Suécia, uma nação de braços abertos, debate as implicações da imigração

Martin Selsoe Sorensen

Em Malmo (Suécia)

  • Gordon Welters/The New York Times

    Distrito de Rosengard, em Malmo, na Suécia, que possui uma grande população de imigrantes e tem índices relativamente altos de criminalidade

    Distrito de Rosengard, em Malmo, na Suécia, que possui uma grande população de imigrantes e tem índices relativamente altos de criminalidade

Passaram-se apenas três anos desde que ela veio da Síria para a Suécia, mas Hiba Abou Alhassane já diz "nós" quando fala sobre seu novo país.

"Será que nós, quero dizer a Suécia, recebe refugiados demais? Será que deveríamos fechar a fronteira?" ela ponderou nesta semana, após os comentários do presidente Donald Trump de que as políticas de imigração da Suécia fracassaram. "Já aconteceu. As pessoas não estão mais vindo."

De muitas formas, Alhassane é um exemplo perfeito da antiga crença da Suécia da justiça de abrigar e ajudar a apoiar os imigrantes e refugiados. Ela trabalhou arduamente para se integrar. Já falando sueco de modo quase fluente, ela leciona em duas escolas primárias locais.

Mas recentemente os suecos também se viram questionando a sabedoria de sua generosidade para com forasteiros necessitados, e seus limites potenciais, levando ao debate mais duro no país a respeito da imigração.

Alguns moradores veem o debate como uma chance revigorante de expressar antigas preocupações com a imigração e seus efeitos. Outros o veem como racista e redundante, já que a Suécia já está mudando suas políticas de imigração.

Os suecos não estão correndo para uma abordagem linha-dura como a de Trump para a imigração, nem estão prontos para descartar os valores humanitários do país em relação ao acolhimento de refugiados, valores que estão firmemente enraizados na psique nacional.

Até um ano e meio atrás, a Suécia oferecia proteção vitalícia, juntamente com reunificação da família, para pessoas consideradas refugiadas legítimas. Em 2015, cerca de 163 mil pessoas vieram e buscaram essa proteção, e o simples número levou este país de cerca de 10 milhões de habitantes a endurecer as regras. A proteção agora está sujeita a revisão após um ou três anos e reunificação familiar está mais difícil, tornando a Suécia menos acessível e menos atraente para os imigrantes.

"A Suécia tem sido a maior recebedora de requerentes de asilo per capita na Europa e se orgulha de sua abordagem humanitária para a imigração", disse Daniel Schatz, um acadêmico visitante do Instituto Europeu da Universidade de Columbia. "Durante a Guerra no Iraque, Sodertalje, uma pequena municipalidade sueca, recebeu mais refugiados iraquianos do que os Estados Unidos e o Reino Unido somados."

"A Suécia está experimentando um choque de ideais", ele acrescentou. "Apesar do país buscar manter um ideal humanitário, preocupações públicas com a imigração começaram a alterar as políticas da Suécia tradicionalmente liberal, visando endurecimento dos controles de imigração e políticas mais restritivas. O debate sobre a imigração é, portanto, muito pessoal para muitos suecos."

Trump não é a única pessoa apontando para o que considera como consequências perturbadoras da imigração para a Suécia. Neste mês, um investigador experiente do departamento de polícia em Orebro, Peter Springare, causou agitação com uma postagem no Facebook na qual discutia os casos em sua mesa.

"O que estou cuidando de segunda a sexta nesta semana: estupro, estupro, estupro grave, estupro com agressão, chantagem, chantagem, agressão no tribunal, ameaças, ataque contra a polícia, ameaças contra a polícia, drogas, drogas sérias, tentativa de homicídio, mais estupro, mais chantagem e abuso", disse Springare. Ele prosseguiu listando os primeiros nomes das pessoas que disse serem suspeitas, e todos, exceto um, eram tradicionalmente do Oriente Médio.

A postagem, que foi compartilhada 20.500 vezes, levou a uma enxurrada de apoio. As pessoas enviaram centenas de flores à delegacia de polícia de Springare e mais de 170 mil se juntaram ao grupo no Facebook que o apoia.

Mas tanto seus superiores quanto policiais de outros departamentos disseram não reconhecer sua descrição e que os níveis nacionais não corroboram suas alegações.

Manne Gerell, um professor de criminologia da Universidade de Malmo, disse que mais imigrantes do que suecos cometem crimes, mas os números exatos são difíceis de determinar. E nacionalmente, ele disse, o desequilíbrio não é tão grande quanto Springare sugeriu.

Mesmo assim, parece que as frustrações em torno da questão estão se disseminando.

Em 2014, o Partido Democrata Sueco anti-imigrantes conquistou 12,9% dos votos nas eleições parlamentares, o transformando no terceiro maior partido do país, em comparação a apenas 2,9% dos votos oito anos antes.

"Rejeitada pelos principais partidos, a posição deles está cada vez mais tendo apelo junto a alguns eleitores", disse Schatz.

Parte do progresso do partido tem a ver com as percepções de criminalidade dos cidadãos, uma questão significativa em Malmo, a terceira maior cidade da Suécia, com cerca de 350 mil habitantes.

Ela é chamada com frequência de "Chicago da região nórdica". A referência não se deve à sua costa gelada e ventosa. A taxa de homicídios em Malmo é a maior entre os países escandinavos: 3,4 ao ano por 100 mil habitantes, em comparação a 1,3 em Estocolmo, a capital.

Isso rendeu a Malmo uma reputação desagradável muito além das fronteiras suecas, mas a avaliação carece de contexto: a taxa de homicídios de Chicago foi de 28 por 100 mil habitantes no ano passado, e a de Saint Louis foi de 59, segundo uma análise. Um assassinato em Malmo continua sendo tão raro que ainda gera manchetes em todo o país.

Mais de 40% dos moradores de Malmo ou seus pais são nascidos no exterior, um fato frequentemente associado aos índices de criminalidade da cidade, mas Gerell, o criminologista, disse que a correlação não é clara, e mesmo que fosse, a imigração não é o único fator que contribui.

"A imigração muito provavelmente contribui para os índices de criminalidade", ele disse. "Mas temos muitos, muitos pobres vivendo em áreas pobres, de modo que não se trata apenas de imigração. Dito isso, a pobreza não necessariamente causa crime, mas quando há muitos problemas sociais, também haverá muitos outros problemas."

Até mesmo antigos imigrantes reconhecem que a integração sem sempre é fácil e que a Suécia precisa de um debate mais robusto sobre o que deu errado e o que pode ser feito para melhorar.

Maher Dabour, que chegou à Suécia vindo do Líbano nos anos 80, disse que o principal problema está na forma como os imigrantes são ensinados sobre as diferenças sociais.

"Eles não conseguem nos explicar como ser cidadãos", ele disse. "Em termos legais, não é difícil, e são mais que generosos, mas não basta dar dinheiro."

Trinta anos após deixar o Líbano, Dabour dirige um Volvo e prende o cinto de segurança instintivamente como um sueco, mas quebra a tradição e fuma sem parar.

Ele disse que os suecos construíram uma sociedade baseada no respeito do indivíduo ao Estado, disciplina e regras, mas que muitos recém-chegados não têm respeito ou confiança nas autoridades do governo, mas maior respeito pela família e anciãos.

"As autoridades dizem que tudo está OK e em ordem, mas não é verdade", disse Dabour. "Nós precisamos ter uma discussão aberta e honesta sobre os problemas", ele acrescentou, referindo-se ao crime entre imigrantes.

Em Malmo, o distrito de Rosengard há anos é considerado pela polícia como sendo de alta criminalidade, apesar de ter melhorado recentemente. Ele é lar de 25 mil pessoas, 86% delas de origem estrangeira. Imóveis de aluguel baixo se amontoam em torno de um shopping center, onde as lojas têm nomes como Noor, Najib e Orient Musik.

"Tentamos não nos focar nos problemas", disse Maria Roijer, bibliotecária-chefe da biblioteca pública. Ela tenta atuar como uma ponte entre as muitas nacionalidades de Rosengard e a sociedade sueca.

Roijer disse que muitas pessoas de origem estrangeira vêm à biblioteca para participar do café de língua, visando praticar seu sueco, para pegar livros em sueco emprestados e para usar os computadores.

"Eles precisam disso para poderem se comunicar com as autoridades", ela disse.

Em um restaurante turco, um refugiado sírio, Mohammed Hoppe, estava limpando as mesas e lavando pratos. Ele disse que estava ocupado demais para acompanhar os comentários de Trump sobre a Suécia, mas após 3 anos e meio no país, ele não viu nada ruim acontecer.

E por sua vez, Alhassane também não estava interessada nos comentários.

"Honestamente, tudo o que vem dos Estados Unidos atualmente é uma espécie de piada", ela disse. "Nem mesmo fiquei curiosa para saber se o que ele disse era verdade. Nem preciso."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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