Muro na fronteira entre EUA e México dividiria tribo e sua conexão a terras ancestrais

Fernanda Santos

Em San Miguel, Arizona (EUA)

  • Nick Cote/The New York Times

    Área da fronteira entre EUA e México que é parte da reserva da tribo Tohono O'odham

    Área da fronteira entre EUA e México que é parte da reserva da tribo Tohono O'odham

Os telefonemas começaram tão logo o presidente Donald Trump assinou sua ordem executiva, cumprindo sua promessa de construir um muro separando os Estados Unidos e o México.

Verlon M. Jose, vice-presidente da Nação Tohono O'odham, cuja reserva se estende ao longo de 100 km da fronteira, ouviu pessoas que conhecia e algumas de que nunca ouviu falar. Todas estavam ultrajadas e ofereciam colocar seus corpos, ao estilo protesto contra o oleoduto que passava pela reserva de Standing Rock, no caminho de qualquer construção que separe as pessoas da tribo no lado norte da fronteira daquelas no lado sul, onde vivem em seis aldeias dentro dos limites das terras ancestrais do grupo.

"Se alguém viesse a sua casa e construísse um muro na sua sala de estar, me diga, como você se sentiria a respeito?" perguntou Jose em uma entrevista na semana passada. Ele abriu os braços, como se abraçasse o solo que se estendia diante dele, uma vastidão acidentada de terra rachada, salpicada por cactos saguaro, e disse: "Este é o nosso lar".

O plano de Trump de construir um muro de 3.144 km do Oceano Pacífico até o Golfo do México terá que superar a fúria de oponentes políticos e numerosos obstáculos financeiros, logísticos e físicos, como elevadas cadeias de montanhas.

E há os 100 km pertencentes aos Tohono O'odham, uma tribo que sobreviveu à divisão de suas terras por mais de 150 anos e vê o muro do presidente como a ofensa final.

Um muro não apenas dividiria as terras tradicionais da tribo nos Estados Unidos e México, dizem seus membros. Ele ameaçaria uma conexão ancestral que resistiu mesmo enquanto barreiras, portões, câmeras e agentes da Patrulha da Fronteira se tornavam parte da paisagem.

"Nossas raízes estão aqui", disse Richard Saunders, diante de um portão de fronteira em San Miguel, por onde ele e sua mulher passam, quando está aberto, para visitar os túmulos de seus avós, a 460 metros México adentro. "Nossas raízes também estão lá, no lado sul deste portão."

Os Tohono O'odham (eles chamam a si mesmos de "povo do deserto") estão por aqui desde "tempos imemoriais", como Jose gosta de dizer. Eles e seus antepassados foram nômades na região por milhares de anos, perambulando à procura de água e comida nas montanhas e planícies.

Depois que a Guerra entre o México e os Estados Unidos e a Compra Gadsden, em 1854, delinearam de vez a fronteira, grande parte das terras da tribo ficou no atual Estado do Arizona, onde ainda controla 1,1 milhão de hectares, um território aproximadamente do tamanho do Estado de Connecticut, enquanto um pedaço menor se tornou parte daquele que atualmente é o Estado mexicano de Sonora.

A tribo conta com 34 mil membros registrados, segundo seu presidente, Edward D. Manuel. Metade vive na reserva no Arizona, 2.000 estão no México e o restante partiu para locais onde as perspectivas de emprego eram melhores. Aqueles que permaneceram trabalham para o governo tribal, em seu cassino Desert Diamond, escolas ou empresas como o Desert Rain Cafe, que serve frango glaceado com figo-da-Índia e doces feitos com o fruto do saguaro, na Main Street de Sells, a maior comunidade da reserva.

A reserva Tohono O'odham (a pronúncia é to-ro-no au-tam) é um ponto popular de travessia para imigrantes ilegais e um dos corredores mais movimentados de tráfico de drogas ao longo da fronteira sul, em parte porque o governo federal reforçou a segurança em outros pontos. Apesar da existência de uma cerca de aço de seis metros de altura na fronteira no Arizona de San Luis, no oeste, até Nogales, no leste do Estado, aqui a fronteira é mais permeável, protegida por postes e barreiras medindo cerca 2,5 metros, mas em alguma áreas afundando no solo em erosão.

A erosão é um dos obstáculos para qualquer muro. A fronteira aqui também é cortada por montanhas e leitos secos de riachos que se transformam em rios com corredeiras durante as chuvas de verão.

Os líderes tohono o'odham reconhecem que estão diante de uma genuína preocupação de segurança nacional. A tribo atendeu de modo relutante quando o governo federal buscou substituir uma antiga cerca de arame farpado por barreiras mais robustas, visando impedir veículos de trazerem drogas do México. Ela cedeu 20 mil metros quadrados para que a Patrulha da Fronteira construísse uma base com dormitórios para seus agentes e espaço para detenção temporária de imigrantes. Ela tem trabalhado com a Patrulha da Fronteira; dificilmente passa um dia sem que um morador ou policial tribal ligue para denunciar ter visto um contrabandista ou imigrante em apuros, disse Saunders, o diretor de segurança pública.

A tribo trata regularmente de imigrantes doentes em seu hospital e paga em média US$ 2.500 pela autópsia dos imigrantes encontrados mortos em suas terras, a maioria por desidratação. (Foram 85 no ano passado, disse Saunders.)

O número de apreensões na reserva também caiu, de 85 mil em 2003 para 14 mil no ano passado, segundo o departamento de segurança pública da tribo. Mesmo assim, as barreiras para veículos, instaladas em 2006, criaram novas dores de cabeça. Um fazendeiro, Jacob Serapo, costumava pegar água para sua família e gado em um poço a cerca de 100 metros de sua casa, mas as barreiras deixaram o poço do outro lado, no México. Agora ele precisa dirigir 6,5 km algumas vezes por semana até a fonte mais próxima de água no lado americano.

"Não há palavra o'odham para muro", disse Serapo. (Também não há palavra para "cidadania".)

As atuais barreiras na fronteira têm três portões que são abertos regularmente para reuniões de família e cerimônias como a Vikita, celebrada todo verão para marcar o ano novo tribal, assim como peregrinações religiosas cerca de 100 km México adentro. Aqueles que vivem no lado mexicano possuem cartões de travessia de fronteira que os autorizam a visitar o lado americano da tribo, mas não permanecer ou trabalhar nos Estados Unidos, ou sair da reserva.

A Patrulha da Fronteira tem postos de controle em cada estrada que leva para fora da reserva, onde um membro da tribo que é cidadão mexicano pode ser detido e deportado, disse Saunders.

Devido aos direitos tribais, a construção de um muro pelas terras da Nação Tohono O'odham provavelmente exigiria uma lei do Congresso, segundo Monte Mills, codiretor da Clínica de Direito Indígena Margery Hunter Brown, da Universidade de Montana.

Mas a Suprema Corte determinou que, ao considerar agir de formas que tenham um impacto sobre os nativo samericanos, o Congresso deve levar em consideração os "interesses tribais", disse Mills. Na semana passada, Manuel e Jose se reuniram com autoridades da Segurança Interna em Washington, para pedir por um assento à mesa.

Quando perguntada sobre as preocupações da tribo, Gillian Christensen, uma porta-voz da Segurança Interna, disse que a agência "está trabalhando para implantar as orientações dadas na ordem executiva (algo semelhante a uma medida provisória no Brasil) do presidente".

"Quando tivermos mais informações para compartilhar sobre os planos, nós o faremos", disse Christensen.

Se Trump tentar construir o muro sem aprovação do Congresso, o projeto poderia ser mais vulnerável a uma ação legal, disse Mills. Mesmo assim, muitos nativos americanos viram a decisão rápida do presidente em retomar as obras no oleoduto Dakota Access, que o presidente Barack Obama suspendeu após os protestos na reserva indígena de Standing Rock, em Dakota do Norte, como um sinal de que o novo governo dará menos atenção à soberania deles.

Enquanto o sol se punha, dezenas de membros tohono o'odham enchiam as câmaras do Conselho Legislativo da Casa Branca, o prédio em Sells que é sede do governo tribal, para uma reunião comunitária sobre o muro na fronteira. Lá dentro, voluntários registravam as pessoas para votar e as instruíam sobre como escrever cartas aos legisladores estaduais.

"Se erguerem um muro, isso separará nosso povo", disse a principal organizadora da reunião, April Ignacio, 34 anos, em uma entrevista do lado de fora do prédio.

Ela então levantou outra possibilidade que a encheu de temor. "Se não tivermos um muro e outras partes da fronteira tiverem, os cartéis canalizarão tudo por aqui", ela disse. "O que isso nos causaria?"

Caitlin Dickerson, em Nova York, contribuiu com reportagem.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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