Embaixador russo cultivou poderosa rede de contatos nos EUA

Neil MacFarquhar e Peter Baker

  • Cliff Owen/AP

    Sergey Kislyak, embaixador da Rússia nos EUA, fala com repórteres em Washington

    Sergey Kislyak, embaixador da Rússia nos EUA, fala com repórteres em Washington

Sergey I. Kislyak, o embaixador russo nos Estados Unidos, deu um deslumbrante jantar em sua mansão de três andares em estilo Belas Artes, a quatro quadras da Casa Branca, para brindar Michael A. McFaul poucas semanas antes deste assumir seu posto como embaixador americano na Rússia.

Foi, como lembrou McFaul, um "jantar extraordinário, exagerado", com cinco pratos da culinária fusion russa para 50 convidados sentados que compartilhavam uma característica comum: eram funcionários do governo envolvidos estreitamente na formulação de políticas para a Rússia para o governo Obama, incluindo altos funcionários dos departamentos de Defesa e Estado.

"Admirei o fato de ele estar tentando se aprofundar em nosso governo e cultivar relações com todo tipo de pessoa", disse McFaul sobre o jantar no final de 2011. "Fiquei impressionado com a forma como realizou esse tipo de socialização, a forma como entretinha, mas sempre com um objetivo político."

O sucesso de Kislyak em formar redes de contatos o colocou no centro de uma crescente controvérsia e o tornou o embaixador mais proeminente, apesar de politicamente radioativo, em Washington.

Dois membros do governo do presidente Donald Trump se envolveram em problemas por não terem sido francos sobre seus contatos com Kislyak: Michael Flynn, que foi obrigado a renunciar como conselheiro de segurança nacional, e agora o secretário de Justiça, Jeff Sessions, que reconheceu duas conversas antes não reveladas. Kislyak também se encontrou durante a transição com o genro e conselheiro de Trump, Jared Kushner.

Um diplomata de carreira criado na era soviética, Kislyak, 66 anos, pode parecer um protagonista improvável neste drama. Ele interage com autoridades americanas há décadas e é uma presença constante na cena de Washington há nove anos, doce e cordial, com um sorriso fácil e com inglês fluente, apesar do sotaque, porém agressivo na defesa das políticas assertivas da Rússia.

Convidado a centros de estudos para discutir o controle de armas, ele invariavelmente oferece uma defesa sem remorso da intervenção russa na Ucrânia e ataca os americanos pelo que retrata como sendo a hipocrisia deles, mas abordando posteriormente um parceiro de debate para sugerir um jantar.

"Nem todos, eu mesmo incluso, apreciam no início seu estilo duro e direto", disse Dimitri K. Simes, presidente do Centro para o Interesse Nacional e um defensor de relações mais estreitas entre a Rússia e os Estados Unidos, que ofereceu um jantar em sua casa para Kislyak, após sua chegada a Washington, e que o convida regularmente para eventos em seu centro.

"Mas gradualmente passamos a desenvolver um respeito por ele, mesmo com má vontade, como alguém que realmente representa as posições de seu país."

Simes apresentou Kislyak a Trump em abril passado, durante um discurso de política externa promovido por seu centro no Mayflower Hotel, em Washington. Kislyak foi um dos quatro embaixadores que se sentaram na primeira fila para o discurso de Trump a convite do centro.

Simes notou que Sessions, na época senador pelo Alabama, estava presente, mas não notou se ele e o embaixador conversaram na ocasião.

A embaixada russa não respondeu a um e-mail na quinta-feira, mas Kislyak defendeu os contatos com as autoridades americanas em novembro passado, quando lhe foi perguntado, durante um discurso na Universidade de Stanford, sobre as alegações de interferência russa nas eleições.

Kislyak repetiu a posição de seu governo de não envolvimento no hackeamento. Ele disse ser natural diplomatas estarem presentes em eventos como convenções políticas e discursos de política externa dos candidatos.

"É trabalho diplomático normal o que estamos fazendo: é nosso trabalho entender, conhecer as pessoas, tanto do lado republicano quanto do democrata", ele disse. "Pessoalmente, trabalho há tanto tempo nos Estados Unidos que conheço quase todo mundo."

Ian Thomas Jansen-Lonnquist/The New York Times
John Huntsman fala durante convenção em Manchester, New Hampshire; ele é cotado para ser embaixador na Rússia


Até mesmo alguns críticos das políticas russas disseram não causar surpresa o fato de Kislyak ter se encontrado com o pessoal de Trump. "Isso faz parte do trabalho dele", disse Steven Pifer, um ex-embaixador na Ucrânia que agora está na Instituição Brookings.

"Não vejo nada nefasto por si só, e não acho que tenha sido estranho o senador Sessions ter conversado com Kislyak."

Um especialista em negociações de controle de armas com diploma pelo Instituto de Engenharia e Física de Moscou, Kislyak serviu primeiro na embaixada em Washington de 1985 a 1989, durante o período final soviético.

Ele se tornou o primeiro representante da Rússia na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental) e foi embaixador na Bélgica de 1998 a 2003. Ele então retornou a Moscou, onde passou cinco anos como vice-ministro das Relações Exteriores.

Ele foi nomeado embaixador em Washington em 2008.

"Ele é um diplomata brilhante, altamente profissional; afável, agradável, incrivelmente bom em controle de armas e nas relações russo-americanas há décadas", disse Sergei A. Karaganov, um conselheiro de política externa do Kremlin.

Alguns especialistas russos em política externa o comparam a Anatoly F. Dobrynin, o embaixador soviético em Washington de 1962 a 1986, que exercia papel político ativo em ambas as capitais. Até recentemente, pelo menos, Kislyak atuava de forma mais discreta em Washington e era ainda menos visível em Moscou.

"Eu o descreveria como a mais alta autoridade russa em Estados Unidos", disse Vladimir Frolov, um analista de política externa.

As questões sobre os contatos entre o círculo de Trump e autoridades russas revelaram o que ambos os lados supostamente sabiam, que as agências de inteligência americanas rastreiam de perto os movimentos de Kislyak e grampeiam seus telefonemas.

Autoridades russas expressaram revolta na quinta-feira pelas ações de seu embaixador estarem sendo questionadas e por algumas reportagens sugerirem que ele possa ser um agente da inteligência.

Maria Zakharova, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, fez um longo ataque durante sua coletiva de imprensa semanal contra o que chamou de baixos padrões profissionais da mídia de notícias americana.

"Revelarei um segredo militar para vocês: diplomatas trabalham e o trabalho deles consiste em contatar as pessoas no país no qual estão presentes", ela disse. "Isso é claro em toda parte. Se não fizerem esses contatos, não participarem de negociações, então não são diplomatas."

Até o retorno de Vladimir Putin à presidência russa em 2012 e as tensões entre Washington e Moscou crescerem de novo, Kislyak era um anfitrião popular, especialmente em eventos de fim de semana na propriedade em Pioneer Point, em Maryland, que o governo Obama ordenou que fosse fechada em dezembro devido às alegações de hackeamento.

Ele convidou os americanos que negociaram o acordo de armas nucleares New Start e suas famílias a uma festa na propriedade. Seguranças russos levaram os filhos dos convidados para passearem em boias puxadas pela lancha do embaixador.

Durante as negociações do tratado, lembrou McFaul, Kislyak telefonava com frequência para o secretário de Defesa e outros envolvidos, frustrando o desejo americano de limitar seus canais de comunicação. "Ele buscava ativamente encontrar frestas e desacordos entre nós", disse McFaul.

"Ele é muito inteligente, muito experiente, sempre bem preparado", disse R. Nicholas Burns, um ex-subsecretário de Estado que negociou três resoluções de sanções ao Irã na ONU com Kislyak. "Mas ele podia ser cínico, obstinado e inflexível, além de ter uma mentalidade soviética. Ele era muito agressivo em relação aos Estados Unidos."

Parte dessa agressividade esteve em evidência no evento em Stanford no ano passado, que foi moderado por McFaul. Dizendo que foi enviado a Washington para melhorar as relações, Kislyak citou áreas de possível cooperação, mas então apresentou uma longa lista de queixas, acusando os Estados Unidos de interferirem em todo o mundo.

Quando um membro da plateia perguntou sobre os erros russos, ele fez objeção. Ele disse que o problema mais sério dos Estados Unidos é a crença de serem excepcionais. "A diferença entre o seu excepcionalismo e o nosso é que não estamos tentando impor o nosso a vocês, mas vocês não hesitam em impor a nós o de vocês", ele disse. "Isso é algo que não apreciamos."

Kislyak disse a associados que deixará Washington em breve, que provavelmente será substituído por um general linha-dura. Seu nome despontou recentemente na ONU como candidato a um novo posto responsável por contraterrorismo, disseram diplomatas de lá. Vitaly I. Churkin, o embaixador russo na ONU, morreu no mês passado e esse posto permanece vago.

Para Kislyak, Washington não é mais o lugar que costumava ser. Ele se tornou solitário e disse a associados que está surpreso com a forma como pessoas que antes procuravam sua companhia agora estão tentando manter distância.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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