Sem-tetos encontram abrigo na política de 'casa em primeiro lugar' no Canadá

Craig S. Smith

Em Medicine Hat, Alberta

  • Aaron Vincent Elkaim/NYT

    Kurt Rempel e Alyssa Larmor, do primeiro programa de habitação para Saúde Mental do Canadá

    Kurt Rempel e Alyssa Larmor, do primeiro programa de habitação para Saúde Mental do Canadá

Kurt Remple, um alcoólatra desdentado e desempregado dessa cidade rural de nome estranho, é de certa forma uma história de sucesso. Cinco anos atrás, ele estava vivendo embaixo de uma ponte e sobrevivendo de refeições doadas por instituições de caridade.

Hoje, ele vive em um apartamento de um quarto pequeno, mas arrumado.

"Era novembro e estava começando a esfriar quando conheci essa funcionária do Champion Center", ele disse, referindo-se ao estabelecimento local que serve café da manhã para os pobres. "Ela disse 'venha até meu escritório e veremos se você consegue encontrar um lugar'".

Medicine Hat está na vanguarda de um esforço nacional para acabar com a situação de rua através da estratégia da "moradia em primeiro lugar", criada há quase 25 anos por um canadense em Nova York, que oferece lares sem pré-condições como sobriedade e outras medidas de melhoria pessoal que mantêm muitas pessoas na rua, em outros países.

Você é alcoólatra? Aqui está um apartamento de um dormitório onde você pode morar, mesmo que continue bebendo. Dependente de drogas? Aqui está uma quitinete com aquecimento e água quente, mesmo que continue ficando doidão. Doente mental? Aqui está um lugar onde você pode se sentir seguro só para você, e onde assistentes sociais podem encontrá-lo.

A teoria é que somente depois que as pessoas se encontram em uma situação estável de moradia é que elas podem começar a enfrentar seus outros desafios.

A estratégia foi adotada de forma ampla na Europa e na Austrália. Nos Estados Unidos, ela teve seu sucesso mais notável na redução de pessoas em situação de rua entre veteranos de guerra de cidades como Nova Orleans, Salt Lake City e Phoenix. Mas nenhum outro país adotou a abordagem de forma tão firme quanto o Canadá.

E em nenhum outro lugar do Canadá houve tantos progressos quanto em Medicine Hat, uma pequena cidade rica em recursos energéticos no Rio South Saskatchewan. Em novembro de 2015, a cidade declarou que havia sido bem-sucedida em sua tentativa de acabar com a situação de pessoas morando na rua, atraindo elogios e atenção do mundo inteiro.

Assim como em outras partes do mundo, o problema de moradia do Canadá cresceu nas últimas décadas, à medida que aluguéis cada vez mais altos foram forçando os cidadãos mais vulneráveis do país para as ruas. O boom do petróleo alimentou a bolha imobiliária em Alberta.

Calgary, o centro da indústria de energia de Alberta, tinha o problema mais grave de moradia na província. Em 2006, a província deu dinheiro à cidade para testar a abordagem da "moradia em primeiro lugar", que havia sido adotada pela primeira vez por um psicólogo canadense, Sam Tsemberis, enquanto ele trabalhava em Nova York.

Aaron Vincent Elkaim/NYT
Gordon Thompson, que recusou ofertas para morar em um apartamento, caminha para um abrigo em Medicine Hat

Com projetos paralelos surgindo na Columbia Britânica e em Ontário, a Comissão de Saúde Mental do Canadá se envolveu, pressionando por mais dinheiro federal para estudar a estratégia.

A comissão começou um ensaio clínico em cinco cidades do Canadá — Vancouver, Winnipeg, Toronto, Montreal e Moncton — no qual 2.200 moradores de rua, ou com alguma doença mental ou um vício foram designados de forma aleatória ou para o programa de "moradia em primeiro lugar" ou para um tratamento normal.

Os resultados foram surpreendentes, validando o modelo da moradia em primeiro lugar e demonstrando que o custo de se dar moradia aos sem-teto era muito menor que o custo de serviços emergenciais necessários para os sem-teto enquanto eles estava morando nas ruas.

"Só a redução no número de dias passados na cadeia já paga o programa", disse Jaime Rogers, gerente do departamento de habitação de Medicine Hat. Ela citou estudos que dizem que o morador de rua médio custa aos contribuintes 120 mil dólares canadenses (R$ 285 mil) por ano em serviços, ao passo que custa somente 18 mil dólares canadenses (R$ 42.730) por ano dar moradia a alguém e fornecer o apoio necessário.

Esse tipo de evidência convenceu o governo conservador do ex-premiê Steven Harper a adotar o "moradia primeiro" como uma política nacional.

"Foi aqui que isso atingiu uma escala que não vi em nenhum outro país", disse Tsemberis em uma entrevista por telefone.

Através da Estratégia de Parceria com os Sem-Teto adotada posteriormente pelo Canadá, o governo federal passou a distribuir cerca de 176 milhões de dólares canadenses por ano (R$ 417 milhões), entre 61 comunidades para financiar serviços para os moradores de rua.

Cerca de 40% desses dólares devem ser gastos em intervenções relativas à política da moradia em primeiro lugar.

Sete cidades de Alberta — Calgary, Edmonton, Lethbridge, Grande Prairie, Red Deer, Wood Buffalo e Medicine Hat —f ormaram uma coalizão informal e em 2007 cada uma delas escreveu seu próprio plano de 10 anos para acabar com a situação de rua. A província hoje gasta mais de 83 milhões de dólares canadenses (R$ 196 milhões) por ano para colocar os planos em prática, e criou um plano de 10 anos próprio.

O progresso tem sido promissor. Em 2014, quando Alberta realizou a primeira contagem pontual do país, dando um retrato de pessoas que estavam em situação de rua em uma determinada noite, o total nas sete cidades estudadas era de 6.663. Em 2016, o número havia caído quase 20%, para 5.378.

Os resultados em Medicine Hat foram ainda mais surpreendentes: o número de sem-teto contados caiu quase pela metade, passando de 61 para 33. Enquanto isso, o número de participantes do programa "moradia primeiro", dobrou para 120.

Aaron Vincent Elkaim/NYT
Hamid Vejvani, que é sem-teto desde 2009, recebe comida em um restaurante do Exército da Salvação

Medicine Hat em parte saiu na frente porque o problema no local é mais administrável. É mais fácil de lidar com a situação dos moradores de rua em uma cidade de 63 mil pessoas, onde assistentes sociais sabem os nomes de quase todos que estão em situações de dificuldade.

É mais fácil também quando o número de membros das agências que trabalham com o problema é tão pequeno que eles conseguem se sentar em torno de uma mesa.

Mas Medicine Hat tem outra vantagem que poderia dar o exemplo para outras cidades: um escritório centralizado que administra tanto o estoque de moradias quanto os programas de apoio. O Departamento de Habitação e Situação de Rua da Medicine Hat Community Housing Society é liderado por Rogers.

Por reconhecerem que algumas pessoas sempre perderão suas casas, e por não existir um consenso nacional do que significa "acabar com a situação de rua", Rogers e sua equipe criaram sua própria definição: em Medicine Hat, isso significa conectar qualquer um que seja identificado como sem-teto com um assistente social e colocá-lo em uma lista de espera para um programa de moradia dentro de 10 dias.

No Canadá, existe uma movimentação para se definir em escala nacional o que significa acabar com a situação de rua, fornecendo uma referência para o que considerar como sucesso.

Alina Turner, membro da Escola de Políticas Públicas da Universidade de Calgary e uma das principais pesquisadoras que têm pressionado por uma definição, disse que os atuais programas deveriam ter como objetivo um "zero funcional", que reconhece o fato de que sempre haverá algumas pessoas sem lar.

Segundo a definição proposta, o zero funcional significaria uma redução de 90% no número de pessoas vivenciam a situação de rua em uma comunidade.

"Dar moradia é a parte fácil", disse Rogers, que reconheceu que, pela definição de Turner, Medicine Hat ainda tinha desafios pela frente. "Mantê-las em uma casa sempre será a parte difícil".

Tradutor: UOL

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