Para combater as notícias falsas, programa ucraniano mostra apenas mentiras

Andrew E. Kramer

Em Kiev

  • Brendan Hoffman/NYT

    Cynthia Sularz, apresentadora da versão em inglês do programa StopFake News

    Cynthia Sularz, apresentadora da versão em inglês do programa StopFake News

As luzes do estúdio se suavizam enquanto a âncora do jornal batuca em uma pilha de papeis sobre sua mesa, dirigindo um olhar penetrante na direção das câmeras de TV.

Está prestes a começar o que parece ser um telejornal noturno, só que com um toque bastante ucraniano: tudo é uma mentira, do começo ao fim.

"Bem-vindos ao 'StopFake', o lugar onde tiramos a limpo as notícias falsas sobre a Ucrânia", entoa a âncora Margo Gontar.

Em outras partes do mundo, os espectadores poderiam suspeitar que o noticiário da noite é só um monte de mentiras, mas ao assistirem a transmissão semanal de "StopFake News" eles podem ter certeza disso.

O grupo é altamente respeitado no meio jornalístico de Kiev, a capital ucraniana, por sua especialidade em desmascarar notícias falsas.

Se os "fact-checkers" não conseguem provar que uma matéria publicada ou transmitida por outro veículo da mídia é falsa, ela não aparece na edição semanal de "StopFake News".

"Nós discutimos as matérias e, se um editor diz, 'Podemos provar que isso é mentira? Isso é mentira?', então, sim, podemos usar", disse Gontar a respeito do processo editorial. "É jornalismo investigativo, com um toque especial".

O departamento de jornalismo da Kyiv-Mohyla Academy supervisiona o programa e fornece o estúdio de TV onde, uma vez por semana, todas as mentiras são reunidas em um só lugar.

O estúdio fica em uma travessa de prédios residenciais de tijolinhos em um bairro promissor de Kiev conhecido como o Podil, ou a Saia, por ser uma grande descida.

É um distrito com armazéns e fábricas recuperadas, hoje repleto de cafés, onde diversos projetos surgiram como respostas criativas ao conflito entre Leste e Oeste que começou na Ucrânia três anos atrás. Nem tudo pode ser deixado para o Exército.

Um antigo estaleiro, por exemplo, virou o lar do estúdio Izolatsia, um coletivo artístico que veio deslocado do Donetsk, no leste da Ucrânia, focado em temas como arquitetura e desenvolvimento urbano em zonas de conflito.

O "StopFake News" não é uma sátira ao estilo do The Onion, mas se posiciona como um jornalismo sério de serviço público, identificando notícias falsas e desmascarando-as no ar. Isso porque Kiev, em sua batalha com Moscou, já havia sofrido com as notícias falsas muito antes que surgisse a preocupação com o problema na Europa Ocidental e nos Estados Unidos.

Durante a crise na Ucrânia em 2014, notícias manipuladoras e muitas vezes completamente inventadas chegavam aos montes da Rússia através da televisão por satélite e de websites, sendo reproduzidas por jornais locais simpatizantes.

Surgiam temas recorrentes, que viravam assunto de conversas em toda a capital. Um campo de treinamento do Estado Islâmico que teriam criado na Ucrânia, o presidente Petro O. Poroshenko que seria um bêbado e às vezes aparecia inebriado em público, nacionalistas que teriam começado a linchar ou, infamemente, a crucificar crianças que falassem russo.

A Ucrânia baniu alguns programas de televisão russos, uma prática que provocou acusações de falta de liberdade de expressão, mas mesmo assim as notícias falsas continuaram circulando pela internet.

O "StopFake News" optou por fazer desmascaramentos públicos, em vez de proibir, como sua melhor defesa, e mostrou que isso podia se tornar uma forma própria de entretenimento.

O StopFake, que é também o nome da organização que criou o noticiário, começou seu trabalho quase três anos antes de um relatório feito pelas agências de inteligência americanas sobre a interferência russa nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2016.

E surgiu um ano antes de a União Europeia estabelecer um departamento para identificar e denunciar fábricas de notícias falsas na Rússia. O Facebook contratou recentemente fact-checkers nos Estados Unidos e na Alemanha para sinalizar relatos falsos, nem todos de origem russa.

No entanto, a Rússia foi fonte de tantas notícias falsas dentro da Ucrânia que o desmascaramento de erros factuais na propaganda russa se tornou especialidade do StopFake.

A Ucrânia se tornou um campo de testes "para muitas das estratégias perversas da Rússia", disse em uma entrevista Oksana Syroyid, vice-presidente do parlamento da Ucrânia. "Infelizmente, precisamos aguentar isso. A experiência da Ucrânia pode ser usada pela Europa e pelos Estados Unidos para entender a verdadeira ameaça russa".

Aqui, assim como em outros lugares, notícias falsas sensacionalistas podem se tornar graves a ponto de causar mortes. Repórteres do "StopFake News" chamaram a atenção para o homem armado que entrou no restaurante de Washington Comet Ping-Pong Pizza, aparentemente motivado por falsas denúncias de que a pizzaria seria um antro de pedofilia frequentado por democratas.

Para que nada de verdadeiro entre por acidente na pauta do programa e prejudique a credibilidade do grupo, uma equipe especializada de editores e de fact-checkers faz um pente fino por todas as matérias em potencial.

O "StopFake News" é um tipo peculiar de noticiário. Durante três anos, as manchetes declararam o que não aconteceu e o que não foi dito, e o heroísmo ou a vilania de pessoas que nunca existiram.

Em uma série de matérias - mais de mil foram denunciadas até o momento - os jornalistas revelam leis que nunca foram aprovadas, insultos que nunca foram proferidos e revoltas que nunca aconteceram em praças de cidades pacatas. "A Entrevista Exclusiva Que Nunca Aconteceu", diz uma manchete.

Yevhen Fedchenko, um professor de jornalismo da Kyiv-Mohyla Academy, ajudou a fundar o StopFake em março de 2014 para conscientizar o público sobre a desinformação russa no auge da crise da Ucrânia.

O grupo denunciou algumas das principais histórias falsas da guerra. Em 2014, a rede estatal russa Canal 1 transmitiu uma suposta notícia de que nacionalistas ucranianos teriam crucificado uma criança russa na praça central de Slovyansk depois que o Exército ucraniano expulsou da cidade separatistas apoiados por russos.

A notícia enfureceu separatistas falantes de russo que já vinham se armando contra Kiev, jogando lenha na fogueira do levante no leste.

"Foi um bom exemplo de propaganda porque foi produzido para o horário nobre da televisão, foi emocional e totalmente sem fundamento", disse Fedchenko.

Propagandistas alemães durante a Primeira Guerra Mundial foram os primeiros a usar essa história, alegando que os britânicos estavam crucificando soldados alemães, segundo ele, e tem sido um elemento básico da propaganda de guerra na Europa desde então.

"É algo que envolve temas de guerra cultural e conflitos religiosos, de civilização", ele disse. "Como propaganda, é muito eficaz".

O que começou como um website tocado por voluntários acabou virando uma organização de notícias com 26 funcionários e pesquisadores pagos em vários países europeus e nos Estados Unidos, financiada por doações. O programa é transmitido por cerca de 30 estações de TV ucranianas.

"Quanto mais absurdo for, maior a probabilidade de aparecer no programa", disse a âncora Gontar. Embora as histórias sejam "obviamente absurdas", ela não as trata como piada no ar. "As pessoas precisam levar isso a sério".

Recentemente o programa desmascarou uma notícia publicada pelos russos de que o presidente Petro Poroshenko, enquanto bêbado, teria dado de forma irrefletida uma bola de futebol de presente a um soldado ucraniano cuja perna havia sido amputada em decorrência de um ferimento de guerra.

Outros temas falsos recorrentes incluem a informação de que o governo ucraniano teria planejado estampar o rosto de Hitler em suas cédulas de dinheiro e de que regiões do oeste do país, falantes de ucraniano, haviam declarado independência.

Gontar refuta cuidadosamente cada uma delas, e então encerra seu noticiário semanal prometendo mais em breve.

"Vamos continuar acompanhando a propaganda e pegando as mentiras", ela disse. "Até a próxima semana".

Tradutor: UOL

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