Voz adolescente lidera a luta de transgêneros sobre banheiros

Sheryl Gay Stolberg

Em Washington (EUA)

  • Al Drago/The New York Times

    22.fev.2017 - Gavin Grimm (dir), que se tornou o rosto do movimento por direitos dos transgêneros, durante protesto na frente da Casa Brnaca, em Washington

    22.fev.2017 - Gavin Grimm (dir), que se tornou o rosto do movimento por direitos dos transgêneros, durante protesto na frente da Casa Brnaca, em Washington

O adolescente de óculos com blusão com capuz da União Americana de Liberdades Civis (ACLU na sigla em inglês) e calças cáqui apertava as costas contra uma cerca de aramado na Pennsylvania Avenue, sob uma placa que dizia "Não ultrapasse, só pessoal autorizado".

A Casa Branca, iluminada à noite, projetava um clarão sobre os manifestantes que haviam protestado contra o presidente Donald Trump e esperavam em fila para prestar homenagem a Gavin Grimm, 17.

Grimm parecia um pouco perplexo. "Absolutamente humilde", ele se declarou, enquanto os admiradores agradeciam por sua coragem.

Com a decisão de Trump nesta semana de abolir as proteções para estudantes transgêneros que lhes permitem usar banheiros correspondentes à sua identidade de gênero, a próxima parada é a Suprema Corte, onde Grimm --um jovem envolvente, embora ligeiramente retraído-- é o principal queixoso em um processo que poderá decidir o polêmico "debate do banheiro".

Em meio a um emaranhado de leis estaduais conflitantes e políticas de escolas locais sobre o uso dos banheiros, o processo, que coloca Grimm contra seu conselho escolar no condado de Gloucester, na Virgínia (leste dos EUA), poderia expandir em muito os direitos dos transgêneros --ou fazê-los regredir.

Trump pintou a questão como uma de leis estaduais, e os estudantes transgêneros do país já enfrentam realidades diferentes dependendo de sua escola. Alguns são restritos ao banheiro do gênero que consta em seu documento de identidade. Outros não. Depois há os estudantes como Grimm, que têm instalações separadas.

Está em jogo no caso de Grimm se o Título 9, um dispositivo de uma lei de 1972 que proíbe a discriminação "baseada no sexo" nas escolas que recebem verbas federais, também proíbe a discriminação com base na identidade de gênero. O presidente Barack Obama concluiu que sim. Apesar da ação de Trump, advogados de Grimm e do conselho escolar disseram na quinta-feira (23) que esperam que o caso siga adiante, com arguições verbais marcadas para 28 de março e autoridades escolares de todo o país aguardando os resultados.

"Ninguém estava com pressa de levar esse caso à Suprema Corte", disse Joshua Block, um advogado da ACLU que representa Grimm. "Gavin não escolheu essa luta; ela apareceu para ele. Mas agora que estamos aqui há vidas em jogo e elas estão em jogo de uma maneira que é ainda mais aguda, porque não temos mais um governo federal para nos proteger."

Para Grimm, que disse que soube que era um menino "assim que tive consciência da diferença entre meninos e meninas", o caso representa um curso intensivo em governança e relações com a mídia. Ele usa as iniciais G.G., porque é menor de idade, e o nome de sua mãe, Deirdre.

Em casa, na zona rural de Gloucester, ele é um menino que tem uma leitoa de estimação chamada Esmeralda, adora cartões de Pokemon e tem mais de 600 amigos no Facebook. Ele usa tênis de US$ 12 do Walmart e gosta de comer no Fuddruckers porque acha o nome engraçado. Ele está se inscrevendo para a faculdade, mas não quer falar sobre isso.

Mas aqui na capital e nas grandes cidades do país Grimm hoje é um tema quente, a nova face do movimento dos direitos dos transgêneros. Laverne Cox, a atriz e ativista, lhe deu um apoio público nos prêmios Grammy. ("Todo mundo, por favor, busque no Google 'Gavin Grimm'", disse ela.) Depois de sua participação aqui na noite de quarta-feira, ele foi a Nova York para participar na manhã de quinta de "The View", programa da rede ABC.

No protesto aqui na noite de quarta, ele foi o principal orador, cercado por abraços emocionados e selfies com celulares. A mãe de uma criança transgênero caiu em pranto quando o viu. Um advogado do governo apertou sua mão. Ativistas posaram para fotos.

De repente, ele ouve seu nome ser citado na mesma frase que Norma McCorvey, a queixosa do caso Roe x Wade, em que a Suprema Corte estabeleceu o direito nacional ao aborto (e que morreu em 18 de fevereiro); e Jim Obergefell, cujo caso levou à legalização do casamento homossexual.

Grimm parecia atônito diante dessa ideia. "Eu apenas espero lhes fazer justiça", disse em voz baixa.

Quando Grimm tinha 12 ou 13 anos, segundo ele, conseguiu dar um nome ao que sentia e reconhecer-se como transgênero. Ele se revelou primeiro para seus amigos, o que era mais fácil do que contar aos pais.

Para a família, foi um susto, disse sua mãe. Isso a fez questionar os pregadores --ela acabou deixando a igreja--, mas reforçou sua fé.

"Deus me deu essa criança para abrir meu coração e minha mente", disse Deirdre Grimm, que é enfermeira.

Em 2014, quando Gavin Grimm tinha 15 anos e começou seu segundo ano de colégio, a família disse à escola que ele era transgênero. Os diretores deram apoio de início e permitiram que ele usasse o banheiro dos meninos.

Mas em meio à comoção de alguns pais e alunos, e depois de duas tensas reuniões do conselho escolar, este proibiu que Gavin usasse os banheiros de meninos e adotou uma política de exigir que os jovens transgêneros usassem banheiros separados, "individuais". A escola tem hoje três desses banheiros, mas dois ficam em armários reformados, segundo Block, o advogado da ACLU.

Kyle Duncan, um advogado do conselho escolar, disse que o grupo ficou "em agonia" enquanto buscava uma maneira sensata de acomodar Grimm, enquanto protegia os estudantes que se sentiam desconfortáveis. "Essa é uma questão delicada e difícil, em que os direitos à privacidade de todos devem ser respeitados", disse ele.

Mas Block afirmou que Grimm tinha sido vítima de "discriminação sexual clássica".

Deirdre Grimm foi mais incisiva: "Este conselho escolar atacou meu filho".

O jovem nunca teve tal segurança. Antes de começar a "viver autenticamente", segundo sua mãe, ele era introvertido, muitas vezes fechando-se em seu quarto. Ela lembra que às vezes tentava enrolar seu cabelo e fazê-lo usar vestido.

Gavin Grimm é, segundo todas as medidas, o queixoso perfeito, dada a sua idade. Ele sabe evitar linhas de interrogatório indesejáveis (não fala sobre seu irmão, seus amigos ou professores) e é extremamente gentil ao responder a indagações íntimas sobre seus hábitos de banheiro ("Se eu tiver de ir, vou ao banheiro da enfermeira", disse a um repórter da TV local na quarta-feira) e suas emoções ("É incrivelmente frustrante, é embaraçoso, muito desconfortável. Eu tenho essa placa de neon sobre minha cabeça que diz que sou diferente de meus colegas.")

Mas no fundo ele ainda é uma criança. Certa vez, percorrendo os Arquivos Nacionais aqui, Gavin jogou animadamente Pokemon Go na frente da Declaração de Independência, enquanto Bill Farrar, um porta-voz da afiliada da ACLU na Virgínia, pacientemente tentava lembrar-lhe que era provavelmente "a única pessoa aqui que tem um processo legal na Suprema Corte".

Os dois se ligaram durante as horas de viagem, incluindo um percurso de Gloucester a Washington na quarta-feira.

Gavin Grimm colocou suas coisas em uma sacola branca, com um vestido no último minuto, que veio a calhar para "The View".

Como ele vai se formar neste ano, é improvável que tenha benefícios se o tribunal decidir a seu favor. E especialistas em direito dizem que é uma grande incógnita. A Suprema Corte pode decidir resumidamente, enviar o caso ao tribunal de apelações para revisão ou decidir esperar até que casos semelhantes passem pelo sistema jurídico federal.

E com apenas oito juízes no tribunal --as audiências de confirmação do juiz Neil Gorsuch, indicado por Trump para o nono assento, deverão começar em 22 de março--, talvez os juízes prefiram esperar.

"Há muitos motivos para não resolver essa questão agora", disse Carl Tobias, um professor de direito na Universidade de Richmond que acompanhou o caso.

Mas Vanita Gupta, que dirigiu a Divisão de Direitos Civis no Departamento de Justiça de Obama e ajudou a escrever a diretriz que Trump revogou, disse que o caso de Grimm já fez avançar a causa dos direitos dos transgêneros, só por aumentar a consciência.

"Houve uma grande mudança social e cultural nas pessoas deste país", disse ela, "e acho que isso só vai crescer, mesmo que haja um retrocesso jurídico."

Seja como for, Gavin Grimm parece destinado a uma vida de defesas. Ele diz que sente um grande peso defendendo outras pessoas transgênero, sabendo que todo mundo é diferente. Ele teme que outros jovens não tenham o apoio que ele teve.

Embora ele não goste muito da escola (está fazendo só os dois cursos necessários para se formar), gostaria de ser um geneticista. Quer saber como o cérebro funciona.

Mas perguntar sobre seus planos profissionais provoca uma resposta bem dele --seca e precisa: "Quero ser alguém que não precise falar sobre onde vai usar o banheiro", disse.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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