Ameaças e vandalismo deixam judeus americanos em estado de tensão na era Trump

Alan Blinder, Serge F. Kovaleski e Adam Goldman

  • Robert Cohen /St. Louis Post-Dispatch via AP

    Homem caminha por lápides vandalizadas no cemitério judaico Chesed Shel Emeth, em University City, Missoury

    Homem caminha por lápides vandalizadas no cemitério judaico Chesed Shel Emeth, em University City, Missoury

A voz estridente e digressiva ao telefone era distorcida e truncada, e alertava para a ameaça de um massacre de judeus. A voz falava em uma bomba carregada de estilhaços e um "banho de sangue" iminente. Momentos depois, a pessoa desligou.

A ameaça feita em meados de janeiro a um centro da comunidade judaica era falsa, no final das contas. O alerta foi só um dos pelo menos 100 que os centros comunitários e escolas judaicas relataram desde o começo do ano, um padrão assustador que mudou drasticamente a vida de pessoas em 33 Estados e provocou uma investigação federal que passou a ser examinada de perto por legisladores, especialistas em segurança e líderes da comunidade judaica.

Em combinação com os casos recentes de vandalismo em cemitérios judaicos no Missouri e na Pensilvânia, os telefonemas incitaram um temor de que um virulento antissemitismo houvesse se instaurado no começo da administração Trump.

No início de um pronunciamento para o Congresso realizado na terça-feira à noite, Trump disse que os episódios, juntamente com o ataque da semana passada contra dois imigrantes indianos no Kansas, "nos lembram de que embora sejamos uma nação dividida quanto à política, somos um país que permanece unido na condenação ao ódio e ao mal sob todas suas formas".

Em uma reunião com procuradores-gerais estaduais no início da terça-feira, o presidente Donald Trump sugeriu que as ameaças e o vandalismo poderiam ser um esforço politicamente coordenado para "prejudicar a imagem de pessoas", de acordo com os procuradores-gerais da Pensilvânia e do Distrito de Colúmbia.

"Primeiro, ele disse que os atos eram condenáveis", disse o procurador-geral Josh Shapiro da Pensilvânia, um democrata que perguntou a Trump sobre os episódios durante uma sessão na Casa Branca. "Depois, ele disse, 'você precisa tomar cuidado, pois pode ser o contrário. Pode ser o contrário, poderiam estar tentando prejudicar a imagem de certas pessoas'."

Líderes judaicos denunciaram os comentários de Trump na terça-feira para os procuradores-gerais, e alguns pediram ao governo federal que acelere sua investigação sobre os telefonemas com ameaças, o último deles tendo sido na segunda-feira.

"A pessoa ou as pessoas que estão fazendo isso infringiram a lei, e é a responsabilidade de nosso sistema investigar isso e prender o indivíduo ou os indivíduos responsáveis", disse David Posner, diretor de desempenho estratégico da Associação de Centros da Comunidade Judaica da América do Norte.

O FBI tem conduzido um inquérito desde janeiro, e um policial federal, que não estava autorizado a falar sobre uma investigação em andamento, disse que uma única pessoa pode estar fazendo as ameaças usando um serviço de chamadas por internet.

Analistas independentes, incluindo pesquisadores especializados em extremismo e policiais aposentados, concordam com essa teoria e disseram que, até o momento, eles não viam indícios de um esforço coordenado.

Embora algumas pessoas tenham suspeitado que os telefonemas fossem gravados e automatizados, também houve evidências do contrário. Em Milwaukee, por exemplo, uma telefonista fez perguntas e recebeu respostas da pessoa que ligou, disse Mark Shapiro, presidente do Centro da Comunidade Judaica Harry and Rose Samson Family.

Posner disse que um agente do FBI havia enfatizado que a investigação era uma prioridade para a agência, envolvendo especialistas em análise comportamental, direitos civis e grupos de ódio.

"Agentes e analistas de todo o país estão trabalhando para identificar e deter os responsáveis", disse Stephen Richardson, diretor-assistente da agência para a divisão de investigações criminais. "Vamos trabalhar para nos certificar de que pessoas de todas as raças e religiões se sintam seguras em suas comunidades e em seus locais de culto".

De acordo com o grupo de Posner, mais de 80 centros comunitários e escolas nos Estados Unidos e no Canadá foram ameaçados, alguns mais de uma vez. Os telefonemas vieram em cinco levas, a última delas na segunda-feira, quando houve 31 ameaças.

Muitas das ligações provocaram evacuações e varreduras de bombas, fazendo com que os alunos saíssem das salas de aula e funcionários empurrassem berços cheios de crianças para os estacionamentos. Aposentados foram tirados de piscinas e escritórios e ruas foram fechados.

As ameaças são frequentes e alarmantes, de acordo com líderes de centros comunitários.

"Minha reação inicial foi, 'Chegou nossa vez'", disse Karen Kolodny, diretora-executiva do Centro da Comunidade Judaica de Mid-Westchester em Scarsdale, Nova York, onde policiais responderam a uma ameaça de bomba na segunda-feira. "Minha reação não foi de choque completo. Pensávamos que ia acontecer em algum momento".

Dados do FBI mostram que a maioria dos crimes de ódio é associada a raça, etnia ou origem. Em 2015, o ano mais recente para o qual dados foram divulgados, as autoridades registraram 664 incidentes que eles classificaram como episódios anti-judaicos.

Analistas dizem que eles acreditavam que os comentários antissemitas na internet antes da eleição presidencial do ano passado haviam escalado gradualmente para um comportamento mais sinistro em relação às instituições judaicas, que há muito tempo vêm se preparando para ameaças e muitas vezes usam segurança privada.

"Começaram com tuítes hostis", disse Mitchell D. Silber, que foi diretor de análise de inteligência para o Departamento de Polícia de Nova York. "Depois passaram para ameaças de bomba contra Centros da Comunidade Judaica e outras instituições, e agora há a manifestação física nos cemitérios, com as lápides derrubadas".

Embora o FBI esteja investigando os danos feitos às lápides em um cemitério judaico na Filadélfia, não se acredita que esse episódio, bem como um similar ocorrido perto de Saint Louis, tenha sido obra de qualquer um que esteja por trás das ameaças de bomba.

A investigação da agência sobre as ameaças de bomba provavelmente é complicada pelo fato de que os criminosos adotaram novas tecnologias, disse Ronald T. Hosko, um dos antecessores de Richardson como diretor-assistente do FBI.

"É improvável que isso seja coisa de um moleque ligando da casa dos pais", disse Hosko.

Hosko sugeriu que na verdade talvez o autor das chamadas possa estar contando com bibliotecas, restaurantes ou outros locais públicos com acesso à internet, lugares que possam estar equipados com câmeras de vigilância que o FBI poderia usar para ajudar a identificar alguém que tenha frequentado esses lugares nas datas e horários das chamadas. Cada nova ameaça, segundo Hosko, aumentava as probabilidades de uma prisão.

"Cada um desses contatos apresenta uma nova oportunidade", ele disse. "É mais um ponto na análise de padrão".

Com a enxurrada de ameaças, registradas desde Albuquerque, no Novo México, até Nashville, no Tennessee, passando por Providence, em Rhode Island, as pessoas têm considerado cada vez mais se manterem afastadas dos centros, que também atendem a pessoas de outras religiões. Algumas pessoas têm ficado aflitas com a possibilidade de a atenção pública intensa estar encorajando quem quer que esteja por trás das ligações.

"Como isso está acontecendo em seguidas ondas, existe uma preocupação pelas famílias das pessoas, e as pessoas estão pensando se deveriam continuar enviando seus filhos para centros da comunidade judaica", disse Oren Segal, diretor do Anti-Defamation League's Center on Extremism. "Quando as comunidades começam a se questionar assim, é algo extremamente alarmante e perturbador, e cumpre o objetivo de quem quer que esteja fazendo essas ameaças".

Mas líderes de instituições judaicas, em entrevistas e conversas entre si, têm expressado mais frustração do que medo.

"Ao atacarem os centros da comunidade judaica, eles estão de fato atacando o que há de melhor nos Estados Unidos: a diversidade, o pluralismo, a inclusão de uma comunidade religiosa poder acolher outras comunidades religiosas e demonstrar isso com ações práticas", disse Posner. "Isso é algo de que nunca vamos abrir mão".

* Com reportagem de Alan Rappeport e Vivian Yee

Tradutor: UOL

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