamente sobre o papel das primeiras-damas, recusa a ideia de que as duas mulheres terão objetivos semelhantes durante seu período na Casa Branca. Kennedy, segundo ele, trabalhava como fotojornalista e se interessava pela vida em Washington antes de conhecer seu marido, o presidente John Kennedy. Enquanto este ocupou o cargo, Jacqueline conduziu uma reforma da Casa Branca e convidava os americanos a visitar a casa em um programa especial na TV.

"Há realmente uma narrativa condutora e persistente que vai forçar a imagem de Melania Trump como a nova Jackie Kennedy", disse Anthony. "Mas Jackie era uma estudante de história."

Anthony também resumiu as credenciais de Melania: "Ela é uma mãe muita bonita e, acho eu, muito inteligente, de um menino de 10 anos".

Na verdade, a vida na Casa Branca é mais fácil que antigamente

As primeiras-damas sempre lutaram com as exigências do cargo presidencial, embora alguns exemplos mais antigos fossem mulheres que lidaram com doenças e a morte, em vez dos holofotes da mídia que acompanham uma Presidência moderna.

Jane Pierce, mulher do presidente Franklin Pierce, é um exemplo "muito trágico", segundo Jellison: seu primeiro filho, chamado Franklin, morreu poucos dias após nascer. O segundo, também Franklin, morreu quando tinha 4 anos, de tifo. O terceiro, Benjamin, foi morto em um acidente de trem durante o período entre a eleição de Pierce e o início de sua Presidência, em 1853. Benjamin tinha 11 anos.

"Ela ficou de luto durante toda a Presidência do marido e realmente preferia estar em qualquer outro lugar que não a Casa Branca", disse a historiadora.

Menos de uma década depois, Eliza Johnson, mulher do presidente Andrew Johnson, tornou-se primeira-dama depois que Abraham Lincoln foi assassinado.

"Ela sofria de tuberculose", disse Jellison, "e fez exatamente duas aparições públicas durante a Presidência de seu marido."

Por enquanto, Melania provavelmente continuará um mistério

Melania Trump deu sinais de que está interessada em contratar para a equipe da Ala Leste pessoas que possam conectá-la ao establishment de Washington, mas sua vida, no momento, continua firmemente plantada em Nova York.

Embora essa decisão tenha um alto custo para os contribuintes, vários observadores a descreveram como uma medida ousada.

"Não importa o que seu marido diga ou tenha feito, e independentemente de como ele percebe o papel das mulheres, ela está fazendo uma declaração muda de seu próprio feminismo", disse Anthony.

Kate Andersen Brower, autora do livro "First Women" [literalmente Primeiras Mulheres], disse que Melania Trump talvez não compreenda totalmente o poder de seu papel, mas que sua decisão de ficar onde estava foi "corajosa".

"É simplesmente uma posição impossível", disse Brower. "De certas maneiras, talvez Melania a esteja redefinindo para que as expectativas sejam menos injustas."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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