Uma visão de dentro da cultura de trabalho agressiva e desenfreada da Uber

Mike Isaac

Em San Francisco (EUA)

  • Money Sharma/AFP

    Travis Kalanick, CEO da Uber

    Travis Kalanick, CEO da Uber

Quando novos funcionários ingressam na Uber, lhes é pedido que adotem 14 valores centrais da empresa, incluindo apostas ousadas, serem "obcecados" pelo cliente e "sempre atuarem de modo agressivo". O serviço de carona remunerada enfatiza particularmente a "meritocracia", a ideia de que os melhores e mais brilhantes chegarão ao topo com base em seus esforços, mesmo que signifique pisar em alguém para chegar lá.

Esses valores ajudaram a transformar a Uber em uma das maiores histórias de sucesso do Vale do Silício. A empresa é avaliada por investidores privados em perto de US$ 70 bilhões e opera em mais de 70 países.

Mas o foco em pressionar pelo melhor resultado também alimenta o que atuais e ex-funcionários descrevem como um ambiente hobbesiano na empresa, na qual funcionários às vezes são colocados uns contra os outros e onde se faz vista grossa para infrações cometidas por aqueles com melhor desempenho.

Entrevistas com mais de 30 atuais e ex-funcionários da Uber, assim como análises de e-mails internos, chats e reuniões gravadas, pintam um quadro de uma cultura de trabalho com frequência sem restrições.

Entre as principais acusações dos funcionários, que testemunharam ou estiveram envolvidos em incidentes e que pediram para permanecerem anônimos, por causa dos acordos de confidencialidade ou medo de retaliação: um gerente da Uber apalpou os seios de colegas de trabalho em um retiro da empresa em Las Vegas; um diretor que gritou uma ofensa homofóbica para um subordinado durante uma discussão acalorada em uma reunião; um gerente que ameaçou bater com um taco de beisebol na cabeça de um funcionário com desempenho abaixo da média.

Até esta semana, essa cultura era apenas cochichada no Vale do Silício. Então no domingo, Susan Fowler, uma engenheira que deixou a Uber em dezembro, publicou uma postagem em blog sobre seu período na empresa. Ela detalhou uma história de discriminação e assédio sexual por seus gerentes, para a qual ela disse que o departamento de recursos humanos da Uber fez vista grossa.

Fowler disse que a cultura é incitada, até mesmo alimentada, pelas pessoas no topo da empresa.

"Parece que todo gerente está lutando contra seus pares e tentando minar seu supervisor direto, para que possa tomar o emprego de seu supervisor direto", escreveu Fowler. "Não há nenhuma tentativa por parte desses gerentes de esconder o que estão fazendo: eles se gabam disso nas reuniões, dizem isso em seus relatórios e assim por diante."

As revelações dela causaram tensão a respeito de quão inamistosos os locais de trabalho no Vale do Silício podem ser para as mulheres e provocaram uma crise interna na Uber.

O presidente-executivo da empresa, Travis Kalanick, abriu uma investigação interna a respeito das acusações e chamou uma integrante do conselho diretor, Arianna Huffington, e o ex-secretário de Justiça, Eric H. Holder Jr., para analisarem as questões de assédio e o departamento de recursos humanos.

Para conter as consequências negativas, Kalanick também deu início a uma maior transparência. Na segunda-feira, ele disse que 15,1% dos postos de engenharia, gestão de produto e científicos da Uber são ocupados por mulheres e que esses números não mudaram de modo substantivo ao longo do último ano.

Kalanick também realizou uma reunião de 90 minutos com participação de todos na terça-feira, durante a qual ele e outros executivos foram bombardeados por dezenas de perguntas e apelos de funcionários, que ficaram horrorizados ou se identificaram com a história de Fowler e exigiam mudanças.

No que foi descrito por cinco participantes como um momento emotivo, e segundo um vídeo da reunião visto pelo "New York Times", Kalanick pediu desculpas aos funcionários por conduzir a empresa e sua cultura até este ponto.

"O que posso prometer a vocês e que melhorarei dia a dia", ele disse. "Posso dizer a vocês que estou sincera e plenamente dedicado a chegar até o fundo disto."

Alguns funcionários da Uber disseram que os esforços acelerados de Kalanick foram positivos.

"Estou satisfeita com a velocidade com que Travis respondeu a isto", escreveu Aimee Lucido, uma engenheira de software da Uber, em uma postagem de blog. "Estamos agora mais bem posicionados para lidar com esse tipo de problema do que antes."

Como presidente-executivo, Kalanick há muito estabeleceu o tom para a Uber. Sob seu comando, a Uber adotou uma abordagem belicosa aos negócios, burlando as leis locais e criticando concorrentes em uma corrida para expandir o mais rápido possível.

Kalanick, 40 anos, já fez grandes exibições de ego: em um artigo na revista "GQ" em 2014, ele se referiu à Uber como "Boob-er" (uma junção de seios ao nome da empresa) pela forma como a empresa o ajudou a atrair mulheres.

Esse tom acabou se reproduzindo por toda a Uber. Pelo menos duas ex-funcionárias da empresa disseram ter notificado Thuan Pham, o diretor-chefe técnico, sobre o assédio por parte de gerentes e colegas em 2016. Uma também enviou um e-mail para Kalanick.

A Uber também enfrenta pelo menos três processos em pelo menos dois países movidos por ex-funcionários que alegam abuso sexual ou abuso verbal por parte de gerentes, segundo documentos legais vistos pelo "Times". Outros atuais e ex-funcionários disseram estar considerando uma ação legal contra a empresa.

Liane Hornsey, a diretora-chefe de recursos humanos da Uber, disse em uma declaração: "Estamos totalmente comprometidos em curar as feridas do passado e construir uma melhor cultura de trabalho para todos".

A cultura agressiva da Uber teve início em sua fundação em 2009, quando Kalanick e outro fundador, Garrett Camp, criaram uma start-up que permitiria aos clientes chamarem um táxi com pouco mais de alguns poucos toques em seus smartphones, contornando muitas das dores de cabeça que as pessoas tinham com as empresas de táxis.

Kalanick também começou a implantar aqueles que seriam os 14 valores centrais da Uber, inspirados pelos princípios de liderança de uma das maiores empresas de tecnologia de capital aberto, a Amazon.

Para crescer rapidamente, a Uber manteve sua estrutura descentralizada, enfatizando a autonomia entre os escritórios regionais. Os gerentes gerais são encorajados a serem "eles mesmos", outro valor central da Uber, e são empoderados para tomar decisões sem a supervisão intensa da sede da empresa, em San Francisco.

A maior prioridade: conseguir crescimento e atingir as metas de receita.

Apesar de a Uber ser no momento a empresa dominante de carona remunerada nos Estados Unidos e estar crescendo rapidamente na América do Sul, Índia e outros países, seu crescimento explosivo teve um custo interno.

À medida que a Uber contrata mais funcionários, sua política interna se tornou mais complicada. Para progredir, disseram funcionários, com frequência era preciso minar os líderes de departamento ou colegas.

Funcionários como Fowler que procuravam o departamento de recursos humanos para expor seus problemas com frequência eram deixados na mão. Ela e meia dúzia de outros disseram que o departamento de recursos humanos com frequência apresentava desculpas para aqueles com maior desempenho, por causa da habilidade deles de melhorar a saúde dos negócios.

Ocasionalmente, os gerentes problemáticos que eram alvo de numerosas queixas eram transferidos para regiões diferentes. Demissões eram menos comuns.

Um grupo parecia ser imune ao escrutínio interno, disseram atuais e ex-funcionários. Os membros do grupo, chamado A-Team (Equipe A) e composto por executivos próximos de Kalanick, eram blindados de responsabilidade por suas ações.

Um membro da A-Team era Emil Michael, vice-presidente sênior de negócios, que esteve envolvido em um escândalo público por comentários que fez em 2014 sobre investigar a vida privada dos jornalistas que eram contrários à empresa. Kalanick defendeu Michael, dizendo acreditar que este poderia aprender com seus erros.

A cultura de trabalho agressiva da Uber veio à tona em uma reunião geral global no final de 2015, em Las Vegas, na qual a empresa contratou Beyoncé para se apresentar no bar da cobertura do Palms Hotel.

Em meio à bebedeira e jogatina, os funcionários da Uber usavam cocaína nos banheiros nas festas privadas, disseram três participantes, e um gerente apalpou várias funcionárias. (O gerente foi demitido 12 horas depois.) Um funcionário sequestrou um ônibus privado de translado, o encheu com amigos e saiu para passear, disseram participantes.

No encontro em Las Vegas, Kalanick também deu uma palestra a respeito dos 14 valores centrais da Uber, disseram participantes. Durante a palestra, Kalanick levava ao palco funcionários que acreditava serem exemplos de cada um dos valores. Um deles foi Michael.

Desde a postagem em blog de Fowler, vários funcionários da Uber disseram estar considerando deixar a empresa. Alguns estão aguardando até terem direito a sua compensação em ações da Uber. Outros disseram que começaram a enviar currículos para concorrentes.

Outros funcionários disseram estar esperançosos de que a Uber possa mudar. Kalanick prometeu entregar um relatório de diversidade detalhando melhor o número de mulheres e minorias que trabalham na Uber, e a empresa está realizando sessões para ouvir as opiniões dos funcionários.

Na reunião geral de terça-feira, Huffington, uma integrante do conselho diretor da Uber, também prometeu que promoveria outra mudança. Segundo participantes e o vídeo da reunião, Huffington disse que não mais contrataria "babacas brilhantes".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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