Grupo do Facebook expõe mulheres que servem como fuzileiros navais nos EUA

Dave Philipps*

  • Scott Olson/Getty Images/AFP

    Fuzileira naval norte-americana durante treinamento em 2013; os "marines", fuzileiros navais norte-americanos, aceitam mulheres desde 1997

    Fuzileira naval norte-americana durante treinamento em 2013; os "marines", fuzileiros navais norte-americanos, aceitam mulheres desde 1997

Algumas fotos mostram fuzileiros navais mulheres posando com os seios de fora e calças de seus uniformes de gala ou de blusas camufladas abertas, em fotos que elas acreditavam que ficariam em segredo para sempre. Outras mostram momentos privados roubados de suas páginas de mídias sociais.

Em uma das fotos, tirada furtivamente em fevereiro, uma cabo de Camp Lejeune, na Carolina da Norte, aparece inclinada para frente, vista por trás. A imagem, uma vez que foi postada na internet, foi inundada por comentários depreciativos, incluindo sugestões de que ela deveria ser estuprada.

Agora o Departamento de Defesa dos Estados Unidos abriu uma investigação criminal e o Corpo de Fuzileiros Navais está enfrentando sua mais recente controvérsia depois que foi revelado, no fim de semana, que um grupo secreto do Facebook de fuzileiros navais ativos e veteranos compartilhava milhares de fotos nuas e privadas de fuzileiros navais do sexo feminino.

O grupo, onde só se ingressa a convite de outro membro, se chama Marines United e é composto por mais de 30 mil fuzileiros navais ativos e veteranos. A rede criou dossiês online de mulheres fuzileiros navais sem o conhecimento ou consentimento delas, listando dezenas de nomes de mulheres, patentes, nomes de usuário em mídias sociais e o local onde elas estão estacionadas.

O Corpo de Fuzileiros Navais rapidamente condenou o grupo composto somente por homens, dizendo em um comunicado no domingo que a conduta do Marines United "destrói o moral, mina a confiança e degrada o indivíduo". O serviço de Investigação Criminal Naval abriu um inquérito, e o Corpo de Fuzileiros Navais disse que qualquer fuzileiro naval que "participe diretamente de, incentive ou tolere" atividades ilícitas poderia enfrentar a corte marcial. O Corpo de Fuzileiros Navais se negou a dizer quantos fuzileiros navais estavam sendo investigados.

A notícia sobre a existência do grupo foi relatada pela primeira vez por uma organização jornalística de veteranos, a "The War Horse", no sábado.

Uma das vítimas do grupo foi Marisa Woytek, uma aspirante a cabo que serve em Camp Pendleton, que teve fotos suas tiradas de sua conta no Instagram e postadas no grupo. Ela foi alertada por amigos e enviou uma captura de tela.

"Elas não tinham nada de escandaloso, somente eu dando bom dia", disse Woytek em uma entrevista. "Mas os comentários chegaram a sugerir abuso sexual e estupro, tão degradantes quanto você pode imaginar".

"Eu amo o Corpo de Fuzileiros Navais", ela acrescentou. "Mas depois de ver aquilo, eu não me alistaria novamente".

Vários fuzileiros navais disseram que as postagens do Marines United são uma evolução a partir de uma prática de retaliação chamada "torne-a famosa". Os fuzileiros navais compartilhavam fotos nuas de namoradas ou mulheres que eles acreditavam estar sendo infiéis através de mensagens de texto com uma faixa mais ampla de pessoas, incentivando-os a compartilharem as fotos.

Jason Elsdon, um fuzileiro naval de 40 e poucos anos, que disse ser membro do Marines United e não participar da postagem, organização e disseminação das fotos, argumentou que as pessoas estavam exagerando na reação. "Eram só fotos nuas", ele disse, "eu passava direto por elas". Ele acrescentou: "Não acho que isso seja certo, mas não sinto que as pessoas deveriam ficar tão surpresas por isso estar acontecendo. Existem outros grupos, e muitos deles civis, que agem da mesma forma."

Ele defendeu a missão mais ampla do grupo e do site, que é uma miscelânea de notícias militares e humor, dizendo que eles forneciam um apoio que é necessário. Ele citou exemplos nos quais os militares estavam considerando o suicídio e que a página se "enchia" de pessoas querendo ajudar.

Embora todos os ramos das forças armadas enfrentem problemas com a integração de mulheres, o Corpo de Fuzileiros Navais talvez tenha o desafio mais difícil. Não só ele tem a menor proporção de mulheres de todas as forças armadas—7%, em comparação com os 14% do Exército—como também tem o índice mais alto de relatos de abuso sexual. As reformas também se deparam continuamente com uma cultura de combatentes da infantaria brutais que, apesar dos esforços de parte da liderança, abraçam a tradição de brigas, bebedeiras e façanhas sexuais.

"Como fuzileiros navais, nós curtimos tudo isso", comentou em um debate no Reddit sobre o grupo, postado meses antes que sua existência fosse revelada publicamente. "Como um todo, os fuzileiros navais são um grupo bruto de belicistas que gostam das coisas carnais da vida."

Mas muitos fuzileiros navais protestaram contra a ideia de que um comportamento grosseiro seria intrínseco à identidade deles.

"Isso é uma bobagem completa", disse o major Clark Carpenter, porta-voz do Corpo de Fuzileiros Navais. "Um verdadeiro guerreiro carrega consigo um senso de decência e de compaixão, mas está sempre pronto para a luta", ele disse. "Aqueles que se escondem nos recônditos escuros da internet com o escudo do anonimato e se pretendem guerreiros não são nada disso, não são nada além de covardes".

Ainda assim, a liderança do Corpo de Fuzileiros Navais nunca conseguiu livrar totalmente o Corpo de seu etos brutal, e nos últimos anos foi alvo de vários escândalos quando essa mentalidade veio a público, incluindo alegações de que comandantes teriam retaliado contra mulheres que denunciaram abusos sexuais e relatos recentes de instrutores militares aplicando trotes em recrutas, especialmente muçulmanos.

O Corpo de Fuzileiros Navais é também a força armada que apresentou a maior resistência à abertura de postos de combate para mulheres, com diversos fuzileiros navais de alto escalão dizendo que a mudança poderia afetar a eficácia de combate. Um pequeno grupo de mulheres entrou para unidades de combate em janeiro.

Mulheres que fazem parte do Corpo de Fuzileiros Navais dizem que a cultura tem sido hostil a elas há anos.

"Quando eu estava no Iraque, eu sempre carregava comigo uma lata de spray preto para cobrir o que escreviam sobre mim nos banheiros químicos", disse Kate Hendricks Thomas, fuzileiro naval veterana que hoje é professora de saúde comportamental na Universidade de Charleston Southern. "Eu tentava encarar como brincadeira, mas o assédio é tão generalizado que ele pode ter um efeito real".

O Marines United colecionava milhares de fotos que pareciam ser uma mistura de fotos privadas compartilhadas por ex-companheiras com imagens roubadas de contas pessoais. Algumas eram fotos de mulheres vestidas, outras as traziam em estados variados de nudez, usando roupas civis e militares, e muitas vezes acompanhadas de uma enxurrada de comentários obscenos.

Em setembro, um fuzileiro naval veterano chamado John Albert foi convidado a entrar no site e, enojado com o que descobriu, alertou o Facebook.

"Tenho um monte de amigos que foram mortos no Afeganistão e morreram desde que voltaram para casa. Esse tipo de ação desonra o nome deles e o Corpo de Fuzileiros Navais inteiro", disse Albert em uma entrevista.

Após a queixa o Facebook removeu a página temporariamente por violar uma proibição de nudez, disse Albert, mas o grupo aparentemente driblou as restrições sobre a nudez ao direcionar as fotos para um arquivo compartilhado do Google.

Então, no sábado, um fuzileiro naval veterano chamado Thomas Brennan, que serviu no Iraque e no Afeganistão, onde foi ferido por uma granada lançada por foguete, e posteriormente fundou o site de notícias sem fins lucrativos "The War Horse", escreveu sobre o grupo.

Oficiais do Corpo de Fuzileiros Navais, que souberam sobre o site através de Brennan, entraram em contato com o Google e pediram a remoção dos arquivos.

Desde que publicou a matéria, Brennan conta que ele e sua família receberam ameaças de morte por parte de membros do grupo. Ele acusou um membro de ter oferecido "500 paus por nudes" da mulher de Brennan e disse que estava "cooperando com diversas agências policiais" a respeito de ameaças contra ele e sua família.

"Não sou nenhum santo, fui para a guerra assim como esses fuzileiros navais. Já sentei em volta de uma fogueira no Afeganistão e compartilhei humor pesado de fuzileiros navais, no sentido de que o humor tem propriedades curativas. Mas isso é diferente. Foram longe demais", ele disse. "Estamos prejudicando outros fuzileiros navais."

*Com reportagem de Julie Turkewitz (Denver) e pesquisa de Doris Burke.

Tradutor: UOL

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