Camisinha ecologicamente correta, atóxica e vegana é vendida nos EUA

David Gelles

  • Amy Lombard/The New York Times

    Jeffrey e Meika Hollender, fundadores da Sustain Natural

    Jeffrey e Meika Hollender, fundadores da Sustain Natural

Uma dezena de funcionários da Ricky's, uma loja de artigos de beleza no centro de Nova York, se agrupou embaixo de um expositor de perucas, cercados por chapinhas, unhas postiças e kits de maquiagem empilhados até o teto. Mas naquela manhã, os vendedores se juntaram para saber mais sobre uma inusitada novidade nas prateleiras: camisinhas atóxicas, ecologicamente corretas e veganas.

Meika Hollender, cofundadora e co-CEO da Sustain Natural, falou com a multidão e exibiu seu produto. O látex das camisinhas da Sustain vem de um seringal do sul da Índia que segue os princípios do Fair Trade (Comércio Justo), ela explicou. A fábrica é movida a energia solar. E os preservativos são livres de nitrosaminas, substâncias possivelmente carcinogênicas encontradas em muitas das marcas mais populares.

"Todos estão pensando nos ingredientes presentes em sua alimentação e em seus cosméticos", ela disse. "Mas ninguém está pensando nos ingredientes que entram nos produtos que colocam nas partes mais íntimas de seu corpo".

Com a Sustain, Hollender está tentando fazer pela indústria dos contraceptivos o que marcas como a Honest Co., a Mrs. Meyer's e a Seventh Generation fizeram pelos produtos de limpeza, introduzindo alternativas totalmente naturais para itens domésticos como fraldas, sabonetes e toalhas de papel.

E não é por coincidência. Jeffrey Hollender, um dos fundadores da Seventh Generation, é pai de Meika e administra a Sustain juntamente com ela.

"Meu sonho quando mais jovem era abrir uma empresa de camisinhas com meu pai", disse em tom de brincadeira Hollender, 29, para a equipe da Ricky's.

A Seventh Generation foi um sucesso imediato, chegando a um faturamento de US$ 8 milhões (quase R$ 25 milhões) três anos depois de ter sido fundada em 1988. Mas o mercado para camisinhas é muito menor que o mercado de fraldas e sabonetes. E três anos depois de fundar a Sustain, os Hollenders estão trabalhando para superar alguns erros cometidos no começo —além de uma clientela volúvel— enquanto tentam massificar a venda de suas camisinhas ecológicas.

Hollender, 62, decidiu que queria abrir a Sustain durante uma viagem que fez com o intuito de surfar. Depois de fundar a Seventh Generation e atingir faturamentos de centenas de milhões, ele perdeu o controle da empresa e foi dispensado por seus sócios em 2010.

Enquanto estava na praia, meditando sobre o sentido da vida e pensando quais seriam seus próximos passos, ele resolveu focar nas camisinhas. Ele chegou à conclusão de que preservativos eram um produto que ainda não haviam recebido uma abordagem ecológica completa. E ele sabia que eles eram um produto inerentemente sustentável, uma vez que o látex é feito da seiva da seringueira, um recurso eternamente renovável.

Hollender queria inicialmente chamar a empresa de Rain Forest Rubbers. Meika, que estava trabalhando na indústria de bens de consumo, o convenceu a adotar um nome sugerido por um investidor: Sustain.

Para dar aos novos preservativos ainda mais autenticidade ecológica, os Hollenders focaram em eliminar as nitrosaminas. Foi descoberto que em grandes doses, as nitrosaminas, que são componentes químicos comuns presentes em tudo, desde carne processada até bexigas, são carcinogênicas. E embora somente quantidades minúsculas sejam encontradas na maior parte dos produtos, incluindo nos preservativos, a Organização Mundial de Saúde recomendou que os fabricantes de preservativos minimizassem as nitrosaminas em seus produtos.

A Food and Drug Administration monitora a presença de nitrosaminas em diversos produtos, mas não as proibiu completamente. Como resultado, elas são encontradas em pequenas doses em um amplo leque de produtos.

Os Hollenders contrataram um ex-funcionário da Durex, outra marca de preservativos, que havia descoberto como fabricar látex sem nitrosamina. E eles encontraram um seringal. Por fim, para o pequeno número de veganos estritos que procuram evitar o uso de qualquer tipo de produto animal, a Sustain removeu a caseína, uma proteína do leite comumente encontrada em camisinhas tradicionais de látex.

"Nós somos como a Seventh Generation para sua vagina", disse Meika Hollender à equipe da Ricky's.

Mas os preservativos veganos estão se mostrando como algo mais difícil de vender do que toalhas de papel recicladas. Os Hollenders procuraram mais de 25 firmas de capital de risco em busca de financiamento. Todas elas recusaram. Então os Hollenders usaram seu próprio dinheiro e recursos de amigos e parentes. Três anos depois de fundar a empresa, as vendas chegaram a US$ 1 milhão (cerca de R$ 3 milhões) por ano, e grandes lojas como a CVS e a Target estão vendendo seus produtos, mas a marca ainda precisa realmente massificar.

Coyote Amrich, diretora de compras e desenvolvimento de produtos da Good Vibrations, uma rede de sex-shops, disse que os clientes estavam perguntando pela Sustain e outras marcas ecologicamente corretas.

"As pessoas estão começando a ficar mais conscientes do ponto de vista ecológico", ela disse. "Mas isso quer dizer que todos querem saber se seu preservativo é vegano? Não".

A Sustain não é o primeiro preservativo do tipo. A Glyde, uma marca concorrente, também fabrica camisinhas veganas certificadas como Comércio Justo, uma designação usada por fabricantes para conotar práticas sustentáveis de produção. E certas variedades das grandes marcas de preservativos, incluindo Trojan, Durex e Lifestyles, também são livres de nitrosamina.

Além disso, os Hollenders passaram a ser alvo de críticas por aquilo que se descreve como alarmismo perigoso. Logo depois de fundar a Sustain em 2014, os Hollenders financiaram um relatório feito por duas ONGs, a Reproductive Health Technologies Project e o Center for Environmental Health, que avaliou os níveis de nitrosamina em preservativos. Então a Sustain deu início a uma petição para que a FDA banisse as nitrosaminas dos preservativos, e sua conta no Twitter postou um vídeo intitulado "Are Condoms Killing You" (As camisinhas estão matando você?).

A reação veio rápido, com blogueiros atacando os Hollenders e escrevendo artigos com títulos como "Cigarros Causam Câncer, Camisinhas não".

"Eles entraram na indústria dos preservativos esperando mudar o mercado, sem entender talvez que algumas pessoas já criaram esse nicho", disse Amrich. "O mercado está pronto para eles, mas eles tiveram algumas dificuldades".

Hoje Meika Hollender moderou sua mensagem. "Não estou dizendo que preservativos causam câncer", ela disse em uma entrevista.

Contudo, a Sustain ainda promove em sua embalagem o fato de que suas camisinhas são livres de nitrosaminas. "Foi com isso que os consumidores se identificaram", ela disse. "Talvez por ser um termo químico assustador".

A Sustain não vende só preservativos. Ela fabrica um lubrificante pessoal que leva aloé no lugar de petróleo em sua base, uma mudança que pode ajudar as mulheres a evitarem a vaginose bacteriana, uma desagradável infecção que pode deixar as mulheres mais suscetíveis a doenças sexualmente transmissíveis. E a empresa também está vendendo lencinhos "pós-transa", feitos de algodão e ingredientes naturais.

Este mês a Sustain está trocando suas embalagens, na esperança de turbinar as vendas. No lugar das antigas caixinhas com imagens de pedras, rios e bambus, os novos logos trazem uma ilustração de duas pessoas se beijando.

A modernização sugere que a Sustain está aprendendo, disse Amrich. "Você não vende preservativos da mesma forma que vende toalhas de papel", ela disse.

 

Tradutor: UOL

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