Imigrantes enfrentam execução iminente de antigas ordens de deportação nos EUA

Vivian Yee

  • Kevin Hagen/The New York Times

    Juan, eletricista colombiano com ordem de deportação dos EUA

    Juan, eletricista colombiano com ordem de deportação dos EUA

Restam pouco mais de duas semanas para Juan, um eletricista no Bronx, e uma data da qual ele não se esquecerá: 8 horas da manhã de 21 de março de 2017, dia e horário em que o governo federal o intimou para que se apresente para deportação.

Duas semanas para decidir: ignorá-la e tentar preservar por um pouco mais a vida americana que construiu, mesmo como fugitivo. Ou ir e perder tudo: sua mulher e filho, seu emprego, seu apartamento, seu mundo.

"Eu me sentiria como um animal se permanecesse aqui escondido", disse Juan, 29, que pediu para que seu sobrenome não fosse usado. "Quero provar que posso seguir as leis. Gostaria de poder expor meu caso nesse encontro, mas sei que se for, eles me deportarão."

Em um sistema de imigração repleto de escotilhas de fuga e atrapalhado por falta de recursos, Juan, que fugiu da Colômbia há seis anos, é um dentre quase 1 milhão de pessoas que conseguiram permanecer nos Estados Unidos apesar de terem sido ordenadas por um juiz de imigração a deixarem o país, algumas delas há mais de uma década.

E com a intenção do governo Trump de expulsar do país talvez milhões de imigrantes sem status legal, a Casa Branca não precisa olhar longe para deixar rapidamente uma marca. Como as pessoas com ordens de deportação já tiveram seu dia em um tribunal, a maioria pode ser expulsa do país sem ver um juiz, às vezes horas depois de ser detida.

"Pessoas com ordem de deportação e que ainda estão aqui são frutos maduros ao alcance da mão", disse Stephen Yale-Loehr, um professor de direito de imigração da Universidade de Cornell. "Trump tem dito que deseja deportar mais pessoas. A forma mais fácil de elevar os números é pegar as pessoas que já receberam ordem de deportação e ir atrás delas."

A agência de imigração do presidente Donald Trump ofereceu o que parece uma prévia: agentes do Serviço de Fiscalização de Imigração e Alfândega deportaram recentemente para o México uma mãe do Arizona que recebeu ordem para deixar o país há quatro anos.

Mas o prosseguimento será complicado. O acúmulo do que o governo chama de "imigrantes ilegais fugitivos" persistiu ao longo de governos republicanos e democratas, inflamou conservadores contrários à imigração ilegal e resistiu às tentativas das autoridades de imigração de executar as deportações.

Desde 2006, mesmo com a queda do total geral de imigrantes ilegais nos Estados Unidos, o número de pessoas com ordens de deportação cresceu em mais da metade, de 632.726 para 962 mil. Mais da metade veio do México, El Salvador, Guatemala e Honduras. (Outras cerca de 13.200, até o início de fevereiro, já estavam sob custódia das autoridades de imigração.)

Apesar dos compromissos declarados dos governos Bush e Obama de deportar aqueles que representavam um risco sério para suas comunidades, menos de 1 entre 5 pessoas enfrentando deportação foi condenada por algum crime nos Estados Unidos.

As causas para a demora podem variar.

Deportações são adiadas por razões humanitárias, como permitir que as mães permaneçam com filhos doentes nos Estados Unidos, ou são suspensas enquanto prossegue o processo de apelação. O governo Obama adiou as deportações de milhares de imigrantes que não considerava prioritárias, como a de Juan, o eletricista do Bronx, e de Guadalupe García de Rayos, a mãe do Arizona, com frequência pessoas cumpridoras da lei e com laços fortes com suas comunidades.

"Criminosos, não as famílias, não as crianças", disse o presidente Barack Obama em 2014, descrevendo o tipo de pessoas que queria deportar.

A Casa Branca tem buscado tornar mais difícil para os imigrantes permanecerem livres dentro dos Estados Unidos enquanto seus pedidos de asilo tramitam nos tribunais. Eles serão detidos com mais frequência ou lhes será pedido que aguardem no México até que um juiz decida.

"Há todo tipo de coisas no sistema que não contribuem para maximizar o cumprimento", disse David A. Martin, um professor de lei de imigração da Universidade da Virgínia e uma ex-autoridade de imigração dos governos Obama e Clinton. Isso levou a um clima, segundo ele, em que muitas pessoas não consideram uma ordem de deportação como sendo algo sério. "E essa é uma das atitudes que às vezes enfurecem, com certa justificativa, as pessoas que votaram em Donald Trump."

Em uma ruptura significativa em relação ao seu antecessor, Trump está ordenando aos agentes de imigração a irem atrás de qualquer pessoa que esteja ilegalmente nos Estados Unidos, encerrando o adiamento para pessoas que não eram consideradas prioridades. "Assegurem que os ilegais com ordens para deixarem os Estados Unidos sejam prontamente expulsos", diz a ordem executiva de Trump para imigração.

"O que faltava, até um mês atrás, era a disposição e o compromisso por parte do governo de fazê-lo de fato", disse Ira Mehlman, um porta-voz da Federação pela Reforma Americana da Imigração, que apoia controles mais rígidos de imigração. "Nada é fácil", ele disse, mas ir atrás daqueles que já possuem ordens de deportação "será a parte mais fácil da implantação das prioridades de remoção do presidente".

O governo do presidente George W. Bush reduziu o acúmulo ao empregar equipes para rastrear imigrantes ilegais com ordem de deportação e ficha criminal. Mas a estratégia causou reação negativa, quando as batidas começaram a deter imigrantes ilegais que não eram alvos.

"Isso foi algo que causou muita controvérsia e muita ansiedade nas comunidades de imigrantes, porque permitia que os agentes detivessem qualquer um a qualquer momento", disse Randy Capps, diretor de pesquisa do Instituto de Políticas de Migração, um centro de estudos não partidário.

Capps acrescentou que apesar do governo Obama ter estreitado o escopo dessas batidas, ele esperava que o governo Trump retornaria ao modelo de Bush.

No caso de Juan, o eletricista, nada impede que o governo cumpra a ordem de deportação que ele recebeu em 2013. Juan pediu asilo depois que forças paramilitares na Colômbia tentaram matá-lo, ele disse, mas ele perdeu sua apelação final no mês em que Trump foi eleito presidente.

"Eu me sinto sem esperança", disse Juan. "Minha mulher está aqui, meu filho está aqui, e eles são meu mundo. Não tenho nada para o que voltar. Estou sem opções. Não sei o que fazer."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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