Na Rússia, onde o álcool mata e a vida é sombria

Neil MacFarquhar

Em Irkutsk (Rússia)

  • James Hill/The New York Times

    Zoya Mukhamadeyeva chora enquanto segura foto de seu filho, Renat, em Irkutsk, na Rússia

    Zoya Mukhamadeyeva chora enquanto segura foto de seu filho, Renat, em Irkutsk, na Rússia

A faxineira sobrecarregada percebeu que seu filho adulto não estava dormindo após sua ressaca habitual na cidade siberiana de Irkutsk, mas sim que, para seu horror, ele tinha ficado cego.

Mesmo com a deterioração de sua condição e fala arrastada, o homem, Renat V. Mukhamadeyev, 31 anos, dissuadiu sua mãe viúva de chamar uma ambulância até a meia-noite.

Levado ao pronto-socorro do próximo Hospital Nº 8, àquela altura um hospício infernal de mortos e moribundos, ele entrou em coma e morreu no dia seguinte, uma de pelo menos 76 vítimas de envenenamento em massa por álcool.

Para muitas pessoas de fora, incluindo o presidente Donald Trump e seu círculo interno de conselheiros, a Rússia está em alta, se pavoneando pelo mundo. Ela emprega sua força tanto de forma aberta, com o envio das forças armadas para a Ucrânia e a Síria, como de forma velada, interferindo na política na Europa e nos Estados Unidos por meio de uma campanha sustentada de propaganda e ciberguerra.

Mas em casa, o quadro é decididamente mais sombrio.

Desde a queda dos preços do petróleo em 2014 e as sanções impostas pelo Ocidente pela tomada da Crimeia e do leste da Ucrânia, a Rússia está atolada em uma recessão implacável que reduziu os padrões de vida por todo o país.

Para muitas pessoas, isso significou esgotar as economias, cortar itens caros como carnes e peixes, cultivar seus próprios hortifrútis e, tragicamente, no caso de Irkutsk, comprar substitutos baratos para a vodca.

A maioria dos afetados em Irkutsk iniciou aquela noite de sábado de dezembro como Mukhamadeyev, indo a um quiosque local ou pequena loja de esquina para comprar "boyaryshnik", "espinheiro" em russo, o que dá ao produto um falso ar de compreensão do que realmente se trata. O rótulo o chama de óleo de banho e alerta contra beber seu conteúdo, mas é de conhecimento geral de que é produzido especificamente como vodca dos pobres.

"Todo mundo bebe por ser a mais barata", disse chorando Zoya Mukhamadeyeva, 59 anos, a mãe de Renat, beijando às lágrimas as fotos de infância de seu único filho.

O bairro de classe operária de Novo-Lenino, onde vivia grande parte das vítimas nesta capital provincial, a cerca de 4.200 km ao leste de Moscou, é de muitas formas um retrato da crescente pobreza na Rússia.

"A situação é típica em todo o país. Por acaso aconteceu aqui", disse Yuri Pronin, editor do "Baikalskiye Vesti", um jornal semanal independente.

Não deveria ser assim. Durante os 16 anos em que Vladimir Putin serviu como presidente ou primeiro-ministro da Rússia, o padrão de vida vinha melhorando aos poucos no bairro, apesar de crescido muito em cidades como Moscou e São Petersburgo. Os cinzentos blocos de prédios de apartamentos de cinco andares soviéticos deram lugar a prédios coloridos de 10 andares, construídos em torno de playgrounds atraentes.

Carros importados lotavam os estacionamentos. Pizzarias e academias disputavam os rublos excedentes dos moradores.

Ao impor ordem na economia e reduzir as liberdades políticas e de imprensa, Putin prometeu em troca uma vida melhor para todos os russos, estabelecendo uma série de metas para 2020.

Pelo menos 60%, talvez até mesmo 70%, dos 143 milhões de habitantes da Rússia ingressariam na classe média. A média salarial subiria para 40 mil rublos por mês (mais de US$ 1.000 na época, menos de US$ 700 na atual taxa de câmbio). Os russos viveriam mais, com a expectativa de vida tanto para homens como para mulheres chegando a 75 anos.

Durante a recessão, esses e outros índices referenciais recuaram.

Em todo o país, as fileiras de pessoas que se consideram de classe média caíram para cerca de 50%. A média salarial de 36.703 rublos teria que ser de 55 mil rublos em 2017 para atingir a meta de Putin. Na região de Irkutsk, o número de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza (oficialmente 10 mil rublos por mês, cerca de US$ 170, ou R$ 520) subiu de 17%, antes da crise, para cerca de 20%.

Na Sibéria, os moradores tradicionalmente brindam nos aniversários "à saúde siberiana", como se o clima severo forjasse uma constituição mais robusta. Na verdade, as pessoas na região de Irkutsk morrem em média aos 67 anos (59 para os homens) em comparação a 77 anos em Moscou. O clima e a bebida, assim como os serviços médicos de qualidade inferior, cobram seu preço.
 

James Hill/The New York Times
Lena, vendedora no bairro de Novo-Lenino, em Irkutsk; seus produtos alcóolicos foram vistoriados após as mortes

A população geral de Irkutsk também está encolhendo.

"As pessoas discutem constantemente a falta de perspectivas aqui", disse Mikhail Rozhansky, chefe do Centro para Educação e Pesquisa Social Independente.

Apesar de os apartamentos modernos e novos carros darem a Novo-Lenino um verniz de prosperidade, as pessoas têm pouco trabalho e economias cada vez menores, disse Andrei Kolganov, que abandonou uma carreira em Moscou para se tornar um palhaço no bairro, transformando isso em um bem-sucedido centro de entretenimento para crianças. Os problemas começaram depois de 2014.

"A maioria das pessoas neste bairro bebe álcool ilegal", disse Kolganov durante um tour improvisado. "Dá para ver que as pessoas não vivem tão mal. Mas elas não têm trabalho, ninguém precisa delas, então elas bebem. É uma tradição russa."

Até mesmo alguns moradores locais ficaram chocados com o número de pessoas de situação aparentemente confortável que beberam o álcool envenenado (enfermeiras, professores, motoristas), pessoas com salário garantido, mesmo que baixo. Algumas vítimas simplesmente caíram na rua, disseram moradores, enquanto outras foram descobertas dias depois em seus apartamentos.

"Todo mundo sabia que não era óleo de banho. O rótulo visa apenas afastar a fiscalização", disse Kolganov. "O que realmente chocou as pessoas é que aqueles que morreram queriam aparentar que estavam em boa situação, mas não tinham dinheiro para comprar uma vodca decente."

Apesar de vendida sob diferentes nomes por décadas, até mesmo em máquinas de vendas, o produto básico continua o mesmo. Boyaryshnik vem em uma garrafa de 250 ml com quase 95% de teor alcoólico que custa cerca de US$ 1 (cerca de R$ 3) e pode ser diluída para criar uma garrafa normal do que se considera vodca. Uma garrafa de 500 ml de vodca legal, com todos os impostos do governo pagos, custa cerca de cinco vezes mais.

Após o envenenamento em massa, os investigadores descobriram que produtores ilegais preparam um lote de boyaryshnik usando metanol em vez de etanol. Até mesmo uma pequena dose de metanol é fatal, pois destrói o sistema nervoso central, incluindo o nervo óptico.

Naquele domingo, ao ver seu filho praticamente em coma, Mukhamadeyeva, que equilibra três empregos de faxineira, chamou um médico que mora no prédio. Ele descobriu que Renat tinha ficado cego sem dizer nada.

Mais tarde naquela noite, Mukhamadeyeva disse, ela encontrou o caos no pronto-socorro. Enquanto seu filho era levado para a unidade de terapia intensiva, ela disse, quatro cadáveres eram retirados de lá. Ao ser instruída para esperar, ela viu uma mulher em uma maca morrer diante do balcão de atendimento.

"Médicos corriam de um lado para outro, mas pareciam não ter nada a fazer", ela disse. Não há antídoto para metanol, mas alguns dos 123 afetados no geral, segundo um levantamento oficial, sobreviveram. Outro álcool que beberam aparentemente diluiu o metanol.

Antes mesmo do envenenamento, os vendedores em Novo-Lenino notaram que os moradores tinham ficado mais pobres. Os consumidores passaram a comprar mais repolho e macarrão, e menos carne. Qualquer hortifrúti com desconto era vendido primeiro.

Isso espelha as mudanças por todo o país. Após dois anos de recessão e o preço dos alimentos ter dobrado, segundo os consumidores, as estatísticas indicam que o russo médio está comendo menos carne, peixe, derivados de leite e açúcar, enquanto o consumo de batata, melão e vegetais aumentou. Cerca da metade de todos os russos cultiva uma parte de seus próprios hortifrútis.

James Hill/The New York Times
Homem vende frutas, legumes e perna de porco em mercado de Irkutsk que foi fechado após onda de mortes

Até a tragédia da vodca, ninguém protestava pela situação econômica difícil.

"Todos víamos as dificuldades como sendo temporárias", explicou Alexander Rasstrigin, um empresário de cintura larga que é dono do mercado Progress Plus.

"Antes das sanções, as pessoas viviam bem", ele disse. "Elas tomavam empréstimos. Estavam confiantes com o amanhã. Compravam carros. Estavam certas de que haveria estabilidade."

Agora parece que todos só podem comprar a metade ou menos do que compravam antes. Os pensionistas em particular contam cada moeda, disse Rasstrigin.

"Compramos menos coisas extras", ele disse. "Não posso pagar por queijo caro. Não posso pagar por uma boa kielbasa (linguiça). Não compro doces."

O envenenamento provocou até mesmo um raro protesto, mas apenas entre vendedores irritados depois que os tratadores da prefeitura demoliram suas 30 bancas no mercado. Eles se sentiram transformados em bodes expiatórios pelo comércio de vodca ilícita, que a polícia há muito tolera, se não controla.

A boyaryshnik foi então proibida (ao menos temporariamente) e cerca de duas dúzias de policiais locais, burocratas e comerciantes foram detidos, mas nenhum grande fornecedor.

Ao ser perguntado sobre os envenenamentos em uma coletiva de imprensa, Putin criticou os "órgãos de fiscalização" por terem falhado em prevenir a tragédia, mas no final culpou estrangeiros não identificados. Como os especialistas estimam que o mercado de bebidas ilegais representa 20% do mercado nacional de bebidas alcoólicas, ninguém espera que ele desaparecerá tão cedo.

Descrevendo seu protesto posteriormente, um pequeno grupo de mulheres se agitou. "Deixe que as pessoas vejam como Putin realmente dirige este país, que vejam como os pobres realmente vivem!" gritou uma.

Tatyana, uma vendedora de peixe baixa e robusta de 58 anos, disse que vivia com uma pensão de cerca de US$ 133 (cerca de R$ 400) por mês. Ela come normalmente uma semana por mês, ela disse, então passa o restante do mês a pão e manteiga.

"Nós sofremos enquanto as pessoas no poder comem caviar às colheradas", ela disse, imitando uma pessoa enfiando uma colher na boca.

"Colherada?" zombou Elena, outra vendedora de hortifrútis. "Eles se entopem de baldes disso!"

Em uma curiosa dinâmica russa, elas evitavam culpar Putin pessoalmente.

"O presidente diz que as pequenas empresas devem ser protegidas, mas os burocratas dos escalões inferiores continuam cometendo seus crimes e, como resultado, todos acabamos desempregados", disse Rasstrigin.

As comerciantes estavam convencidas, como os russos há séculos, de que se o czar tomar conhecimento de seu apuro, ele com certeza interviria. "Conte para Moscou, conte para Putin, que eles estão fechando o mercado", implorou Elena.

A expectativa é de que Putin conquiste um quarto mandato presidencial em 2018, o que lhe asseguraria mais seis anos no cargo. Suas promessas não cumpridas, como o aumento da expectativa de vida, não entram no cálculo da maioria dos eleitores, disseram analistas.

Os russos mais velhos, em particular, continuam gratos por Putin ter colocado um fim ao caos e falta de lei dos anos 90, enquanto no geral ele fez os russos se sentirem melhores a respeito de si mesmos e da posição de seu país no mundo.

"Gosto de Putin. Ele é um bom czar e a Rússia precisa de um czar", disse Kolganov, o empresário, destacando que queria evitar excesso de críticas ou elogios.

"Ele está nos protegendo. Como poderíamos dizer algo contra ele?" ele acrescentou. "Se ele não fez algumas das coisas que prometeu, bem, como alguém poderia fazer tudo?"

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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