Meninas perseguidas por assassinos esperam os EUA abrirem suas portas

Frances Robles e Kirk Semple*

Em San Salvador e Cidade do México

  • Juan Carlos/The New York Times

    Veronica, 9, testemunhou o assassinato de seus avós, em San Juan Opico, El Salvador

    Veronica, 9, testemunhou o assassinato de seus avós, em San Juan Opico, El Salvador

Veronica pegou um pouco de massinha de modelar e com ela moldou pequenas figuras humanas com as mãos --e então cavou buracos no rosto da escultura.

"Olha", disse Veronica, 9, mostrando a criação para sua tia. "Foi assim que Mamá acabou".

Há mais de um ano Veronica e sua irmã estão se escondendo aqui em El Salvador, na esperança de receber um status de refugiado nos Estados Unidos. As duas meninas estavam fazendo lição de casa na mesa de sua sala de jantar quando homens mascarados entraram na casa e atiraram em seus avós --os dois únicos profissionais de saúde da comunidade-- por rumores de que o casal estaria entregando gangues do bairro à polícia.

Assim como milhares de outras pessoas, Veronica e sua irmã se candidataram ao refúgio nos Estados Unidos seguindo um esforço especial da administração Obama de combater a violência que tomou conta da América Central e enviou boa parte de sua população em uma marcha desesperada na direção da fronteira americana.

Mas, na segunda-feira, a administração Trump anunciou uma suspensão de quatro meses sobre todas as admissões de refugiados nos Estados Unidos de forma que possam ser melhorados os procedimentos de segurança e, talvez, algo mais significativo, para cortar o número total de refugiados permitidos no país em mais da metade.

"Não podemos permanecer no mesmo lugar", disse a tia das meninas, Reina, que está tentando obter um status de refugiado para suas sobrinhas, que foram testemunhas de um duplo homicídio. "Recebemos uma ligação no final de semana passado dizendo que eles nos encontrariam embaixo de qualquer pedra onde estivéssemos nos escondendo".

Quando o presidente Donald Trump tentou pela primeira vez suspender o programa de refugiados do país em janeiro, os juízes intervieram e impediram sua ordem executiva.

Mas um limite vital que os juízes permitiram --e ao qual a nova ordem de Trump dá continuidade-- é uma redução drástica no número de refugiados admitidos nos Estados Unidos neste ano fiscal, passando de 110 mil durante o mandato do presidente Barack Obama para o limite revisto de Trump de 50 mil.

E a maior parte dessas vagas já foi preenchida.

Juan Carlos/The New York Times
Retrato de Ana Diaz e Jose S. Marroquin, mortos por integrantes do grupo Mara Salvatrucha em sua casa

Mais de 37 mil refugiados de todo o mundo foram admitidos nos Estados Unidos desde que começou o ano fiscal em outubro. Até a manhã de segunda-feira, com sete meses ainda pela frente no ano fiscal, restavam menos de 12.700 vagas, pelo limite estabelecido por Trump.

Em um comunicado feito na segunda-feira, John F. Kelly, secretário de segurança interna, disse que a nova ordem executiva "deixaria os Estados Unidos mais seguro e abordaria preocupações antigas sobre a segurança de nosso sistema de imigração".

"Precisamos fazer uma revisão rigorosa de nossos programas de avaliação de vistos e refugiados para aumentar nossa confiança nas decisões que tomamos para a entrada de visitantes e imigrantes nos Estados Unidos", ele disse. "Não podemos correr o risco de pessoas mal-intencionadas usarem nosso sistema de imigração para tirar vidas de americanos".

No total, a ONU indicou mais de 100 mil refugiados de todo o mundo no ano passado para reassentamento nos Estados Unidos. A administração Obama aceitou quase 85 mil deles no ano fiscal de 2016, antes de elevar o teto de forma considerável para 2017. Agora a ordem de Trump deixará dezenas de milhares de famílias no limbo, todos concorrendo às poucas vagas ainda disponíveis.

Veronica e sua irmã --cujos sobrenomes não serão revelados para proteger suas identidades-- estão esperando para saber se elas estarão entre os escolhidos. Elas e o pai foram entrevistados quatro vezes no total, mas já se passaram meses desde então.

Membros da gangue mais conhecida de El Salvador, a MS-13, deram telefonemas ameaçadores sugerindo que haveria mais assassinatos pela frente, segundo a família. Então as meninas, o pai, tias e tios abandonaram suas casas e fugiram. Mas, em um país do tamanho do Estado de Massachusetts, não existem tantos lugares onde se esconder. Eles já se mudaram duas vezes.

Autoridades e defensores de imigrantes na América Central temem que, enquanto a administração Trump cita o perigo de se admitir terroristas em potencial disfarçados de refugiados vindos de países como a Síria, ela está ignorando as dezenas de milhares de pessoas aqui que estão sendo aterrorizadas por gangues de rua que na verdade se originaram nos Estados Unidos.

Em 2014, a administração Obama começou a estabelecer um programa para oferecer o status de refugiado ou uma entrada especial a algumas crianças centro-americanas, na esperança de conter a onda de menores de idade que vinham fazendo a perigosa jornada até os Estados Unidos sozinhos.

Mais de 11 mil pessoas se candidataram ao programa, mas somente pouco mais de 2.400 foram admitidas nos Estados Unidos até o dia 22 de fevereiro, de acordo com o Departamento de Estado. No primeiro mês de Trump como presidente, 316 pessoas foram admitidas, de acordo com o departamento.

O processo sempre foi demorado. Com a elevação dos critérios para a aprovação e a maior demora no processo, foi relativamente pequeno o número de pessoas em risco que se candidatou. Muitas crianças optaram por fugir do país em vez de esperar pela aprovação e correr riscos enquanto seus casos estavam sendo analisados. Autoridades dos Estados Unidos expandiram o programa em julho para incluir membros adicionais da família, não somente crianças.

Mas inúmeros adolescentes de El Salvador, Guatemala e Honduras esperam conseguir deixar seus países porque membros de gangues estão perseguindo os jovens, forçando os meninos a se juntar a eles e ameaçando as meninas de estupro.

"Tenho um cliente que não sai de casa desde julho", disse Berta Guevara, uma advogada do Independent Monitoring Group de El Salvador, que ajuda pessoas com seus pedidos de status de refugiado.

Guevara disse que muitas das pessoas em risco agora acreditam que os Estados Unidos não as querem mais.

"Imagine uma espera de um mês para uma pessoa que, se for vista a qualquer dia, provavelmente será morta. Para essa pessoa, cada dia é um dia terrível", disse Guevara.

Mesmo antes da ordem executiva de Trump na segunda-feira, representantes do Departamento de Segurança Interna disseram que não estavam aceitando nenhum caso novo desde que o presidente procurou suspender as admissões de refugiados pela primeira vez no fim de janeiro, congelando efetivamente novos pedidos dentro do programa.

A nova ordem executiva prorrogará essa suspensão por pelo menos mais 120 dias, deixando às crianças ameaçadas na região algumas alternativas atemorizantes, inclusive a permanência no local onde estão ou fazer a longa e perigosa jornada até a fronteira dos Estados Unidos, a sudoeste, para efetuar o pedido de asilo ou alguma outra forma de auxílio humanitário.

"Ainda existe essa ambivalência em encarar a situação centro-americana como uma crise de refugiados", disse Wendy Young, presidente da Kids in Need of Defense, uma organização de Washington que oferece assistência jurídica a crianças imigrantes desacompanhadas.

"Existe uma percepção no mundo de hoje de que os refugiados são pessoas que estão fugindo da guerra, e de que a violência relacionada a gangues e tráfico de drogas não é guerra", ela disse.

A longo prazo, o programa de Obama para a América Central também poderá ser ameaçado por depender frequentemente de uma regra especial chamada de permissão condicional humanitária, que permite que determinados imigrantes entrem nos Estados Unidos temporariamente mesmo que não se qualifiquem como refugiados.

Alguns republicanos que querem limitar a imigração dizem que a permissão condicional humanitária é uma janela usada em excesso para se entrar nos Estados Unidos. E Trump, em uma ordem executiva emitida no mês passado que procurava fortalecer a segurança na fronteira, focou no "abuso da condicional e das medidas de asilo".

A tia de Veronica, Reina, disse que estava com mais medo do que nunca. Foram efetuadas prisões dentro desse caso, provocando mais ameaças.

"Ofereceram-me ajuda para deixar o país, mas não posso simplesmente sair daqui até que essas garotas estejam seguras", disse Reina.

Ela disse que já pediu US$ 6 mil (cerca de R$19 mil) emprestados para pagar um coiote para levar seu filho de 15 anos, que também testemunhou os assassinatos, até Dallas.

Oscar Torres, um promotor que comanda a divisão de homicídios na área onde a mãe e o padrasto de Reina foram mortos, reconheceu que a família inteira se encontrava em grave risco, tenham eles testemunhado os assassinatos ou não.

Segundo ele, das sete pessoas que participaram dos assassinatos, quatro estão na cadeia enquanto aguardam o julgamento, uma ainda está sendo procurada, outra foi morta em um tiroteio com a polícia e um menor de idade foi solto após pagamento de fiança. Um dos acusados é um líder de gangue conhecido como El Tigre. Membros de gangues são particularmente notórios por matar as famílias de possíveis testemunhas quando um líder de gangue é acusado, ele disse.

"Se esses caras vierem a ser sentenciados, eles não vão gostar do fato de que o líder da gangue deles, o mano deles, como dizem, foi condenado, então essa família passa a ser um alvo", disse Torres. "Para onde essas pessoas vão? Que caminho lhes resta?"

* Com reportagem de Gene Palumbo (San Salvador) e Somini Sengupta (ONU).

Tradutor: UOL

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