Por US$ 200 mil, você tem uma chance de sussurrar no ouvido de Trump em seu clube

Nicholas Confessore, Maggie Haberman e Eric Lipton*

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    13.fev.2017 - O presidente dos EUA, Donald Trump, supostamente conversa com o premiê do Japão, Shinzo Abe (de costas), e assessores, questões de segurança após ser informado sobre teste de míssil norte-coreano, em Mar-a-Lago, Flórida

    13.fev.2017 - O presidente dos EUA, Donald Trump, supostamente conversa com o premiê do Japão, Shinzo Abe (de costas), e assessores, questões de segurança após ser informado sobre teste de míssil norte-coreano, em Mar-a-Lago, Flórida

Em qualquer fim de semana, você pode encontrar o genro do presidente Donald Trump e seu principal negociador para o Oriente Médio, Jared Kushner, na máquina de sorvete na praia, ou seu recluso estrategista-chefe, Stephen Bannon, no pátio de jantar. Se você tiver sorte, o próprio presidente poderá parar junto da sua mesa para um papo rápido. Mas você terá de pagar os US$ 200 mil (cerca de R$ 600 mil) pelo privilégio --e os poucos lugares disponíveis estão acabando depressa.

Virtualmente da noite para o dia, o Mar-a-Lago, clube exclusivo de Trump em Palm Beach, na Flórida, transformou-se em capital temporária do governo americano, uma "Casa Branca de inverno" onde Trump já recebeu um chefe de Estado estrangeiro, executivos da indústria de saúde e outros convidados presidenciais.

Mas as reuniões de Trump em Mar-a-Lago --ele chegou lá na tarde de sexta-feira (17), seu terceiro fim de semana seguido de visita-- também criaram uma arena para uma potencial influência política raramente vista na história dos EUA: uma espécie de churrascaria de Washington com esteroides, situada em um playground ensolarado dos ricos e poderosos, onde sócios e seus convidados gozam de um nível de acesso que poderia desconcertar até os mais conectados lobistas.

As listas de sócios revistas pelo "The New York Times" mostram que os quase 500 membros pagantes do clube incluem dezenas de empreiteiros imobiliários, financistas de Wall Street, executivos da energia e outros cujas empresas poderiam ser afetadas pelas políticas de Trump. Pelo menos três membros do clube estão sendo considerados para uma embaixada. A maioria dos 500 são sócios desde antes da campanha presidencial de Trump, e há um número limitado de lugares vagos para sócios.

William I. Koch, que supervisiona uma grande companhia de mineração e combustíveis, é sócio de Mar-a-Lago, assim como o bilionário Thomas Peterffy, que gastou mais de US$ 8 milhões em anúncios políticos em 2012 advertindo sobre a infiltração do socialismo nos EUA.

Outro membro é George Norcross, um executivo dos seguros e chefe do Partido Democrata em South Jersey, cuja amizade com Trump data dos anos do presidente em Atlantic City, quando Norcross tinha contratos de seguros com os cassinos de Trump e este lutava com os líderes democratas do Estado sobre o tratamento fiscal dado às propriedades. Um outro membro é Janet Weiner, parte proprietária e parte diretora-financeira da empresa de bebidas energéticas Rockstar, que gastou centenas de milhares de dólares em lobby junto a autoridades federais para evitar regulamentação mais rígida sobre seus produtos.

Bruce Toll, um executivo imobiliário que é cofundador da Toll Brothers, uma das maiores construtoras de residências do país, e que continua ativo no setor, possui uma casa perto dali e frequentemente visita Trump em Mar-a-Lago, segundo ele. Embora não tenham discutido nenhum projeto específico de Toll, ele disse que os dois às vezes discutem questões nacionais, como os planos de Trump para aumentar os gastos em estradas e outros projetos de infraestrutura.

"Talvez você devesse fazer isto ou aquilo", disse Toll sobre o tipo de conselho que Trump recebe dos sócios do clube.

Um filho de Trump, Eric, em entrevista dada na sexta-feira (17), rejeitou sugestões de que sua família estivesse oferecendo acesso a seu pai e lucrando com isso. Primeiro, disse ele, só de 20 a 40 novos membros são admitidos por ano, e, segundo, os ricos executivos de empresas que frequentam o clube, entre outros, têm muitas maneiras de se comunicar com o governo federal se o quiserem.

"Isso supõe o pior de nós e de todo mundo, e é injusto", disse Eric Trump.

Hope Hicks, uma porta-voz da Casa Branca, disse que o presidente não tem conflitos de interesses, uma referência ao fato de que a lei federal o isenta de provisões que proíbem funcionários públicos federais de tomar medidas que possam beneficiá-los financeiramente.

"Mas de qualquer modo ele não discutiu nem vai discutir políticas com sócios do clube", disse ela em um comunicado por escrito.

Mar-a-Lago, acrescentou Hicks, é "um dos mais bem-sucedidos clubes privados do mundo", e "destinava-se a ser a Casa Branca sulina, e o presidente pretende hospedar muitos líderes mundiais nesta propriedade maravilhosa".

Ao contrário da Casa Branca real, entretanto, ela não tem acesso público, nem há um registro oficial de visitantes. Quando membros do corpo de imprensa da Casa Branca acompanharam Donald Trump ao clube e ao campo de golfe próximo no último fim de semana, foram abrigados durante parte da viagem em uma sala cujas janelas foram cobertas com plástico preto.

Os sócios de Mar-a-Lago, por outro lado, tiveram assentos de primeira fila para uma crise de política externa em formação, quando Trump e seus assessores se amontoaram no pátio de jantar para elaborar uma resposta ao lançamento pela Coreia do Norte de um míssil balístico de médio alcance, durante um jantar com o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, e sua mulher.

"Ninguém precisa ter um longo encontro com Donald Trump", disse Robert Weissman, presidente da Public Citizen [Cidadão Público], um grupo de vigilantes apartidário. "Se você puder sussurrar em seu ouvido durante 40 segundos, pode ser decisivo para sua política."

Koch --o irmão estranhado de seus irmãos mais conhecidos, Charles G. e David H.-- tem uma casa em Palm Beach e organizou um jantar para levantar fundos para Trump durante a campanha. Sua empresa, a Oxbow Carbon, está entre as maiores vendedoras mundiais de coque de petróleo, um subproduto do petróleo, e seria uma importante beneficiária do oleoduto Keystone XL, cuja construção é uma prioridade do governo Trump.

Brad Goldstein, um porta-voz de William Koch, disse que não sabia se os dois haviam conversado sobre questões políticas. "Se eu soubesse, a resposta seria que eu me recusaria a comentar", acrescentou ele.

Historicamente, é claro, os presidentes americanos muitas vezes foram homens ricos com mansões, que às vezes conduziam os negócios do povo em covis de fim de semana dos ricos: o complexo dos Bush em Kennebunkport, no Maine, por exemplo, ou a casa da família Kennedy em Hyannisport, em Massachusetts.

O presidente Dwight D. Eisenhower se juntava à elite no Clube de Golfe Nacional Augusta antes de ser eleito, frequentemente reunindo-se lá com um grupo de afluentes empresários que ficaram conhecidos como "The Gang" [a gangue], que incluía altos executivos da Coca-Cola e de uma companhia de petróleo, um banqueiro de investimentos e um advogado-financista-lobista.

Mas a Casa Branca de fim de semana de Trump parece ser inédita na história dos EUA, pois é a primeira cujos clientes pagam a uma empresa de propriedade do presidente, segundo vários historiadores.

"Mar-a-Lago representa uma comercialização da Presidência que tem poucos ou nenhum antecedente na história americana", disse Jon Meacham, um historiador presidencial e biógrafo de Andrew Jackson. "Os presidentes sempre se reuniram com os ricos", acrescentou ele. "Mas um clube onde as pessoas lhe pagam como presidente para passar tempo em sua companhia é novo. É meio surpreendente."

John Dean, que serviu como advogado da Casa Branca durante o governo Nixon e foi um crítico frequente de Trump, comentou que o presidente Richard Nixon costumava voar até a Flórida para ficar em uma Casa Branca de inverno anterior: uma casa particular em Key Biscayne que também recebeu esse nome. Mas era um arranjo totalmente diferente, disse Dean, pois Nixon se hospedava em uma residência particular, e não cercado por alguns dos executivos empresariais mais ricos do país.

"A maioria dos presidentes tinha uma forte opinião sobre a dignidade do cargo que ocupavam", disse dean. "Trump rompeu todas as normas na campanha e parece estar fazendo o mesmo com as tradições de seu cargo."

Um antigo sócio é Kenneth M. Duberstein, que foi chefe de gabinete da Casa Branca no governo de Ronald Reagan e que hoje trabalha como consultor empresarial e lobista. Clientes da firma de Duberstein incluem o Alibaba Group, a companhia de internet chinesa; as gigantes farmacêuticas Amgen e Pfizer; e a Dow Chemical e a America's Health Insurance Plans, que representa as maiores seguradoras de saúde do país.

Como outros membros entrevistados para esta reportagem, Duberstein disse que não trata de negócios com nenhuma autoridade do governo Trump quando visita o clube, que também fica perto de uma casa dele.

"É uma coisa social", disse ele. "Não é uma coisa empresarial."

Christopher Ruddy, executivo-chefe da Newsmax Media e um antigo doador e amigo do presidente, disse que Trump sempre conduziu uma espécie de grupo de foco informal sobre diversos assuntos, mas que, desde a eleição, passar um tempo diretamente com ele se tornou restrito aos parentes e velhos amigos.

"É um mito pensar que alguém poderia simplesmente entrar para o clube e falar com o presidente ", disse Ruddy, acrescentando que o Serviço Secreto instituiu uma cerca de fato em torno da mesa do presidente nas últimas semanas, o que vários membros do clube confirmaram.

Mas as reuniões semanais em Mar-a-Lago atraíram certa análise dos senadores democratas, que pediram para Trump divulgar a lista de todos os sócios.

"Sua Casa Branca de inverno propiciará uma audiência com o senhor para os que podem pagar, sem falar em um crescente fluxo de dinheiro para a organização dirigida por sua família", escreveram em uma carta enviada a Trump neste mês os senadores democratas Sheldon Whitehouse, de Rhode Island, e Tom Udall, do Novo México. "Em vez de drenar o pântano, parece que o senhor está levando Washington diretamente até ele em Mar-a-Lago."

Mar-a-Lago nunca foi esnobe como alguns clubes privativos em Palm Beach; com Trump, ele sempre recebeu judeus, casais gays, republicanos e democratas. (Desde que paguem a taxa de adesão, que foi dobrada para US$ 200 mil pouco depois da eleição de Trump; os sócios também pagam uma taxa anual de US$ 14 mil.) Trump passou anos povoando esse clube com pessoas rejeitadas pelos clubes rivais, enquanto também pedia que seus amigos aderissem.

Vários sócios disseram que os pronunciamentos de Trump sobre temas quentes como a imigração --e em particular sua recente medida que proíbe vistos para pessoas de certos países-- causaram algum atrito entre os sócios de Mar-a-Lago. Mas Bernd Lembcke, o diretor-gerente do clube, disse que as inscrições aumentaram desde a eleição de Trump.

"Ela reforça a coisa --sua Presidência reforça", disse Lembcke, referindo-se à afiliação ao clube. "As pessoas agora estão ainda mais interessadas em ser sócias. Mas somos muito cuidadosos na seleção." E membros potenciais devem ser patrocinados por um sócio atual, disse ele. "Você ainda precisa ser apresentado."

A lista de membros é um quem é quem do mundo das finanças e imóveis globais, mas também está salpicada de outros nomes de peso, como Howie Carr, o apresentador de rádio de Boston, e Bill Belichick, treinador dos New England Patriots, segundo as três listas revisadas pelo "Times", de 2015 até o início deste ano.

Diversos membros também são grandes contribuintes da campanha de Trump, como Ruddy e Brian Burns, um empresário e um advogado a quem Trump indicou que pretende nomear embaixador na Irlanda, segundo registros.

Um antigo membro é Richard LeFrak, um empreendedor imobiliário de Nova York e um dos amigos mais próximos de Trump, que por sua vez recrutou alguns de seus amigos para o clube. Jeff Greene, um candidato ao Senado na Flórida em 2010, disse que aderiu a pedido de LeFrak.

Mas Mar-a-Lago, onde o velho círculo de Trump em Nova York se funde com sua Presidência, é um lugar onde o presidente dos EUA poderia buscar orientação sobre um importante projeto do governo, assim como outro nova-iorquino poderia indagar sobre um bom ortopedista.

Quando LeFrak visitou Trump em Mar-a-Lago no último fim de semana, pareceu um pouco assustado quando Trump, em um breve intervalo durante a conversa, lhe disse que o Departamento de Segurança Interna está cotando um preço de mais de US$ 20 bilhões para o proposto muro na fronteira com o México.

"Ele disse: você consideraria fazê-lo? E então sugeriu que o preço que estava sendo citado na mídia lhe parecia absurdamente alto", disse LeFrak. Ele não está interessado no trabalho, mas disse: "E eu não reagi a ele de uma maneira ou de outra, porque não sei quais são os fatos".

LeFrak disse ao presidente: "Eu pensei que você fosse mandar a segurança interna tratar disso", lembrou ele, descrevendo Trump como barrado pela burocracia. "E ele disse: 'Sim, talvez o general Kelly ligue para você'."

*Kitty Bennett colaborou na reportagem.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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