EUA desconfiam de construção de base chinesa vizinha na África

Andrew Jacobs e Jane Perlez

Em Djibuti

  • Tony Karumba/AFP

    Refugiados iemenitas recém-chegados ao campo de refugiados construido pela ONU em Djibuti

    Refugiados iemenitas recém-chegados ao campo de refugiados construido pela ONU em Djibuti

Os dois países mantêm dezenas de mísseis nucleares intercontinentais apontados para as cidades um do outro. Suas fragatas e caças ocasionalmente se enfrentam nas águas contestadas do Mar do Sul da China.

Apesar de não terem uma fronteira comum, China e Estados Unidos em grande parte circundam um ao outro de longe, empregando satélites e ciberespionagem para espiar o funcionamento da máquina de guerra um do outro.

Mas os dois rivais estratégicos estão prestes a se tornar vizinhos neste trecho seco de deserto no Leste da África. A China está construindo sua primeira base militar no exterior em Djibuti, a apenas poucos quilômetros de Campo Lemonnier, uma das maiores e mais importantes instalações estrangeiras do Pentágono.

Com o aumento das tensões em torno dos esforços da China de construção de ilhas artificiais no Mar do Sul da China, estrategistas americanos temem que uma base naval tão próxima de Campo Lemonnier possa proporcionar um assento de primeira fila para as preparações de operações de contraterrorismo americanas na Península Árabe e no Norte da África.

"É como ter um time de futebol adversário usando um campo de treinamento adjacente", disse Gabriel Collins, um especialista em forças armadas chinesas e fundador do portal de análise China SignPost. "Eles podem espiar algumas de suas jogadas. Por outro lado, isso vale para ambos os lados."

Além das preocupações de vigilância, as autoridades americanas, citando bilhões de dólares em empréstimos chineses ao governo altamente endividado de Djibuti, se perguntam sobre a durabilidade de longo prazo de uma aliança que serviu bem a Washington em sua luta global contra o extremismo islâmico.

Igualmente importante, disseram especialistas, a construção da base é um marco nas ambições de expansão global de Pequim, com implicações potenciais para o predomínio militar de longa data americano.

"É um desdobramento estratégico imenso", disse Peter Dutton, professor de estudos estratégicos da Escola de Guerra Naval em Rhode Island, que estudou imagens por satélite da construção.

"É uma expansão do poder naval para proteção do comércio e dos interesses regionais da China no Chifre da África", disse Dutton. "Isso é o que fazem as potências expansionistas. A China aprendeu as lições com o Reino Unido de 200 anos atrás."

Argumento a favor do novo porto

As autoridades chinesas minimizaram a importância da base, dizendo que ela fornecerá em grande parte apoio às operações antipirataria, que ajudaram a subjugar a ameaça ao transporte marítimo internacional antes representada pelos piratas somalis.

"A instalação de apoio será usada principalmente para fornecer descanso e recuperação para as tropas chinesas que participam das missões de escolta no Golfo de Áden e águas além da Somália, das forças de paz da ONU e de operações de resgate humanitário", disse o ministro da Defesa de Pequim em uma resposta por escrito a perguntas.

Além de ter 2.400 tropas nas forças de paz na África, a China tem usado suas embarcações para escoltar mais de 6.000 navios de muitos países pelo Golfo de Áden, disse o ministério. Os militares chineses também tiraram seus cidadãos de locais problemáticos do mundo. Em 2011, os militares retiraram 35 mil da Líbia, assim como 600 do Iêmen em 2015.

À medida que a Marinha chinesa assume esses novos papéis longe de casa, seus comandantes tem tido dificuldades para realizar a manutenção das embarcações e reabastecê-las de alimentos e combustível.

O capitão Liu Jianzhong, um ex-comissário político de um destróier chinês que navega no Golfo de Áden, disse que a falta de um porto dedicado na região cobra um preço caro às tripulações forçadas a passar longos períodos no mar.

"Não desembarcávamos por seis meses e muitos marinheiros apresentavam problemas físicos e psicológicos", ele disse para o site estatal China Military Online. Para isso, a nova base incluirá uma academia de ginástica, disse o ministério.

Dutton disse que Pequim provavelmente tentará "acostumar" o mundo utilizando a instalação para fins comerciais quando começar a funcionar neste ano, e então aumentará gradualmente o número e variedade de navios de guerra aportados lá.

"Será um posicionamento relativamente incremental de poder naval. Você não verá algo como Yokosuka", ele disse, referindo-se à base da 7ª Frota dos Estados Unidos no Japão.

Em suas respostas por escrito, o ministério disse que a China não está se desviando de sua política militar "defensiva" e que a base não indica uma "corrida armamentista ou expansão militar".

Uma instalação de prédios baixos construída adjacente a um novo porto comercial de propriedade chinesa, a base de 37 hectares visa abrigar vários milhares de tropas e incluirá estruturas para armazenamento de armas, instalações de reparos de navios e helicópteros, e cinco ancoradouros para navios comerciais e um para militares.

Recentemente, no portão da frente da base, operários chineses usando capacetes de construção acenavam para que o repórter que tentava fazer perguntas se afastasse. O Ministério da Defesa da China rejeitou o pedido para uma visita ao local.

As autoridades americanas disseram ter sido pegas de surpresa pela decisão de Djibuti, anunciada no ano passado, de concessão por 10 anos das terras aos chineses. Apenas dois anos antes, Susan Rice, a conselheira de segurança nacional do presidente Barack Obama, voou para Djibuti para impedir um acordo semelhante com a Rússia.

Logo depois, a Casa Branca anunciou uma renovação por 20 anos de sua concessão, que dobrava os pagamentos anuais pelo Campo Lemonnier, para US$ 63 milhões, assim como um plano para investir mais de US$ 1 bilhão na atualização da instalação.

Influência financeira

Em entrevistas, as autoridades djibutienses expressaram pouca preocupação com o fato de dois adversários estratégicos compartilharem espaço em um país do tamanho do Estado americano de Nova Jersey.

Ajuda o fato de os chineses estarem pagando US$ 20 milhões por ano pela concessão, além dos bilhões que eles gastam no financiamento de obras fundamentais de infraestrutura, incluindo portos e aeroportos, uma nova linha férrea e uma aqueduto que trará água potável desesperadamente necessária da vizinha Etiópia.

Os críticos dizem que o aumento de empréstimos, que chegam a 60% do produto interno bruto do país, aumenta a preocupação com a influência da China sobre Djibuti caso este não consiga fazer os pagamentos de sua dívida.

"Tamanho crédito generoso é por si só uma forma de controle", disse Mohamed Daoud Chehem, um proeminente crítico do governo. "Não sabemos quais são realmente as intenções da China."

Mas nas ruas de terra e esburacadas da cidade de Djibuti, a maioria das pessoas está feliz em ver a China se juntar ao clube de meia dúzia de forças armadas estrangeiras com presença aqui, entre elas as do Japão, Itália e Reino Unido. Também há um grande contingente de soldados franceses que permaneceu aqui após 1977, quando a colônia antes conhecida como Somália Francesa ganhou sua independência.

Abdirahman M. Ahmed, que dirige a Djibuti Verde Internacional, um empreendimento ambiental social, disse que muitas pessoas veem os militares estrangeiros como uma força estabilizadora, dado o tamanho diminuto do país, sua falta de recursos e ameaças potenciais de vizinhos como Etiópia, Somália e Eritreia, onde sentimentos expansionistas continuam fervilhando.

"Não vemos nenhum problema em termos os chineses aqui", ele disse. "Eles proporcionam receita e ajudam a exercer um papel de dissuasão àqueles que adorariam anexar o Djibuti."

A abundância de tropas estrangeiras, alguns dizem, também serve como baluarte contra a violência jihadista que desestabilizou outros países da região.

O Djibuti, cuja população de 900 mil habitantes abraça uma forma moderada do Islã sunita, não foi totalmente poupado: em 2014, um duplo atentado a bomba suicida em um restaurante do centro, popular entre estrangeiros, matou um cidadão turco e feriu 11 pessoas.

O Shabab, o grupo militante com base na Somália, reivindicou posteriormente a responsabilidade, dizendo que o ataque foi motivado pela presença de tantas tropas ocidentais no Djibuti.

Para estrategistas militares americanos, as implicações de segurança da base chinesa ainda não são claras, apesar de que em termos práticos, muitos especialistas dizerem que a ameaça militar é mínima.

"Um porto como esse não é muito defensável contra um ataque", disse Philip C. Saunders, diretor do Centro para o Estudo de Assuntos Militares Chineses, da Universidade de Defesa Nacional, referindo-se à operação chinesa. "Ela não duraria muito em uma guerra."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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