Ouvintes de programa de rádio nos EUA especulam se o Pé-Grande teria uma alma

Jonah Engel Bromwich e Bonnie Wertheim

  • Ivan Kashinsky/The New York Times

    George Noory, apresentador do programa de rádio "Coast to Coast" nos EUA

    George Noory, apresentador do programa de rádio "Coast to Coast" nos EUA

Quando a CIA liberou na internet centenas de milhares de arquivos secretos, no mês de janeiro, o conteúdo provavelmente parecia forçado para a maioria das pessoas. Incluídos na leva havia documentos sobre aparições de óvnis, demonstrações de habilidades psíquicas e relatos de um homem georgiano com poderes mágicos de cura.

Mas esses assuntos pareceriam quase antiquados para o apresentador de rádio George Noory e os curiosos ouvintes noturnos que acompanham seu programa de rádio, "Coast to Coast AM".

Noory, 66, apresenta o programa de difusão nacional há 14 anos a partir de seus estúdios em Los Angeles e St. Louis. Com seus 3 milhões de ouvintes semanais, o "Coast to Coast", que é transmitido toda noite da 1h às 5h da manhã, por mais de 600 estações de rádio na América do Norte, é de longe o programa de rádio noturno mais popular do país, de acordo com informações da Nielsen.

Dado o tamanho de sua audiência, poderia se esperar que o programa cobrisse temas puramente convencionais. Mas os ouvintes de "Noory, a quem ele se refere como "povo da noite", tendem a focar em conteúdos mais alternativos, sejam eles aparições de óvnis perto da Área 51 ou a miríade de teorias da conspiração que o antecessor de Noory, Art Bell, estabeleceu como marcas registradas do programa.

"A maioria dos ouvintes diurnos em geral aceita qualquer coisa que lhes seja oferecida", disse Noory.

Mas não seus ouvintes.

"Na minha opinião, o ceticismo é muito saudável", disse Noory, que se considera um libertário. "Acho que todos precisam ser céticos a respeito de praticamente tudo, até que eles façam sua própria lição de casa, façam suas próprias pesquisas ou aceitem informações de fontes nas quais eles confiam, como o 'The New York Times' ou o 'The Wall Street Journal', ou como Matt Drudge, se confiarem nele, também".

Noory trabalhou em noticiários de TV por 34 anos, como repórter, produtor e executivo em estações de Detroit, Minneapolis e St. Louis. Mas seu interesse por fenômenos inexplicáveis se desenvolveu cedo. Ele disse muitas vezes ter passado por uma experiência extracorporal quando ele tinha 11 anos de idade, e descreveu o episódio novamente em uma entrevista recente.

"Lá do teto eu olhava para baixo e via meu corpo", ele disse.

O "Coast to Coast" começou em 1984 como um programa de rádio transmitido a partir da estação de Las Vegas KDWN. Bell, seu fundador e primeiro apresentador, originalmente era DJ. Ele mudou seu foco para os programas não musicais quando os ouvintes de música começaram a dar preferência às estações FM de alta fidelidade, forçando muitos canais AM a mudarem de formato. Quando o "Coast to Coast" passou a ser nacional, em 1992, ele começou a receber telefonemas de ouvintes sobre suas experiências paranormais. Esses telefonemas logo se tornaram marca registrada do programa.

Quando Bell deixou o programa, ele aconselhou Noory a não imitar seu estilo de apresentação, que dava aos ouvintes a (correta) sensação de que ele estava fazendo a transmissão a partir de um complexo no deserto. Ele ficava isolado de sua audiência e ocasionalmente era agressivo com os ouvintes.

Em uma ligação de um homem que alegava ter trabalhado para a Área 51, Bell expôs sua suspeita na hora: "Bem, vamos começar tentando descobrir se você está usando essa linha de forma apropriada ou não". E no dia 13 de outubro de 1998, Bell se despediu dizendo: "É isso, pessoal. Estou saindo do ar e não voltarei mais". Quando Noory assumiu, depois que seu antecessor voltou e sumiu do programa mais algumas vezes, os ouvintes notaram uma mudança no tom, que de cético e às vezes critico passou a ser aberto e gentil.

"O Art era um pouco mais direto, se ele achasse que você era biruta, ele dizia", disse Veronica Costin, que começou a ouvir o programa nos anos 1990. Tornou-se um ritual para ela: viajar ao som de vozes distantes, em seu quarto na cidade de San Antonio.

"Existe uma comunidade", ela disse. "Estamos todos lá naquela escuridão. Estamos todos lá naquele silêncio".

Costin e seu marido, que morreu em dezembro, ouviam o "Coast to Coast" todas as noites, mesmo quando a saúde dele estava se deteriorando. As possibilidades que o programa levanta, como o além-mundo, foram um conforto para a dor de Costin.

"Meu marido está morto", ela disse. "Não consigo lhe dar nada que você possa escrever em um papel e provar, mas sei que ele não se foi".

Christian MacLeod de Asheville, na Carolina do Norte, é um ouvinte noturno desde 1995. Ele cresceu ouvindo histórias de seu avô sobre fenômenos inexplicáveis e assistindo ao programa de Leonard Nimoy, "In Search Of", sempre fazendo suposições.

"Posso só dar um exemplo?", disse MacLeod. "Se o Pé-Grande fosse real —você sabe onde eu vivo, muitas pessoas avistaram o Pé-Grande por aqui— se o Pé-Grande fosse real, o que isso faria com, digamos, a religião, a economia e todas essas outras coisas relacionadas? Digamos que o DNA do Pé-Grande seja meio humano. Ele tem uma alma? Isso faz você pensar".

Nolan Higdon, um professor de história e comunicação na Universidade do Estado da Califórnia, East Bay, acredita que os programas que propagam afirmações sem fundamento são potencialmente perigosos.

"As pessoas pensam que elas estão assistindo, ouvindo ou consumindo mídia, e que isso é só entretenimento", ele disse. "Mas dentro de qualquer entretenimento há determinados valores, ideias, conceitos, representações. Eles ditam coisas para você e a forma como você vê o mundo, esteja você ciente disso ou não".

Cada episódio de "Coast to Coast" começa com um segmento de notícias, mas quando lhe perguntamos se ele se via como um jornalista, Noory respondeu que ele era um "facilitador da verdade, aonde quer que isso nos leve".

Seu público parece vê-lo como uma força fidedigna e unificadora, em tempos em que o país parece estar mais fragmentado do que nunca. Através de seu programa de rádio, de eventos ao vivo e de dois sites de namoro —Paranormal Date e Conspiracy Date— ele atua como um conector e um representante para seus ouvintes, a quem ele considera como familiares. (Noory tem três filhos e seis netos, e é reservado quanto a seu status de relacionamento).

Para sustentar a aparência de imparcialidade, disse Noory, ele se absteve de votar desde que entrou para o "Coast to Coast". "Quero poder entrar no ar e dizer, 'Pessoal, não tenho um favorito aqui'", ele disse. Mas isso não o impede de fazer projeções.

No dia 27 de julho, Noory apareceu no programa de Alex Jones no site Infowars e previu que Donald Trump venceria a eleição para presidente. Jones, que é um partidário aberto de Trump, também é um teorista da conspiração que atraiu muitas críticas por, entre outras coisas, questionar se o tiroteio na Escola Primária de Sandy Hook em Connecticut não poderia ser uma farsa.

Noory disse em uma entrevista recente por telefone que ele havia notado uma mudança significativa em sua audiência e na população em geral, ao longo dos últimos 15 anos.

"Nunca vi uma época assim, com tantas pessoas chateadas, preocupadas, assustadas, irritadas com tantas coisas", ele disse. "Provavelmente é por isso que Donald Trump foi eleito. Existe um desconforto com algo iminente".

Um ouvinte que liga com frequência para o programa, Jonathan Christian Webster 3º, que se identifica como J.C. no ar, ilustra o extremo do medo que Noory ouve de seu público. As forças que, segundo J.C., estariam contribuindo para o declínio dos Estados Unidos incluem a pornografia, William Shatner e o Canadá. (Talvez não por coincidência, Shatner é nativo do Canadá.)

Noory ouve as pessoas com empatia, mesmo opiniões de figuras como Webster. Mas ele também diz acreditar que é importante questionar o que você ouve. Por esse motivo, de vez em quando ele convida para seu programa pessoas que desafiam as crenças de alguns de seus ouvintes.

Joe Nickell, pesquisador sênior do Comitê de Investigação Cética, dedicou sua carreira a explorar possíveis explicações para fenômenos misteriosos. Ele apareceu no programa algumas vezes como uma voz do ceticismo.

"O que estou tentando fazer na verdade é investigar relatos de aparições como a do Pé-Grande, de fantasmas ou qualquer outro tópico bizarro com os quais o 'Coast to Coast' lida", disse Nickell. "Tenho certeza de que se eu conseguir de fato explicar algum mistério, o desmascaramento acontece sozinho".

Noory não tem planos de se aposentar, e continua aberto a qualquer tópico que algum convidado queira apresentar à audiência do "Coast to Coast".

"Acho que tudo tem uma possibilidade", ele disse. "Por mais absurdo que possa parecer, sempre existe alguma possibilidade de ser real. Existem outras dimensões? Não sei. Mas é possível".

Tradutor: UOL

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