Elogiado por Trump, sistema de imigração do Canadá é mais complexo do que se imagina

Catherine Porter

Em Toronto (Canadá)

  • Visto para o Canadá

O sistema de imigração do Canadá, baseado em méritos, recebeu uma citação carinhosa do presidente Donald Trump nesta semana, em seu discurso no Congresso. Trump, que criticou a imigração ilegal e falou duro sobre reforçar as fronteiras, disse que adotar esse tipo de sistema custaria menos aos contribuintes americanos e ajudaria a aumentar os salários dos trabalhadores pobres.

Mas no Canadá a imigração não trata apenas de selecionar os que chegam de acordo com suas capacidades. Faz parte de um sistema que promove ao mesmo tempo a economia e a sociedade multicultural do país, o que possivelmente se tornou tão parte da identidade canadense quanto o hóquei. E é considerado amplamente uma forma de aumentar a imigração, e não reduzi-la.

"Os canadenses têm maior probabilidade que os cidadãos de qualquer outro país industrial de pensar que a imigração é essencial para a economia e o futuro do país", disse Jeffrey Reitz, professor de estudos étnicos e de imigração na Universidade de Toronto.

Com 35 milhões de habitantes, o Canadá pretende receber 300 mil imigrantes neste ano --0,85% da população, comparado com 0,3% dos EUA--, e pesquisas mostram que os canadenses estão felizes com isso. Na verdade, o Conselho Assessor sobre Crescimento Econômico do Ministério das Finanças quer mais 150 mil.

Parte desse entusiasmo é o reconhecimento pelo país de que, com o envelhecimento da população, a imigração é essencial para o crescimento econômico. Acrescente-se a isso a geografia --uma longa fronteira com os prósperos EUA ao sul e com o Ártico ao norte--, e a imigração ilegal não é um problema tão grande.

E finalmente os canadenses têm uma crença sincera no sistema de imigração com base no mérito, que cria um ciclo positivo de retroalimentação.

"A vantagem do nosso sistema são as pessoas que vêm --todo mundo concorda que elas passaram por algum tipo de sistema de mérito", disse Ravi Pendakur, professor de assuntos públicos e internacionais na Universidade de Ottawa. "A população canadense em particular é mais disposta a aceitar a imigração. Eles veem que é gerenciada, e isso é uma vantagem."

O programa tem seus reveses, porém. Ele se tornou extremamente complexo, sempre em mutação, e uma fonte de enormes atrasos.

Criado em 1967, o sistema com base em mérito foi considerado uma maneira de selecionar imigrantes com base em seu "capital humano", e não simplesmente em seu país de origem, como era a tradição. A ideia foi trazer imigrantes independentemente de onde nasceram, com qualidades selecionadas que os tornariam mais bem-sucedidos na integração à economia local.

Os candidatos receberam pontos por seu grau de educação, capacidade de falar uma ou as duas línguas oficiais do país [inglês e francês], experiência profissional, idade, oferta de emprego e o que as autoridades de imigração chamaram de adaptabilidade, que significava se vinham com a família ou já tinham família no Canadá.

Inicialmente, esse sistema foi o menor de três fluxos de imigrantes. As pessoas que se reuniam a suas famílias e refugiados foram os outros dois. Mas cada vez mais os líderes canadenses preferiam esses "imigrantes econômicos", ao ponto de que neste ano o governo projeta que eles formarão 57,5% dos recém-chegados.

A fórmula mudou ao longo dos anos, com pontos por educação e categorias de emprego aumentando ou diminuindo conforme mudavam as ideias das autoridades sobre disposição para o emprego. Até recentemente, a admissão se baseava em adquirir pelo menos 67 pontos, com até 70 dados por educação superior, fluência em idiomas e quatro ou mais anos de experiência no trabalho. Uma oferta de emprego valia só 10 pontos. Não havia limite, por isso a lista de espera se tornou imensa: 800 mil pessoas, representando uma espera de quatro anos.

Dois anos atrás, o país reformulou todo o sistema, aumentando os pontos possíveis para 1.200 e avaliando uma oferta de emprego em 600.

Outras inscrições foram colocadas em um banco de empregos para os empregadores escolherem. Os inscritos bem-sucedidos recebiam a promessa de aprovação em seis meses, mas os reprovados tinham de se reinscrever.

Depois que o primeiro-ministro Justin Trudeau assumiu o cargo, no final de 2015, seu governo liberal reelaborou a fórmula mais uma vez, reduzindo muito o número de pontos concedidos por uma oferta de emprego e acrescentando 30 pontos para candidatos formados em universidades canadenses, como estudantes estrangeiros.

Acrescentem-se outros sistemas de pontos elaborados pelas províncias e territórios do país, conforme seus mercados de trabalho, e o sistema se torna ainda mais complexo. A província de Saskatchewan, por exemplo, está recrutando motoristas de caminhão de longo percurso e trabalhadores de hotelaria, enquanto Alberta quer processadores de alimentos e bebidas.

"Eu ensino essa coisa e a acho confusa", disse Audrey Macklin, diretora do Centro de Criminologia e Estudos Sociológicos da Universidade de Toronto. "É inerentemente confusa, e está sempre mudando."

Mas o princípio permanece: os imigrantes que chegam por esse sistema são instruídos, falam a língua local e têm ótimas credenciais.

Estudos mostraram que os imigrantes econômicos, chegando com mais instrução e habilidades de idioma, conseguem empregos mais bem pagos, com maior potencial de aumentos. Seus filhos também têm notas de formatura mais altas no colégio.

"Se os EUA mudarem para nosso sistema, as Apples, Microsofts e Googles ficarão muito felizes", disse Robert Vineberg, um diretor regional aposentado de imigração. "Mas os plantadores de legumes na Califórnia não ficarão tão contentes."

Vineberg ofereceu como exemplo estatísticas de imigração do governo de 2015. Naquele ano, o Canadá identificou 66.360 recém-chegados como imigrantes econômicos por suas capacidades ocupacionais.

Cerca de 36.300 foram classificados nas duas categorias superiores, o que significa que eram fluentes em uma língua nacional e tinham diploma superior. A maioria teria sido recrutada para um emprego específico, disse Vineberg: por exemplo, vice-presidente de uma companhia ou administrador de um hospital. Outros 22.700 foram escolhidos para um emprego em setores técnicos, como eletricista industrial. Eles precisavam da capacidade linguística para ler um projeto e seguir instruções complexas, e pelo menos alguma educação pós-secundária e certificação em sua profissão.

Somente 2.177 foram trazidos como mão de obra desqualificada, e mesmo eles teriam sido escolhidos para cargos específicos, provavelmente um emprego difícil de preencher ou em um local remoto --por exemplo, um recepcionista de hotel que falasse japonês em Yellowknife, nos Territórios do Noroeste, segundo Vineberg.

Seu exemplo, porém, esclarece a contradição que há no centro do sistema de imigração.

Em 2015, quase 272 mil pessoas tiveram a entrada autorizada, e só um quarto delas foi escolhido pelo mérito. A maioria dos participantes da classe econômica eram parentes, escolhidos não por seu capital humano --embora muitos também pudessem ser instruídos e pretendessem trabalhar--, mas pelos laços sanguíneos.

"As estatísticas dão a impressão de que o Canadá escolhe a maioria das pessoas com base em critérios econômicos, e talvez os fazedores de políticas pensem que isso tranquiliza os canadenses de que a imigração serve aos interesses econômicos do país", disse Macklin. "Na realidade, a maioria das pessoas ainda entra com base no parentesco. A ideia de que isso pode ser significativamente modificado com facilidade é um pouco de fantasia."

Outro aspecto diferencial da política migratória do Canadá é o que o país não enfrenta: uma onda de migrantes. Cercado em três lados por oceanos enormes e gélidos, o Canadá tem poucas pessoas entrando sem permissão. Até o número crescente dos solicitantes de asilo que cruzam ilegalmente a fronteira dos EUA nos últimos anos é comparativamente pequeno.

"É mais fácil ser descontraído sobre a imigração quando sua única fronteira terrestre é um enorme muro com os EUA", disse Reitz.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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