Imigrantes se escondem por medo de serem capturados em "qualquer esquina" nos EUA

Vivian Yee

  • Hilary Swift/The New York Times

    Ceasar Rodríguez no restaurante de sua família, o Tamales Martita, cuja atividade caiu, em Nova York

    Ceasar Rodríguez no restaurante de sua família, o Tamales Martita, cuja atividade caiu, em Nova York

Nada de igreja, nada de mercado. Para alguns, nada de consulta no médico; para outros, nada de escola. Nada de dirigir, ponto. Não quando uma lanterna quebrada pode entregar o motorista à agência federal de imigração.

É o que está acontecendo no Vale Central da Califórnia, onde imigrantes ilegais trabalham nas colheitas para sobreviver, mas estão mantendo seus filhos em casa em vez de mandá-los à escola; em Staten Island, onde há menos trabalhadores avulsos nas esquinas buscando trabalho; no Distrito Escolar de Isaac, no oeste de Phoenix, onde 13 alunos hispânicos abandonaram a escola nas duas últimas semanas; e na região de criação de cavalos do norte de Nova Jersey, onde um dos muitos cavalariços ilegais que limpam os estábulos está pensando em voltar para Honduras.

Embora a deportação na teoria sempre tivesse sido uma ameaça para as 11 milhões de pessoas que vivem no país ilegalmente, raramente ela ameaçou aqueles que não tivessem cometido crimes graves.

Mas com o governo Trump determinada a conter a imigração ilegal —dois memorandos esboçando os planos do governo federal de acelerar as deportações foram divulgados na terça-feira, mais um passo na direção de cumprir uma das promessas de campanha do presidente Donald Trump— essa ameaça, para muitos, agora começou a afetar cada um de seus movimentos.

Isso afugentou uma família do parque do bairro onde eles costumavam jogar beisebol à noite, e jovens de um campo de futebol no Brooklyn onde jogos espontâneos já foram comuns um dia.

Isso manteve Meli, 37, que chegou a Los Angeles de El Salvador há mais de 12 anos, em um estado de prisão domiciliar auto-imposta, recusando-se a dirigir, com medo de sair de casa, imaginando como ela levará seu filho mais novo, que é autista, para consultas no médico.

"Não quero ir ao mercado ou à igreja, pois eles estão procurando em todos os lugares, e eles sabem onde nos encontrar", disse Meli, que pediu para não ter publicado seu sobrenome, por medo de ser pega. "Eles poderiam estar esperando por nós em qualquer lugar. Qualquer esquina, qualquer quarteirão."

Isso levou ondas cada vez maiores de imigrantes na Filadélfia, em Nova York, em Los Angeles e em outros lugares para as portas de advogados pro-bono e grupos de serviços jurídicos, que relatam receber as mesmas perguntas: O que eu devo fazer se for parado por um agente da imigração? Em quanto tempo posso me candidatar à cidadania se eu já for um cidadão permanente legal? Como posso designar alguém com status legal como guardião de meus filhos se eu for deportado?

"Existe um medo real de que seus filhos sejam colocados em orfanatos", disse Mary Clark, diretora-executiva do Esperanza Immigrant Legal Services na Filadélfia. "As pessoas estão nos perguntando porque elas não sabem quem procurar."

As novas políticas pedem deportações mais céleres e a contratação de 10 mil agentes da imigração, com a orientação de que eles tratem qualquer infração, não importa o quão pequena, como motivo para deportação.

Para partidários de Trump e defensores antigos de controles mais rígidos sobre a imigração, elas são uma bem-vinda iniciativa na direção de restaurar um sistema que, segundo eles, não oferecia nenhuma dissuasão para uma entrada ilegal no país. Imigrantes ilegais, na visão deles, ficaram com os empregos que pertencem aos americanos, drenaram recursos públicos e furaram a fila para os vistos pelos quais outros esperaram durante anos.

Mas para aqueles que estão ilegalmente nos Estados Unidos, o clima em Washington é um sinal de que eles devem se preparar para o pior.

No estacionamento de um shopping de rua hispânico em Austin, Texas, um casal que estava saindo junto com seus dois filhos de uma consulta com o pediatra disse que haviam escolhido um amigo com documentação para servir como guardião de seus filhos caso eles sejam deportados para o México.

"E estamos providenciando passaportes americanos para nossos filhos para que eles possam nos visitar no México", disse esse homem, um robusto funcionário de restaurante com um boné de beisebol cinza na cabeça, que viveu no Texas por 15 anos e não quis dar seu nome.

Ele disse que não tinha medo de ir embora, mas que queria estar preparado. "Se eles forem me levar", ele disse, "eles vão me levar".

Duas freiras católicas romanas que fazem parte das Irmãs de Loretto, que não quiserem ser identificadas para não colocar em risco as pessoas a quem elas servem, disseram que já estavam vendo imigrantes que elas conhecem mudando seus hábitos por medo.

Elas conhecem uma mulher que parou de sair para comprar remédios. Elas conhecem um casal, que trabalha em um restaurante, que viveu no país por 25 anos e agora está se revezando para fazer compras. Dessa forma, eles imaginam que seus filhos ainda teriam um dos pais caso o outro fosse pego.

Algumas famílias de baixa de renda em Nova York com filhos que sejam cidadãos não quiseram se reinscrever em um programa de milhares de dólares que oferece auxílio alimentar, disse Betsy Plum, diretora de projetos especiais para a New York Immigration Coalition, um grupo de ativistas.

"Tem um verdadeiro reflexo de isolamento acontecendo agora", disse Plum.

Em um domingo bom, o restaurante de tamales em Staten Island tocado por Cesar Rodríguez e sua mãe costumava faturar cerca de US$ 3 mil (cerca de R$ 9.200). Desde o começo do ano, seu faturamento médio foi de somente US$ 1.500 (R$ 4.600), e no último domingo foi de somente US$ 700 (R$ 2.140).

Rodríguez, que foi trazido a Nova York quando ele tinha 13 anos e possui uma proteção temporária de deportação obtida durante um programa do mandato de Obama chamado Deferred Action for Childhood Arrivals (Daca), disse que ele acreditava que residentes ilegais estavam poupando dinheiro caso fossem detidos.

Eles também podem estar relutantes em sair de casa por medo de agentes da imigração estarem de tocaia do lado de fora.

"Eles estão ouvindo a notícias falsas", ele disse. "Mesmo que não seja verdade, eles estão com medo."

As carteiras vazias nas salas de aula se tornaram cada vez mais comuns em Ceres, na Califórnia, uma cidade do Vale Central onde 75% dos alunos são hispânicos, de acordo com a direção da escola.

As escolas da região são cercadas por fazendas de laticínios e amendoais, que empregam predominantemente trabalhadores imigrantes. Diretores de escolas atribuíram as ausências aos pais que estavam preocupados com a possibilidade de serem identificados através dos registros escolares de seus filhos, que são cidadãos.

Em resposta, autoridades escolares pediram aos professores que assegurem aos alunos que o distrito não coleta dados sobre status de imigração.

Em alguns casos, o medo superou os fatos.

Para Graciela Nuñez Pargas, 22, que chegou ao país quando tinha 7 anos de idade e está protegida pelo Daca —que cobre imigrantes trazidos aos Estados Unidos por seus pais quando crianças—, a perspectiva de fazer seu exame de habilitação se tornou assustadora.

Apesar de pequenas infrações no trânsito terem pouca probabilidade de levar a processos de deportação, Nuñez, que vive em Seattle, estava ansiosa.

"Eles estão expandindo a definição do que é ser criminoso", ela disse. "As coisas que uma pessoa normal faria por acidente poderiam me levar de volta à Venezuela."

O Northwest Immigrant Rights Project, um grupo de serviços jurídicos sem fins lucrativos de Seattle, distribuiu milhares de cartões de visitas nos últimos dias, com conselhos a imigrantes sobre o que eles devem ou não fazer, caso um agente da polícia bata à sua porta.

"Não responda a perguntas sobre onde você nasceu ou seu status de imigração", aconselha o cartão.

O grupo também está dizendo aos imigrantes que se alguém bater à sua porta, passar um cartão por baixo da porta é aceitável.

Em um dos lados do cartão está escrito: "A quem possa interessar: antes de responder a qualquer pergunta, quero falar com um advogado".

 

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos