Análise: Orçamento de Trump reflete ressentimento de trabalhadores com os pobres

Eduardo Porter

  • Getty Images/iStockphoto

Era quase possível ouvir os soluços dos dois lados da divisão ideológica quando o presidente Donald Trump revelou o esboço de seu primeiro orçamento no final do mês passado, propondo cortar US$ 54 bilhões do orçamento civil optativo do próximo ano para pagar por um reforço da defesa.

Essa parte do orçamento paga quase tudo o que o governo faz fora das forças armadas, das aposentadorias e do seguro-saúde para idosos. E ela já foi cortada diversas vezes. Chega a cerca de US$ 500 bilhões, e dificilmente é o melhor lugar para se equilibrar um orçamento federal de US$ 4 trilhões. Depois dos cortes propostos por Trump, ele ficaria 25% menor que em 2010, ajustado pela inflação.

Até os congressistas republicanos, que não apreciam muito os gastos do governo, afirmaram que a matemática faz pouco sentido. Embora eles compartilhem os objetivos duplos de Trump de equilibrar o orçamento e cortar impostos, prefeririam fechar a conta cortando os direitos da Seguridade Social e do Medicare.

Mas a abordagem de Trump possui uma poderosa lógica política: os homens e as mulheres da classe trabalhadora, ansiosos e desgastados, que votaram nele gostam da Seguridade Social, do Medicare e da defesa. De outros gastos do governo, nem tanto. Notadamente, há um pequeno custo político para Trump --na verdade, um potencial lucro-- em seguir programas testados de ajuda aos pobres.

Esses programas agradam a dois eleitorados pelos quais os eleitores da classe trabalhadora mostram pouca afinidade: os pobres e as elites urbanas liberais, que podem expressar uma enorme simpatia pelos despossuídos enquanto ignoram as dificuldades da classe trabalhadora.

Embora Trump não seja o primeiro presidente a propor cortes de programas contra a pobreza para pagar por cortes de impostos, sua franqueza se afasta, pelo menos retoricamente, de um establishment republicano que insiste que se importa com os pobres.

Seus cálculos políticos poderão, paradoxalmente, proteger a Seguridade Social e o Medicare, direitos que o Partido Republicano se esforçou para controlar. Mas em áreas tão diferentes quanto cupons de alimentação e assistência à moradia, educação para deficientes e Head Start, poderia esgarçar ainda mais o resto da rede de segurança social americana.

Em "White Working Class: Overcoming Class Cluelessness in America" [Classe trabalhadora branca: superando a desorientação de classes nos EUA], que deverá ser publicado em maio pela Harvard Business Review Press, Joan C. Williams afirma que a revolta dos trabalhadores brancos contra a rede de segurança não deve surpreender: eles quase não tiram benefícios dela.

Williams, que é professora na Faculdade de Direito Hastings da Universidade da Califórnia, escreve que esses trabalhadores esforçados se ressentem não apenas dos pobres beneficiários da generosidade do governo, mas também dos políticos liberais que parecem acreditar que só os pobres merecem ajuda. E eles reagem à suposta condescendência de uma elite liberal que parece culpá-los pelo fracasso em adquirir as capacidades necessárias para ascender à classe profissional.

Em contraste, eles se consideram cidadãos trabalhadores que lutam para pagar as contas, mas são deixados fora de muitos programas do governo financiados por seus impostos.

De modo geral, 61% dos americanos pobres recebem de algum programa de benefícios, segundo uma análise do Departamento do Censo. Mas entre as famílias com renda acima da linha de pobreza --muitas em situação pouco melhor, ganhando apenas US$ 24 mil por uma família de quatro pessoas-- só 13% o fazem.

As famílias de renda média em dificuldades talvez não entendam que os programas de assistência são tão magros que os pobres quase não recebem ajuda. Mas elas podem compreender diretamente que perderam o desconto no imposto de renda porque sua renda familiar chegou a US$ 50 mil. Não causa surpresa que mães trabalhadoras se revoltem com o fato de que 30% das famílias de baixa renda que usam creches do governo recebem alguma forma de subsídio, enquanto as famílias de renda média quase não recebem nada.

"Elas só veem sua vida cotidiana estressada e se ressentem dos subsídios e da simpatia oferecidos aos pobres", escreveu Williams.

A legislação mais famosa do presidente Barack Obama, a Lei de Acesso à Saúde --a principal expansão da rede de segurança desde a guerra à pobreza nos anos 1960--, também provocou ressentimento de classe. Muitos trabalhadores aborrecidos a consideram mais um programa para os pobres que só fez aumentar seus prêmios, oferecendo-lhes pouco benefício.

Os brancos da classe trabalhadora que votaram com tanto entusiasmo em Trump incluem pessoas como Lee Sherman, 82, de Louisiana, que vive precariamente com sua aposentadoria depois de uma vida de trabalho duro e perigoso.

A aversão à rede de segurança está embutida em sua visão moral do mundo. "Ele sabia que os democratas liberais queriam que ele cuidasse mais dos beneficiários da assistência do Estado", escreveu a socióloga Arlie Russell Hochschild, que retratou Sherman em seu livro "Strangers in Their Own Land: Anger and Mourning on the American Right" [Estranhos em sua própria terra: raiva e lamentação na direita americana], editado por The New Press. "Mas ele não queria que as regras da Comissão de Pessoal lhe dissessem de quem devia sentir pena."

Para pessoas como Sherman, os benefícios do governo ligados ao trabalho, como a seguridade social e o seguro-desemprego, são recompensas legítimas pelos esforços de cada um. Os beneficiários da assistência social, por contraste, apenas "curtiam a preguiça de dia e festejavam à noite", disse ele a Hochschild.

A desconfiança racial nunca está longe da superfície: só 13% dos brancos não hispânicos obtêm benefícios de programas oficiais, segundo a análise do Departamento do Censo, comparados com 42% dos afro-americanos e 36% dos hispânicos. Assim, enquanto a maioria dos beneficiários dos programas assistenciais são brancos, muitos brancos da classe trabalhadora os veem como esquemas para distribuir o dinheiro de seus impostos às minorias.

A agenda de Trump causa ressentimento de raça e de classe: os brancos têm duas vezes mais probabilidade que os negros de preferirem um governo pequeno, segundo uma pesquisa do Centro Pew. Entre os americanos de renda média, 56% gostariam que o governo fosse menor e oferecesse menos serviços, enquanto entre os pobres só 38% gostariam que o governo encolhesse. É aos brancos de renda média que Trump prometeu servir.

Esses ressentimentos são difíceis de engolir na esquerda do espectro político. Desde os anos 1960, pelo menos, ativistas liberais defenderam a crença de que uma grande aliança progressista era possível; homens e mulheres trabalhadores, os pobres, imigrantes, minorias raciais e outras juntando-se em uma coalizão para enfrentar os conservadores e seus aliados corporativos.

A eleição de novembro --quando os brancos sem diploma superior votaram em Trump por 39 pontos percentuais de vantagem sobre Hillary Clinton-- praticamente acabou com essas esperanças.

Mas elas podem ser reanimadas? Enquanto o presidente aplica o machado sobre grande parte do governo, a questão premente para os liberais é se uma coalizão pode ser formada para proteger a frágil rede de segurança social que resta. Poderiam atrair de novo os eleitores da classe trabalhadora branca que os rejeitaram solidamente em novembro?

Esses eleitores se importam menos com direitos de gêneros e minorias. Eles podem não ter opiniões liberais sobre o direito ao aborto. É improvável que apoiem uma rede de segurança que permita que uma mulher pobre fique em casa enquanto oferece nada a um casal de trabalhadores que faz turnos dia e noite para cuidar dos filhos.

Mas, comenta Williams, o objetivo liberal não pode ser salvo sem eles: "Se os fazedores de políticas americanos compreendessem melhor a raiva da classe trabalhadora branca contra a rede de segurança social, poderiam ter a chance de criar programas que não são jogados fora dessa forma".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos