Festas, mercados e incerteza marcam campos de refugiados da Grécia

Liz Alderman

  • Eirini Vourloumis/The New York Times

    Naram Sebah, uma refugiada síria, fuma com seus amigos no campo de refugiados Skaramagas, em Atenas, Grécia

    Naram Sebah, uma refugiada síria, fuma com seus amigos no campo de refugiados Skaramagas, em Atenas, Grécia

Um ano depois que a União Europeia fechou suas fronteiras para conter uma onda de refugiados, dezenas de milhares deles continuam mofando em acampamentos dentro da Grécia. Para eles, uma vida no limbo passou a parecer permanente. Eles equipam esse ambiente desconhecido com decorações de casa, buscando um semblante de normalidade.

Visitei vários desses acampamentos recentemente. Em um deles, Elliniko, localizado em um aeroporto abandonado caindo aos pedaços na periferia de Atenas, uma quina havia sido transformada em uma mesquita improvisada, onde um refugiado afegão se preparava para rezar, indiferente ao barulho de conversa de centenas ao seu redor.

Em outro, Skaramagas, perto do porto de Pireu, refeições caseiras traziam um instante de alegria para seus dias melancólicos. As famílias Ibrahim e Ali, que chegaram de bote inflável no último verão, convidaram a mim e alguns de seus amigos para um churrasco de frango e legumes assados. Um vizinho presente, Abdulrahman Alo, perdera ambas as pernas em um ataque a bomba na Síria.

Os acampamentos têm sua própria estrutura de classe. Aqueles com menos esperanças de permanecer na Europa são abrigados em acampamentos mais inóspitos como o de Oinofyta, uma área industrial no centro da Grécia que é lar de cerca de 550 afegãos.

Ali conheci Horta, uma garota afegã que pintava as unhas do lado de fora do pequeno cômodo onde ela e sua família estão vivendo desde o ano passado.

Eirini Vourloumis/The New York Times
Festa de aniversário em campo de refugiados em Ritsona, Grécia

Mais de um terço dos refugiados na Grécia são crianças, e fiquei surpreso com quantos bebês ainda estavam nascendo nos acampamentos. Uma mãe afegã levantou timidamente seu recém-nascido, e fez um gesto sinalizando que havia outro a caminho. Assim como muitos residentes, ela decorou as paredes de seu quarto para se adaptar à sua longa jornada.

Em Skaramagas, uma mulher síria se gabava do fato de que iria dar à luz seu sétimo filho --dessa vez, na Grécia. Ela se juntou à sua amiga, Naram Sebah, que fumava um narguilé no cais do Pireu com amigas enquanto gaivotas as sobrevoavam. Todas riam e tiravam selfies, mostrando seus enfeites de cabelo e moletons bordados com strass.

Contudo, risadas e comunhão não fazem muito para aliviar um sentimento duradouro de tédio e incerteza, e para tornar mais suportável o que continuam sendo, na melhor das hipóteses, condições de vida rudimentares. Somente em dezembro foi instalado o aquecimento em Oinofyta. Após um surto de sarna, os residentes empilharam cobertores de lã para serem queimados.

As pessoas tentam se divertir e passar o tempo. No entanto, "todos aqui se sentem deprimidos", me confidenciou Maryam Akbary, 26, uma estudante de engenharia afegã que tentava se juntar à sua família na Alemanha.

Perto de Ritsona, outro campo de refugiados sírio foi montado entre pinheiros repletos de pássaros canoros. Quando cheguei, várias crianças riam e comiam junto com suas famílias em uma festa de aniversário, enquanto um refugiado vestido de palhaço dançava com um megafone.

Mais tarde, as crianças foram empinar pipas felizes em um campo, onde todos aqui um dia viveram em barracas empoeiradas e castigadas pelo Sol até que chegaram abrigos de contêineres.

Eirini Vourloumis/The New York Times
As famílias Ibrahim e Ali e seus amigos comem no campo de refugiados Skaramagas, perto de Atenas, Grécia

Metade dos 62 mil requerentes de asilo na Grécia são sírios, e de muitas formas eles estão melhor nos acampamentos do que em casa. Surgiram pequenas feiras, e refugiados empreendedores instalaram barraquinhas para vender falafel, frutas e legumes, lanchinhos, cartões telefônicos e refrigerantes. Um homem até comprou três máquinas de lavar roupa e abriu um serviço de lavanderia.

Adolescentes jogavam videogames tarde da noite dentro de cabines com isolamento acústico equipadas com computadores e wi-fi.

Em Skaramagas, cerca de 3.200 refugiados que costumavam viver ao ar livre em barracas frágeis hoje moram dentro de abrigos de contêineres com banheiro, água e televisão. Muitos deles estão se encaminhando para outros países da Europa, deixando os contêineres para trás.

Para outros, há muito menos esperança. Em Elliniko, Samim Haidari, um inteligente refugiado afegão de 20 anos, aprendeu sozinho a falar inglês de forma quase fluente usando cerca de 20 aplicativos em seu celular, na esperança de que isso o ajudasse a receber asilo.

"Estou aqui há um ano e dois dias, e ainda não faço ideia do que vai acontecer", ele disse. "Preciso tirar o melhor proveito possível disso. Não há outra escolha".

Tradutor: UOL

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